Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 21 de Junho de 2005
O Pérola Negra
O Pérola Negra é uma casa de diversão nocturna do Porto.
Diversão para homens, entenda-se.
Casa de alterne, de ataque e de actuações ao vivo.
Foi fundada nos anos sessenta, situando-se desde sempre na rua de Gonçalo Cristóvão, muito pertinho do cruzamento com a rua de Camões.
Fui lá muitas vezes. Ou só ou com amigos. Geralmente beber uma cervejola e ver o “show”. Pouco depois da revolução, especializou-se, durante vários anos, em espectáculos pornográficos em carne e osso. Mais carne do que osso, claro!
O fundador e proprietário, já falecido, fartou-se de fazer dinheiro.
Até de Lisboa vinha malta para ver como era para depois contar como foi.

Situemo-nos agora nos inícios dos anos oitenta.
Eu, o meu amigo Jacinto, de que já falei, nomeadamente aquando da estadia em Paris, e um outro grande amigalhaço, o Paulo, decidimos ir, com as respectivas consortes, fazer uma mariscada a Matosinhos, numa noite quente de verão.
Depois de bem comidos e bem bebidos, e recordo que naquele tempo ainda a GNR não usava os famosos balões para medir o nível de alcoolémia no sangue dos condutores, demos um pequeno passeio a pé junto ao mar.
Refrescava e ajudava a fazer a digestão.
Algum tempo depois resolvemos voltar para os carros.
- E que vamos fazer agora?
O habitual seria irmos para casa de um dos casais e tagarelar até às tantas.
Mas este vosso humilde escriba teve uma ideia brilhante:
- E se fôssemos ao Pérola Negra?
- Grande ideia! – disse logo o Jacinto que era ainda mais louco do que eu.
O Paulo, menos dado a estas coisas da vida nocturna, ficou calado.
E as mulheres, depois de olharem umas para as outras responderam:
- Que horror! E se alguém nos vê? Pensem noutra coisa.
- E pode haver zaragata.
Mas não pude deixar de reparar que tinham um brilhozinho nos olhos, como diz a canção do Sérgio Godinho.
- Olhem que é uma oportunidade única. Vamos os seis e garanto que ninguém se mete connosco – disse eu.
- Claro! E indo com homens como nós ninguém vos vai importunar nem fazer propostas indecentes – apoiou o Jacinto.
Não foram precisos muitos mais argumentos.
A curiosidade de ver como era uma casa de meninas por dentro, a funcionar, e ainda por cima um “show” porno ao vivo, venceu todos os “mas”.
- Vamos lá! – disse a minha mulher.
- Então vamos! – disseram as outras.
O Paulo venceu o retraimento inicial.
E lá nos dirigimos ao famoso Pérola Negra.

O porteiro, velhote calmeirão, seguramente um reformado tendo ali um complemento monetário, quando nos viu e ouviu perguntar quanto custava a entrada para seis pessoas, fez uma cara de admiração. Estava habituado a ver as mulheres a entrar sozinhas e sair acompanhadas, mas entrarem acompanhadas era coisa rara, certamente.
Feito o pagamento que, como é normal nestas coisas, dava direito a algum consumo, descemos a larga escadaria e entramos na grande e mal iluminada sala.
A música gravada soava baixo, sem ferir os ouvidos.
Fomos recebidos com toda a deferência.
Escolhemos uma larga mesa não muito perto do “tableau” e sentamo-nos em confortáveis “maples”.
Vieram as bebidas e, conforme os olhos se iam adaptando ao escuro, as nossas acompanhantes puderam apreciar um prostíbulo em movimento.

As meretrizes estrategicamente dispersas pela sala, quasi todas sentadas, ou sozinhas ou aos pares. Os clientes mais afoitos faziam um chamamento discreto ou íam sentar-se junto da escolhida. Aos mais tímidos ou inexperientes era perguntado pelos empregados de mesa se pretendiam a companhia de uma menina. Outros chamavam os serventes e pediam um conselho sobre quais as raparigas com melhor desempenho. Muitas vezes, os funcionários levavam uma "dama" até à mesa de um cavalheiro para o entusiasmar. Mas a maioria não tinha nem queria companhia.

Os homens mais velhos eram alvo de mais atenções que os rapazotes. Por razões óbvias.
De quando em quando ouvia-se o pum do abrir de uma garrafa de champanhe ou de um espumante mais rasca.
De tempos a tempos saía um parzinho. Depois a menina voltava sozinha.
Tudo sob o olhar atento do patrão.
À uma da manhã começou o espectáculo, com um casal de dinamarqueses, ou lá o que eram, a ter relações sexuais para português ver.
Não deixo de admirar a descontracção dos homens que tem de fazer isto, em frente a um numeroso grupo de mirones, duas vezes por noite e sem fracassarem. E ainda não tinha sido sintetizado o Viagra!
Mas não era o que se passava no palco que despertava a curiosidade das nossas mulheres. Era o comportamento das meninas e dos clientes.
E a mim e aos dois compinchas era observar as nossas mulheres a olhar e cochichar.
Delicioso!
Quando saímos, elas confessaram que tinha sido uma experiência única (não esperava que dissessem que tinha sido uma experiência repetida). Acharam que as pessoas se comportavam muito bem (nem sempre, nem sempre, digo eu!). Mas o que mais as tinha surpreendido tinha sido o facto de as meretrizes não estarem vestidas em trajes ínfimos, com meias de rede, ligas à mostra e peitos impudicamente exibidos – deformação resultante do que viam no cinema, certamente – mas vestidas com toda a normalidade.
- Se visse alguma delas na rua diria que era uma moça que andava a estudar – comentou a minha cara-metade.
Pois é!
As aparências iludem!


publicado por António às 15:31
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2 comentários:
De Moura ao Luar a 19 de Junho de 2007 às 15:53
Ora quantas há por ai que parecem... e não são. Ou será ao contrário?? eheh


De António a 19 de Junho de 2007 às 23:00
Há de tudo neste mundo, minha amiga.
Felizmente!
Beijinhos


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