Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 11 de Abril de 2005
Eu, borboleta
Finais de Novembro de 1956.
Eu frequentava a 2ª classe.
Turma só de rapazes pois Salazar não gostava de promiscuidades.
Numa aula que se previa normal, a jovem e bonita professora D. Ester, deu-nos a novidade:
As mestras iriam organizar um espectáculo de Natal para ser assistido pelos familiares dos alunos.
Claro que a rapaziada ficou em alvoroço. Mas as informações não tinham terminado e a D. Ester continuou:
(já passaram muitos anos e o que retenho é só uma pequena parte de todas as peripécias ocorridas)
O espectáculo seria constituído por vários quadros, neles participando activamente só uma parte dos alunos de todas as classes.
E outras coisas disse. Recordo que, não sei se nessa manhã ou noutra qualquer, fiquei a saber que era um dos escolhidos.
E qual o meu papel?
Borboleta! Isso mesmo! Eu, borboleta, com mais quatro miúdos da 2ª e cinco da 1ª classe.
O número consistia numa dança das mariposas ao som do Danúbio Azul e com uma interessante coreografia criada pelas professoras.
Lembro-me que havia também um quadro com gafanhotos saltitantes, outro com os 7 anões (acho que a Branca de Neve não entrava...o Salazar não deixava), um mocito da 4ª classe recitava um poema, um grupo coral cantava e outros números que já esqueci.
Mas voltemos às borboletas.
Tivemos que confeccionar um fato especial (o trabalho de guarda-roupa foi excelente), todo negro, muito justo ao corpo e cabeça, diria que muito parecido com o dos actuais mergulhadores, mas o material era um tecido, talvez flanela.
E as asas, brancas para os mais novos, amarelas (amarelo torrado) para os mais velhinhos - portanto para mim - eram de um tecido fino e macio, penso que seda artificial, com uma armação de arame, cosidas aos braços e deles pendentes. Quando os braços se elevavam e baixavam, as asinhas agitavam-se de uma maneira graciosa.
Nas semanas em que as vestimentas eram confeccionadas íam decorrendo os ensaios.
Até que chegou o grande dia!
(na tarde de um sábado, no fim das aulas do primeiro período, ainda recordo)
Vestiram-me em casa. Fizeram-me um sinal artificial na carinha laroca com o carvão de um fósforo queimado. E puseram-me um pouco de um bâton levemente rosado nos lábios.
E lá fomos.
Eu nos bastidores (com os outros artistas), os papás e a mana sentados na plateia.
E a coisa correu bem! Ninguém trocou o passo!
As professoras (Ester, Palmira, Maria da Graça e Maria Adelina) estavam radiantes...e tinham motivo para isso. O show fora um sucesso. E eu senti-me gente.
Agora já sabem como é que fui, durante algumas semanas, uma borboleta.
Quem esboçou risinhos malandros ao ler o título, lixou-se!
Bem feito!
Já se tinham esquecido da inocência da vossa infância?


publicado por António às 14:44
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2 comentários:
De leonoreta a 26 de Maio de 2007 às 15:13
de todas as coisas importantes que eu li neste artigo retive uma com todo o interesse: já se pensava levar a familia á escola. coisas dos tempos modernos que tantas dores de cabeça tem gerado na organização da escola.... ás vezes.
abraço da leonoreta


De António a 26 de Maio de 2007 às 19:48
Mas era só para fazer queixa de miúdos que davam problemas e para a festa.
Se não fossem os pais não iria mais ninguém...ah ah.

Beijinhos


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