Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 26 de Julho de 2005
Uma turma difícil
Tendo regressado da comissão de serviço no Ultramar (como se dizia na altura) em Outubro de 1975 e tendo terminado um mês depois o serviço militar obrigatório, vi-me com um “canudo” debaixo do braço mas sem emprego.
A situação era particularmente delicada pois estávamos no auge do gonçalvismo (que esteve em vias de provocar uma guerra civil em Portugal) e, consequentemente, as empresas fechavam às catadupas, muitos empresários fugiam para o estrangeiro e a oferta de emprego baixava.
Acresce que a procura aumentou imenso. Quer devido aos imensos militares que estavam na tropa e que, de repente, vieram engrossar as hostes de desempregados, quer devido aos incontáveis “retornados” das nossas colónias africanas.
Foi neste quadro que, três anos após ter concluído os meus estudos, estava a viver com os meus pais. É certo que tinha um bom pé-de-meia trazido da Marinha mas, com a inflação na casa dos vinte por cento, esse dinheiro desvalorizava rapidamente.
Lembro-me de quando nós, os desempregados, nos encontrávamos na baixa portuense e perguntávamos:
- Ó pá! O que é que fazes?
A resposta era, invariavelmente:
- Nada! Compro tudo feito!
Ou de uma anedota que circulava na época:
“Um jovem engenheiro sem emprego, foi oferecer os seus préstimos a um circo. O dono deste disse-lhe que só tinha uma vaga: a de funâmbulo e teria de caminhar no arame sobre uma arena com leões. O nosso jovem, valente, aceitou o desafio a troco de um pequeno salário. Mas, como não era propriamente um expert nessa actividade, logo no primeiro ensaio caiu na arena. Estarrecido, viu um dos leões aproximar-se mas, qual não é o seu espanto quando o animal lhe sussurra ao ouvido:
- Não te preocupes. Nós, os leões, também somos todos malta de engenharia!”.
Corri tudo a procurar onde ganhar dinheiro. Escrevi muitas dezenas de cartas.
Finalmente, talvez em Janeiro de 1976, arranjei umas aulas de Matemática num ano “zero” do Instituto Industrial, hoje o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Mas sem qualquer vínculo.

Entretanto recebi uma comunicação do Ministério da Educação para me apresentar na Escola Industrial de Penafiel.
Era uma escola muito velhinha, que ficava no monte do Sameiro, bem perto do centro da cidade. Ao lado já estava em construção uma escola nova que seria inaugurada no ano lectivo seguinte.
Mudei logo. Tinha mais segurança de emprego. E, enquanto não aparecesse outra coisa, era trabalho. Embora nunca tivesse sido meu objectivo leccionar, era uma actividade que me dava algum prazer.
Isso aconteceu na altura das férias da Páscoa e fui substituir uma professora que dava Física ao antigo 6º ano do liceu ou equivalente (já não sei muito bem como estava organizado – ou desorganizado – o ensino na época, pelo que podem haver aqui algumas imprecisões) e que fora com o marido para o Canadá.
Daria também aulas a uns miúdos do 3º (ou 7º) ano.
Quando comecei a travar conhecimento com outros professores e lhes dizia que tinha ido substituir a Dr.ª. Alice Pires, diziam-me invariavelmente:
- Então tens o 6º B! Estás lixado! Tem lá um grupo que é do piorio. Ninguém tem mão neles.
Comecei a ficar com algumas preocupações.
Mas quando falei com a professora de Matemática dessa turma e a vi quasi a chorar por não conseguir controlar a rapaziada, reparei no ar choninhas e absolutamente despido de autoridade que ela tinha e pensei:
- A esta até eu tinha vontade de dar tanga.
As primeiras aulas a essa turma decorreram com toda a normalidade. E refiro-me às primeiras duas ou três semanas. Não compreendia a razão de tanto alarmismo. Havia mesmo um grupo de alunos aplicados e interessados em aprender.
Uma vez, em conversa com uma professora que dava aulas de Química, a Conceição Castro, e falando sobre as minhas impressões acerca dessa turma, disse-me ela:
- Olha! Se os professores se souberem impor não há problemas.
Concordei.
Até que, numa aula teórica (não havia aulas práticas) das onze ao meio-dia, a ser dada no laboratório de Física, estava eu a escrever no quadro quando começo a ouvir um tic-tac esquisito. Voltei-me e vi o ar de riso da malta. Caminhei em direcção ao ponto donde vinha o som e deparo com um metrónomo (um daqueles aparelhos que servem para marcar o compasso da música), dentro de um armário com material para experiências, a funcionar.
Desliguei-o e disse com um tom autoritário:
- Quem ligou isto quer ter a dignidade de se acusar?
Claro que ninguém o fez. Após uma pausa, concluí:
- Espero que isto não volte a acontecer!
E voltei para o quadro continuando a exposição da matéria. Quando estava de novo virado para o quadro: tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Comecei a ferver.
Fui outra vez desligar o aparelho mas, desta vez, dirigi-me a um grupo de discentes (dos mais atrevidotes) que estava sentado junto do armário:
- Só pode ter sido um de vocês! Ninguém quer assumir o acto que praticou?
Silêncio….
Voltei para a secretária, olhei para os gajos e disse com um tom de voz mais alto que o costume:
- Meus senhores. Se isto voltar a acontecer eu dou a aula por terminada. Ouviram bem? E mais! Considero toda a matéria que deveria ter sido ensinada nesta aula como efectivamente leccionada. Entendidos?
- Sim, senhor doutor – responderam timidamente poucas vozes.
Passado um pouco eis-me, de novo, voltado para o quadro, e:
tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Fiz uma pausa. Poisei o giz. Assumi um ar austero e disse:
- A aula está terminada! Podem estudar a matéria até à página 112 pois é considerada como ensinada. Muito bom dia!
Arrumei as minhas coisas e saí.
Apercebi-me que havia alguma discórdia entre os alunos. Mas fui à minha vida.
Na aula seguinte tudo correu normalmente. E assim foi até ao fim do ano.
Sem querer, tinha aplicado o velho lema dos líderes:
“Dividir para reinar”.
De facto, os alunos interessados tinham-se imposto aos outros alegando que estavam ali para aprender e passar. Era rapaziada humilde e não se podiam dar ao luxo de andar a brincar. Senão iriam trabalhar mesmo sem terem completado os estudos.

Terminadas as aulas, uma tarde encontrei-me com um numeroso grupo de alunos daquela turma. Estavam a ver as notas. Cumprimentamo-nos como normalmente mas, um dos mais irreverentes, o Pinheiro, dirigiu-se a mim e disse-me:
- Tenho de lhe dar os parabéns, senhor doutor. Foi o único professor que conseguiu dominar a nossa turma.
Confesso que fiquei um bocado inchado. Mas fora assim mesmo!
Mais tarde uns colegas disseram-me que eu cometera uma ilegalidade e que, se fosse apresentada queixa contra mim, eu estaria tramado.
Só respondi:
- Então apresentem queixa e depois veremos!

Afinal, uma turma difícil nem sempre é assim tão difícil. Depende…


publicado por António às 19:52
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