Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 23 de Maio de 2005
A tísica
Uma peripécia que ouvi a meu pai, várias vezes, passou-se no Porto do final dos anos 30, início dos anos 40.
No tempo em que os rapazes e mesmo alguns cavalheiros, íam para o passeio d’ ”A Brasileira”, mesmo ao fundo da rua de Sá da Bandeira, onde havia uma paragem dos eléctricos.
E os malandrecos estavam lá para conversar? Sim! Mas também à espera que as meninas subissem para o velho transporte citadino e deste modo poderem ver-lhes o tornozelo. Leram bem! O tornozelo! De facto, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Por essa altura, seria o meu pai um adolescente ou pouco mais do que isso, mas trabalhava desde os 9 anos pois a vida fora-lhe madrasta. E como o fazia na baixa portuense podia também apreciar essas “impúdicas” exibições.
Mas era também o tempo da tuberculose.
Doença terrível, que já vinha, há muitos anos, dizimando famílias, por vezes inteiras, sem escolher condição social e económica, tal a facilidade de transmissão do bacilo de Cock, sua causa.
Não sei exactamente quando foi descoberto o melhor tratamento e, sobretudo, a vacina contra a epidémica maleita. Penso que por essa altura já o teria sido. Mas a implementação de um sistema de profilaxia e vacinação não se fazia de um dia para o outro.
E mesmo com o sistema em funcionamento, muita gente continuou a viver com o medo de apanhar uma tísica.
Era o caso de um tal senhor Menezes, pessoa de meia idade, sempre vestido a preceito, terno, gravata e o respectivo alfinete, relógio de ouro com corrente guardado no bolso do colete, emblema na lapela, sapato brilhante de graxa bem polida, bigodinho bem aparado, polainas e ceroulas no inverno e o imprescindível chapéu, colocado a preceito, que era ligeiramente levantado da cabeça para cumprimentar alguém conhecido, como complemento de uma vénia, de acordo com as regras da etiqueta.
Pois o Menezes, que constava ser homem de posses e vivendo dos rendimentos, era pessoa bem conhecida e muito cumprimentada.
Mas, não sei se por hipocondria ou não, tinha verdadeiro pavor de contrair tuberculose.
E como lutar contra semelhante praga quando as pessoas estavam constantemente a estender-lhe a mão para um caloroso aperto?
Ah, Menezes cuidadoso...
Um frasquinho de álcool no bolso do casaco e, após uma bacalhoada, discretamente, uma desinfecção das mãozinhas.
Outro aperto de mão, outra desinfecção.
Discreta, muito discreta, pois não podia ser visto sob pena de tal gesto ser considerado ofensivo para os cumprimentadores.
Claro que muitos o viam, incluindo o meu pai.
Mas a realidade é que o cavalheiro lá ía evitando a maldita doença.
Um dia, o meu progenitor lembrou-se de que não via o Menezes há algum tempo. Resolveu perguntar a pessoa do seu conhecimento que era feito do senhor.
- Morreu, coitado!
- Sim? E de quê?
- De tuberculose!


publicado por António às 15:24
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6 comentários:
De leonoreta a 10 de Agosto de 2007 às 10:43
por muitos cuidados que tenhamos nunca ficamos livres de contrair qualquer doença por bacteria ou virus. estas formas de vida sao uma coisa fantastica, inteligentes na sua evoluçao, adaptaçao a novas circunstancias. penso nos cromagnon e afins que morriam como tordos sem uma aspirina.
a tuberculose dizimou e a influenza tambem e é assim que se faz a selecção dos melhores.
beijinhos


De António a 10 de Agosto de 2007 às 12:47
Mas não só as bactérias e vírus matam que se fartam: o cancro, os problemas vasculares e cardíacos, as degenerações do sistema nervoso, os acidentes, os crimes e o amor...morrer de amor...ainda acontece?
Acho que sim...muito menos do que noutros tempos, mas ainda acontece!

Beijinhos


De leonoreta a 10 de Agosto de 2007 às 15:44
morrer de amor?
ainda acontece? será que sim? nao creio. as mulheres hoje em dia têm outros amores... a carreira e a liberdade de decidir seja o que for.
beijinhos


De António a 10 de Agosto de 2007 às 18:24
Falta-te um toque de romantismo.
Eu acho que ainda se morre por amor.
Aliás, tenho a certeza: conheço mulheres que tentaram suicidar-se quando os maridos fugiram para outras.
É lógico supor que outras que não conheço tenham logrado partir para o Além.
E matar por amor?
Não me digas que não há porque direi que estás totalmente desumanizada.

Beijinhos


De leonoreta a 10 de Agosto de 2007 às 19:22
as teorias, rsssssssssssssss
dizem que romantismo e romanesco são duas coisas diferentes.
o crime passional é romanesco. o suicidio por abandono do conjugue é romanesco.
o abandono dói. nao por aquele amor que se foi embora mas pelo nosso amor proprio que foi magoado. ha que aceitar que somos substituiveis. doi. pois doi e muito. mas a vida continua cheia de oportunidades.
pronto. agora levei mesmo o rotulo de mulher sem humanidade, rsss
beijinhos


De António a 10 de Agosto de 2007 às 22:21
Definitivamente, és uma teórica desumanizada.

Mas leva lá uns beijinhos pois pode ser que ainda sejas recuperável.


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