Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 29 de Abril de 2005
Bronze nas dunas
O Sr. Américo era um homem dos seus cinquenta e tal anos.
Fanático da praia, costumava ficar numa barraca perto da minha, quero dizer, da minha família.
E como isto aconteceu durante vários anos consecutivos, o conhecimento mútuo surgiu naturalmente.
Além de ser uma defensor acérrimo dos benefícios para a saúde do ar do mar, do exercício físico, dos banhos em água fria (aqui no norte também não era fácil ter água à temperatura da do mar do Algarve), procurava bronzear-se o mais possível (mas com os cuidados inerentes, embora naquele tempo ainda não se falasse no cancro da pele provocado pelo sol).
Pessoa metódica, quasi obstinada, era muitas vezes o primeiro a chegar ao areal. Coisa de que se orgulhava. E brincava connosco, os mais novos:
- Não tem vergonha? Em vez de aproveitarem este iodo e este sol, nas horas em que ele é melhor, bem cedinho, ficam na cama. Que desperdício! Ponham os olhos aqui no velhote!
E fazia todas as manhãs e todas as tardes o seu “cross” pelo extenso areal.
O facto é que era um homem saudável!
O seu gosto em andar bem bronzeado levava-o a ir passar uma meia hora para as desertas dunas onde, estendida a toalha e removido o calção de banho, se comprazia a bronzear as partes que não podia, por decoro, exibir em público.
Mas às vezes o destino é um pouco maldoso e, numa bela manhã, estando o Sr. Américo com o trajo de Adão (mas sem parra) a bronzear as bochechas, ouve um pequeno ruído.
Ah, maldição!
Não é que um corpulento cão, veraneante não habitual por aquelas paragens, resolveu abocanhar o calção de banho do nosso amigo e afastar-se calmamente do local?
O nosso protagonista, atrapalhado como é de calcular, lá começou a chamar o bicho:
- Ó cão! Anda cá! Ó pá! Dá-me cá isso! Então?
Como que a gozar, o cachorro andou um bocado, parou, mirou o nosso herói que nessa altura já se tinha levantado e posto a toalha à volta da cintura (felizmente estava munido de toalha, senão...) e prosseguiu a sua lenta caminhada.
- Ó filho da puta! Dá-me cá os calções!
É o dás! Mais uma paragem. Mais uma olhadela desafiadora. E retomou o percurso para maior irritação do Américo.
Até que, finalmente, e para alívio do banhista, o canídeo largou o troféu.
A cena parece que demorou uma meia hora (eu acho que teria sido menos, mas o tempo psicológico para a vítima do atrevido canídeo foi seguramente maior que o tempo real).
Vestidos os calções, o nosso velho amigo lá regressou à base.
Lá chegado, começou a rir-se, a rir-se, a rir-se...e nunca mais parava.
Até que finalmente narrou a sua aventura de nudista roubado arrancando gargalhadas com fartura.
Já não me lembro bem se voltou a ir fazer bronze para as dunas. Acho que sim, mas certamente tomando algumas precauções suplementares.
Uma coisa é certa: a peripécia deu uma boa história (com um toque de erotismo e tudo), ou não deu?


publicado por António às 14:30
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7 comentários:
De Maria Papoila a 26 de Março de 2007 às 20:07
Olá António:
Ri às gargalhadas com a história do Sr. Américo... eu conheci um Carlos assim mas as dunas... estão a ser desfeitas em Esmoriz... e na Caparica...
Lembrei-me de Rui Reininho...

Gnr - Dunas

Dunas, são como divas
Biombos indiscreto de alcatrão sujo
Rasgados por bocados de hortelã
Deitados nas Dunas, alheios a tudo
Olhos penetrantes
Pensamentos lavados

Refrão

Lambemos os lábios, refrescos, gelados
Selamos segredos
Saltamos rochedos
Em camara lenta como na TV
Palavras a mais na idade dos "PORQUÊ

Dunas como nunca são divas
Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados
Sacos camas salgados
Nas Dunas, roendo maçãs
A vegta de aguoestódio, boiando vazias as ondas da manhã





De leonoreta a 1 de Abril de 2007 às 15:02
ó fdp, dá-me os claçoes disseo o velhote

bonito nome para um cão. nunca me tinha lembrado desse. proximamente farei a sugestão a quem quiser adquirir um, rsss
abraço da leonoreta. enfim... o teu jeito de contar historias já vem de longa data.

abraço da leonoreta


De António a 1 de Abril de 2007 às 15:57
Que quer dizer fdp?
ihihihihihihihih


De leonoretta a 1 de Abril de 2007 às 21:17
não quis usar a expressão completa por simples mariquice. mas se a usaste no teu artigo e já que me perguntas eu trancrevo-te: "ó filho da puta...."
apenas usei as iniciais. achei graça a todo o texto mas gostei especialmente dessa parte.
abraço da leonoreta


De António a 1 de Abril de 2007 às 23:04
Eu sabia.
Estava a provocar-te.
Beijinhos


De leonoretta a 2 de Abril de 2007 às 11:49
ah!
fui apanhada. afinal ontem foi dia das mentiras.
por acaso estranhei nao saberes mas eu tambem so soube ha muito pouco tempo.
abraço da leonoreta


De António a 2 de Abril de 2007 às 12:36
És muito ingénua, querida Leonor!
Mas também não me admiro:
és muito nova e pequenina.
ah ah ah

Beijinhos


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