Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 13 de Julho de 2005
Em Las Palmas
Tendo terminado os meus estudos em Outubro de 1972, tinha por objectivo prioritário cumprir o serviço militar para depois encetar uma carreira profissional.
Estava a fazer o estágio obrigatório de três meses (e ao mesmo tempo a tentar ganhar umas coroas vendendo uns apartamentos do Algarve - como não vendi nenhum, não ganhei nada -), quando fui informado de que estavam a iniciar-se os exames do concurso para oficiais da Reserva Naval, que era o curso de oficiais milicianos da Armada.
Sabia que era uma das melhores maneiras de fazer a tropa. Éramos alojados na Escola Naval, no Alfeite (juntamente com os cadetes que durante quatro anos faziam a preparação para uma carreira na Marinha de Guerra), e tratados como gente fina. Empregadas para fazer as camas e arrumar os quartos, refeições magníficas com dois pratos, ao almoço de quinta-feira havia direito a um cálice de Porto e a um bolo. Enfim, tudo do bom e do melhor!
Pelo que estou a dizer, já adivinharam que de facto, em Fevereiro, mesmo à justa com o fim do tal estágio, fui para a conhecida Escola sita na margem esquerda do Tejo para cumprir seis meses de formação.
Ainda passei um mês em Vila Franca de Xira, no Grupo 1 de Escolas da Armada. Aí não tínhamos alojamento suficiente e com o mínimo de qualidade e resolvi alugar um quartinho cá fora. Pago pelo papá, pois claro!
No fim desse meio ano (de bastante estudo, diga-se de passagem), iniciamos uma viagem de instrução, que durou cerca de três semanas, na fragata Roberto Ivens. Éramos quarenta cadetes.
A viagem decorreu em Agosto e a primeira etapa foi uma ida à bela Ilha de S. Miguel, nos Açores.
Depois fomos até Mindelo, na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde.
E regressamos por Las Palmas, na Gran Canaria.

Vou ater-me ao que se passou em Las Palmas.
Atracamos ao fim da tarde. A previsão era ficarmos ali duas noites e um dia.
Logo que tivemos autorização fomos para terra. Todos com a alva farda de Verão (a de Inverno é azul-marinho e muito mais bonita; com a outra parecemos uns sorveteiros), saímos como se fossemos um bando de pombos e depois fomo-nos dividindo progressivamente em grupos cada vez menores.
Acabei por ficar só com o Ferreira. Este colega era ainda mais pequenino e mais feio do que eu e caminhava meio encurvado.
Comemos qualquer coisa e depois demos umas voltas pelas animadas ruas desta cidade que, como é sabido, vive do turismo. Mas o facto de andar vestido segundo os cânones militares era bastante inibidor.
Não sendo oficiais de carreira, aquilo era, para nós, um fardo, bem mais que uma farda.
A certa altura vimos que, num dos muitos bares e casas de diversão nocturnas que por lá havia, entrava um grupo de quatro raparigas muito bonitas e boazonas.
- Ora vamos lá entrar aqui para ver o ambiente. Mas cheira-me que é coisa que vale a pena! – disse o habitual promotor destas visitas nocturnas, ou seja, eu.
Entramos. A luminosidade era tão escassa que durante muitos segundos estivemos a aguardar que os olhos se habituassem ao escuro. Um elegante e altíssimo empregado veio ter connosco e convidou-nos a sentar numa poltrona com uma mesa junto. Pedimos uma cerveja cada um. Bem fresca.
Conforme íamos vendo melhor todo o requintado ambiente, mais a nossa curiosidade ia sendo desperta. As mesas ocupadas, não muitas, eram-no por mulheres. Umas mais novas, outras já quarentonas avançadas. Esquisito. Não havia homens como clientes. Entretanto foram entrando também alguns sujeitos, vestidos de fato de corte impecável, altos e magros, verdadeiros modelos ou galãs de Hollywood. Ficavam em pé mas, de quando em quando, um ou outro ia para as mesas das clientes.
De repente, um deles saiu com uma das veraneantes. Pouco depois outro saiu com duas.
Bom! Aquilo era uma casa de ataque invertida. Um refinado prostíbulo para damas.
Estava bem claro no nosso espírito que tínhamos entrado no local errado.
Mas…e se tentássemos a nossa sorte?
Pois logo entrou um grupo de cinco ou seis clientes que, por mero acaso, se sentaram muito perto de nós. Passados alguns minutos, começamos a meter conversa. Mas não tínhamos outra resposta que uma olhadela para a nossa triste figura. E depois vinham os gigolos e as meninas eram só sorrisos.
Pouco depois viemos embora. A ferida no orgulho de machos latinos era tão profunda que fomos para o navio dormir.
Decididamente, não nasci para prostituto!

No dia seguinte, acordei bem cedo.
Feita a higiene habitual, peguei num saco e fui sozinho para a praia. Pouco passava das oito da manhã. O areal, enorme, estava deserto. Pude olhar para a ilha e constatar que era de uma aridez confrangedora. Tudo aquilo é artificial. Beleza natural: zero!
Estendi-me e rapidamente adormeci (devia estar ainda em convalescença da profunda ferida sofrida na noite anterior).
Quando acordei, seriam umas onze horas, só via pessoas à minha volta. Areia, mais nenhuma para além da que estava junto a mim. Vesti-me (desta vez uma roupinha normal que tinha trazido no saco de praia) e só com muita perícia vim para a marginal sem ter pisado ninguém.
Deambulei pelas ruas até encontrar um grupo de camaradas. Alguns também vinham vestidos normalmente. Atrelei-me a eles.
Almoçamos e depois fomos fazer umas compras.
Numa das lojas, uma boutique, uma senhora de fino porte fez questão de nos apresentar a sua filha Juanita pois ela gostava muito de marinheiros, tendo alguns de nós cumprimentado a jovem com um beijinho (e eu fui um deles). Só que, de perto, podia verificar-se que a donzela tinha barba e, quando proferiu umas amistosas palavras, a voz era bem mais grave do que se poderia esperar. Era um travesti! Confesso que lamentei a mãe, que tinha de fazer um papel que, certamente, lhe seria penoso. Mas filho é filho, não é?

E nada mais digno de registo, pelo menos que eu me lembre, se passou.
As ocorrências não tinham sido das mais agradáveis.
Foi regressar a bordo, retomar a vida normal, dormir e, na manhã seguinte, rumar às Ilhas Selvagens onde um pequeno grupo de tripulantes foi até aos rochedos em missão de soberania. Parece ser um protocolo a cumprir para manter aquele pequeníssimo território, desabitado, como património português.
E depois regressar ao Alfeite para iniciar umas merecidas férias. Sim, férias! Porque isto de andar no mar alto, com o navio sempre a baloiçar, ora levanta a proa ora a popa, ora inclina para estibordo ora para bombordo, é cansativo.
Juro!
Mas também é porreiro!


publicado por António às 14:12
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