Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 10 de Agosto de 2005
No campo de trabalhos
Nos primeiros dias de Agosto de 1972, com 23 anos e nove contos de rei no bolso (dinheiro emprestado pelo meu pai para fazer face a eventuais despesas não previstas), uma mala pesada e a cabeça carregada de imaginação, voei para Londres onde passei uma noite.
Na manhã seguinte, e num dia que não consta dos meus registos, infelizmente, pois esta necessidade de me localizar no tempo e no espaço é quasi doentia, dirigi-me, de táxi, do hotelzinho tipo asilo para indigentes onde pernoitara, para a Liverpool Stress Station onde apanhei o comboio para March Station, duas horas afastada, já no Cambridgeshire.
Lá nos esperava (a mim e a muitos outros jovens de todo o mundo) um período de vinte e dois dias de trabalho no Friday Bridge Agricultural Camp, perto da cidadezinha de Wisbech, uns duzentos quilómetros para norte de Londres.
Durante a viagem travei conhecimento com uns portugueses e espanhóis, que viriam a ser meus parceiros habituais durante todo o período nesse antigo campo de concentração da segunda guerra mundial. Sim, porque os aliados também faziam prisioneiros e tinham de os meter em algum sítio.
Chegados a March, estava à nossa espera um autocarro que fez várias viagens da estação para o campo para transportar os “trabalhadores”. E uso esta palavra porque se nós, rapaziada jovem, encarava aquilo como um campo de férias onde se podia trabalhar e ganhar algum dinheiro, os responsáveis do Friday Bridge encaravam-nos como mão-de-obra em stock para suprir as necessidades da agricultura e indústria agrícola locais.
Uma vez no campo, deram-nos um folheto explicativo e uma prelecção.
Fiquei logo a saber que tínhamos de pagar uma série de coisas. Não gostei!
Além da zona de refeitórios, bar e a enorme sala de convívio, tudo no edifício central, velho mas restaurado, havia a vasta zona dos dormitórios (que era constituída por bangalôs). Uma parte para rapazes e outra para raparigas, separadas por uma rede de arame. Mas rapidamente os mais safados descobriram algumas passagens clandestinas através da cerca. Havia um número elevado de bangalôs (pois os utentes eram duzentos e tal, se a memória não me atraiçoa) e cada um deles tinha umas doze pequenas e desconfortáveis camas. Nada de armários. Umas prateleiras, uma pequena caixa para guardar objectos, uma cadeira para cada um. A roupa ficava dentro da mala ou a arejar na cadeira, sobre a cama ou em cima da bagagem. Luz directa quasi não havia e a indirecta chegava para ler um livro, mas de letras bem gordinhas.
Fui colocado num deles juntamente com alguns portugueses, mas também com os espanhóis do comboio e outros tipos de diferentes países.
No campo havia predominância de italianos. O raio dos tipos falavam alto e de forma arrogante e faziam uma tal barulheira que, rapidamente, se tornaram os mais detestados. Uma vez, um dos mais parlapatões irritou de tal modo um pacato e gigantesco alemão que este lhe deu um murro na trombeta que o fanfarrão voou, como nos filme. Delirante!
Mas havia gente de imensos países. Da Europa, principalmente, mesmo do leste europeu que ainda estava sob o jugo soviético.
Orientais também. Japoneses, claro, mas eram poucos.
Também brasileiros e de outros países da América Latina. Não me posso esquecer de uma bela morena argentina que tinha o interessante hábito de, durante a noite, escapulir-se para a zona do dormitório dos homens onde metia a cabecita debaixo da roupa da cama dos moços e oralisava um tratamento anti-stress.
Entretanto, foi lido e afixado o nome dos “operários” que iriam trabalhar no dia seguinte.
Não havia trabalho para todos, diariamente, por isso era preciso ter sorte ou engraxar os responsáveis do campo. Tive sorte. Chamaram logo o Mr. Dias (pronunciaram “daias” tendo eu reclamado, em vão, que era “dias”).
Lidas as instruções sobre o trabalho do dia seguinte, fomos jantar uma comida horrorosa feita à base de vegetais.
Depois, foi a altura de procurar uma miúda para meter conversa e ver o que dava. E não é que estavam já todas engatadas? Havia uma inglesa loira, gorda e com os dentes estragados que me fazia uns olhinhos, mas não me atraía muito e continuava esperançado em arranjar uma mais jeitosa. Mas essa noite, como as outras, acabei-a a beber uns copos e a conversar com a malta do costume, a quem se juntaria um grupo de três portuguesas.
Na manhã seguinte, bem cedo, lá fui para uma fábrica de enlatados vegetais (nomeadamente favas e ervilhas). Fui colocado junto de um tapete rolante que transportava esses vegetais ainda quentes e fumegantes da cozedura que haviam sofrido previamente em grandes panelões, tendo a tarefa de retirar com a mão os que tivessem um aspecto mais feio ou apodrecido. Coisa simples. Depois andei a transportar de um lado para outro uns bidões de ferro, mas vazios. Aquilo estava a correr bem! Perguntaram quem queria ficar a fazer horas extras. Voluntarizei-me.
Em suma: trabalhei doze horas mas ganhei uma boa maquia em libras.
E qual não é a minha surpresa quando, ao chegar ao campo, extenuado e cheio de sono, me dizem que estava de novo convocado para o dia seguinte. E para a mesma fábrica. Fui logo dormir.
De manhã, bem cedo, tomamos o pequeno-almoço e fomos transportados para o local de trabalho.
Mas desta vez não tive tanta sorte:
Os supervisors, que podemos traduzir por encarregados (prefiro esta designação à de supervisores), perante as tropas voluntárias, começaram a chamar com um dedo (naquele conhecido movimento repetitivo em que o indicador se dobra parecendo um anzol e se estica, repetidamente) a rapaziada – moças incluídas, claro – para as mais diversas tarefas. E não me ligavam nada.
Finalmente fizeram-me sinal e um dos mandões levou-me para cima de um palanque localizado mesmo no início de um dos tapetes rolantes de que já falei atrás. Deram-me uma pá e fiquei à espera.
Passados uns minutos, colocaram ao lado do tableau onde eu aguardava, um enorme penelão cheio de favas, fumegante. Tive de tirar os óculos pois ficaram, de imediato, embaciados.
E veio a ordem: alimentar, à pazada, o tapete com favas. Mas tinha de ser rápido para que a cobertura da tela transportadora pelas favas fosse contínua.
Ora reparem bem! Foram escolher para o trabalho mais pesado (era necessária uma força de braços muito grande para bem cumprir a tarefa) um dos mais baixos e leves do grupo.
Resultado?
Durante uns minutos a tarefa foi cumprida. Mas as forças foram faltando e cada vez era maior o intervalo entre as descargas das sementes. Os supervisors bem protestavam comigo, mas o resultado era cada vez pior. Cheguei ao limite com pequenos montinhos espaçados de uns dois metros.
Os chefes vociferavam mas, com o barulho, não percebia nada. Até que tomei uma decisão. Desci do palanque e disse:
- I wanna go away!
E tentei fazer-lhes ver que havendo uns “operários” com um corpanzil enorme, me deviam colocar noutra actividade. E não é que os pataratas disseram que não? Mandaram-me descansar e comer qualquer coisa para recuperar energias, os burros. Comi uma das horrorosas sandes de tomate e alface que trouxera do campo. Nunca gostei nem gosto de sandes de vegetais.
Ao fim de uns minutos puseram-me outra vez em cima do palanque. Nem três minutos lá fiquei.
Fui despedido!
Pagaram-me o tempo que lá tinha estado, uma ninharia, apanhei uma boleia na estrada e regressei ao campo onde finalmente dormi uma boa soneca.
E como os dias foram passando sem ser novamente convocado para trabalhar, juntamente com mais um ou dois ou três portugueses (ou os que quisessem alinhar), fomos percorrendo a região e as cidadezinhas à boleia.
Wisbech foi onde nos deslocamos mais vezes. Também era a mais próxima do campo e tinha uns pubs muito engraçados e com uma boa frequência. March, Hunstanton, Harwich e Peterborough foram outros dos destinos onde eu fui gastando a reserva de dinheiro que o meu pai me emprestara.
As noites eram passadas em cavaqueiras ou guitarradas bem divertidas, com os portugueses e alguns espanhóis. A malta do costume, afinal. E assim não fui praticando o inglês que era uma das finalidades desta minha permanência no Reino Unido.
Finalmente, ao fim de mais de uma semana sem ser escalado para o exterior, apareceu de novo o meu nome na lista dos “trabalhadores” escolhidos.
Desta vez o local era um pomar de ameixieiras.
A tarefa, trepar às árvores e encher um enorme cesto de vime com ameixas em bom estado de conservação. Mas totalmente cheio. Depois devíamos regressar ao local onde estavam os mandões, a colheita era pesada, despejada nuns camiões e partíamos novamente com o cesto já vazio.
E lá fui eu feito capuchinho vermelho de cestinha na mão até uma árvore. Pedi emprestado um escadote, fui enchendo o recipiente, mudei de árvore, mais ameixas lá para dentro e, pronto. Tudo cheio!
Quando tentei pegar no cesto para o levar à pesagem, nada! Não tinha força para o sustentar.
Pedi ajuda a alguns tipos mas a solidariedade não funcionou.
Resolvi, então retirar parte da carga. Quando verifiquei que já tinha músculo para o transportar, lá fui eu.
Chegado à pesagem, os encarregados viram o cesto meio vazio (eu via-o meio cheio) e mandaram-me para trás enchê-lo.
Voltei ao mesmo local! Novamente as ameixas para dentro e mais pedidos de ajuda, mas sem resultado.
Acabei por deixar cesto e fruta e fui-me embora.
Pelo menos desta vez não fui despedido. Antecipei-me!
E os dias continuaram como tinham sido até ali. Boa vida, umas passeatas e as divertidas noites de música e palavras.
Poucos dias antes de me vir embora, fui trabalhar para a fábrica dos enlatados. Dessa vez tudo correu bem e ganhei algum dinheirinho, que bom jeito dava pois as reservas estavam a desaparecer mais depressa do que eu desejaria.
Ao fim dos vinte e dois dias programados, fiz a viagem de regresso a Londres. Ainda por lá andei três dias, acompanhado por um dos patrícios do campo, até voar para o Porto.
Depois da chegada, dos beijos, dos abraços, das lágrimas da mamã, das perguntas e de tudo o mais que é habitual nestas ocasiões, interrogou-me o meu pai:
- Chegaste a usar algum do dinheiro que te emprestei?
- Gastei-o todo – respondi.
- Gastaste os nove contos todos?
- Sobraram uns trocos.
- Nove contos? Isso é muito dinheiro! – cogitou o meu pai com cara de chateado.
E rematou:
- Pronto, está bem! Está dada a prenda de formatura!
Lixei-me!


publicado por António às 18:41
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6 comentários:
De Jorge Hipolito a 3 de Outubro de 2007 às 22:46
Tambem eu estive em 72 No Friday Bridge.
Diverti-me a valer, nos meus 17 anos.Na Smedley´s,
a fábrica dos enlatados, mandaram-me pegar num carro de mão e passava os dias com uma vassoura a limpar as pontas do feijão-verde que ficavam debaixo dos tapetes rolantes.À noite era só arrumar o carro bem escondido e no dia seguinte ir busca-lo antes dos supervisors me destinarem outro trabalho, e já eu estava a varrer de chapéu de papel ridiculo na cabeça...
Quanto aos dias da ameixa, juntei-me a dois italianos, dávamos com a escada na arvore, caíam as ameixas todas no chão, era só pôr as pôdres por baixo e as boas por cima, pois o homem do tractor só nos via antes de deitarmos tudo lá para dentro.Um dava na arvore e os outros dois carregavam.Uma mina !
Fiquei dois periodos inteiros e o dinheiro que sobrava gastava ao fim de semana.
Quando voltei a Londres estava completamente teso !Fiquei uma semana num albergue em Drury Lane onde só podia ir dormir depois da meia noite pois antes faziam na sala combates de boxe clandestinos Telefonei aos meus pais e confessei que se não me mandassem uma passagem de avião teria de lá ficar
a trabalhar. Muitas viagens e muitos anos (35)depois, ainda me lembro da sensação de liberdade plena que senti.

Um Abraço
Jorge Hipolito


De António a 4 de Outubro de 2007 às 00:12
Olá!
Li com muito gozo este comentário.
Como o mundo é pequenote...
Quando eu lá estive comecei com muita vontade de trabalhar mas depois habituei-me a encarar aquilo como férias, e tendo a almofada dos 9 contos...

Um abraço


De joao.franco@interiberia.pt a 1 de Fevereiro de 2008 às 12:41
Apenas hoje encontrei este tema neste blog, ao pesquisar por Friday Bridge.
Eu, em relação a vocês, sou um dinosauro de Friday Bridge. Estive lá em 1964. Ia por 3 semanas e fiquei mais de 3 meses. Adaptei-me perfeitamente aquela vida. Claro que também sofri as amarguras de não ter trabalho, nem dinheiro consequentemente. Mas havia a solidariedade dos portugueses que se entreajudavam. Trabalhei na Smedley's, principalmente no tapete rolande depois do cilindro que tirava as pontas ao feijão verde, para completar o trabalho nos que vinham ainda com pontas. Mas fiz imensas outras coisas. Até escavações arqueológicas en Burton. Foi a viagem da minha vida. Tinha 18 anos e saí de Lisboa com um bilhete para o Sud-expresso só até Irum e 1.600 escudos no bolso e... 14 dias antes da data para a qual me tinha inscrito para estar em Friday Bridge. Boleia até Paris, 3 dias em Paris, avião Paris/Londres, 2 dias em Londres e boleia até Friday Bridge. Tudo com um conto e seiscentos. E não morri. Acho que foi aí que aprendi a ser o desenrascado que sempre tenho sido.
Mas essas férias ainda me ensinaram mais. Quase em Outubro, já com mau tempo, quando eu precisava de trabalhar mais 2 semaninhas para ter dinheiro para o Sud-Expresso de volta, o campo fechou de repente, por decisão do warden. Houve uma batalha campal nessa noite. Fiquei tramado. Ainda tentei ir para outro campo que sabia estar a funcionar, mas nada. Tentei arranjar trabalho na industria, andei por muitos lados e nada. Vim para Londres e pedi dinheiro a casa. O valor declarado que o meu pai enviou, seguiu por correio normal e levou 20 dias a chegar à Embaixada de Portugal em Londres onde eu, sem um penny, sobrevivi 21 dias, indo 2 vezes por dia à Embaixada perguntar pelo dinheiro.
Bons tempos. Grandes recordações. A eleição da Miss Friday Bridge todas as semanas e o privilégio de andar com uma eleita. E ter conseguido infiltrar-me no espaço Ladies Only apesar dos cuidados do guarda cossaco reformado. Muitas aventuras. Grandes amizades.
João


De António a 1 de Fevereiro de 2008 às 14:40
Tenho que reconhecer que as minhas aventuras foram bem menos emocionantes...eh eh

Abraço


De Pedro a 7 de Julho de 2008 às 22:54
Que saudades desse tempo! estive em fridaybridge em 1993 e tinha 20 anos, tambem fui do tipo sair de lisboa no sud express com meia duzia de trocos no bolso, eu por acaso fartei de trabalhar nas maquinas de apanhar batata, e a camaradagem entre todos no campo era excelente e claro tambem tiivemos as nossas noites de miss fridaybrigde e claro as escapadelas a meio da noite ao ladys only, de 1964 a 1993, nada mudou!

Pedro


De António a 7 de Julho de 2008 às 23:35
Olá!
Eu estive lá em 1973 e não em 1964.
Não sou assim tão velhinho...eh eh
Mas é giro saber que aquilo em 1993 ainda funcionava em moldes semelhantes.

Abraço


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