Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 13 de Maio de 2005
A viagem de curso
Nas férias da Páscoa de 1972 (reparem bem que foi antes de 1974 e, portanto, em plena época marcelista, da Guerra Colonial e da censura, entre outras coisas), trinta e três alunos finalistas do curso de Engenharia Química da FEUP (mais um professor), efectuaram a chamada “viagem decurso”.
Sem esquecer o motorista, peça fundamental da engrenagem – o Sr. Vendas.
Eu era um dos membros da Comissão Organizadora (só organizar uma coisa destas deu cá um gozo! …) que sempre se mostrou muito competente (pois… a gente também ía! …).
Esta viagem de autocarro através da Europa, na altura tão distante e tão inacessível (o regime não autorizava os rapazes em idade pré-serviço militar a saírem do país) foi, sem dúvida, um momento absolutamente inesquecível da minha vida.
Este texto é, fundamentalmente, um intróito que tem como objectivo primário gabar-me, fazer-vos podres de raiva e meter nojo e, como fim subsidiário, dar-vos uma ideia do enquadramento geral em que se passaram algumas historietas relacionadas com a passeata e que futuramente, se bem que ao sabor do imprevisto, aqui irei contar.
Foram vinte e quatro dias espantosos, a ver coisas de que ouvíramos falar, sobre as quais lêramos muito ou pouco, que víramos no cinema e na TV, mas sobretudo em fotografias nas revistas e jornais (e até mesmo em livros escolares) e que nos deixaram de boca aberta como se estivéssemos todo esse tempo no dentista (salvo seja!).
Vou-vos dizer qual o trajecto seguido:
Porto – Madrid – Barcelona – Andorra – Lyon – Genève – Zurich – Innsbruck – Garmisch – Ludwigschafen – Frankfurt – Koln – Amsterdam – Brussels – Paris – Bordeaux – Burgos – Porto.
Estas foram as terrinhas onde pernoitamos. Mas paramos, ou simplesmente atravessamos, outras. Munchen, por exemplo.
(optei por escrever o nome das cidades na língua original – removendo os tremas, que não sei como escrever – para meter ainda mais nojo!).
O curso tinha mais de setenta alunos. Dos que não fizeram a viagem, muitos se vieram a arrepender após ouvirem toda a panóplia de aventuras e desventuras que os ufanos excursionistas narraram.
O custo foi baixíssimo, porque os organizadores foram exímios (tosse, muita tosse) em arranjar dinheiro: quer com publicidade no livro de curso, quer com ajudas do ministério da Educação, quer ainda com a valiosa colaboração do DAAD, organismo dum ministério alemão que tinha como função apoiar estas iniciativas com o objectivo de promover aquele país.
Também visitamos umas empresas: a BASF, a Bayer, a Lurgi e a Foxboro.
Mas que era isto comparado com a neve em Andorra e na Áustria, com os lagos da Suiça, com as cervejas na Alemanha ou o Crazy Horse de Paris?
Peanuts!
E que tal? Roídinhos de inveja? Pois tem mesmo razão para isso!
Ainda hoje, quando se encontram colegas que partilharam a viagem, fazem-lhe sempre uma alusão, por mais curta que seja.
- Então quando é que vamos repetir a viagem de curso?
- Por mim começava já hoje!
E mais vos digo: se um dia chegasse a primeiro-ministro, haveria de dar mais um feriado aos portugueses; o dia 11 de Março (mas não por causa do golpe do Vasco Gonçalves e seus amigos).
Não posso deixar de realçar que toda a malta se portou impecavelmente, nomeadamente num ponto que costuma ser o mais complicado de cumprir: a comparência sempre à hora marcada para as partidas. Mesmo que os mancebos estivessem a morrer de sono ou as senhoras (que eram dezassete, metade da troupe) não tivessem a maquilhagem nos trinques.
Devido à crise académica de Coimbra de 69, alguns dos felizardos não se falavam (uns tinham feito greve aos exames, outros não). Mas no final já eram todos amigos outra vez.
E hoje fico-me por aqui.
A propósito! Que tal uma excursãozita destas, agora que se aproximam as férias?
Vão consultando as agências de viagem!


publicado por António às 18:47
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2 comentários:
De leonoreta a 25 de Julho de 2007 às 17:09
nojo não tive! concedo ao termo outras sensações. Inveja. muita. não tive direito a viagem. se fosse solteira aquando do termino do curso o meu pai nao teria deixado a menina ir. e como ja fiz a universidade depois de casad foi a vez do marido perpetuar a proibição do pai.
abraço


De António a 25 de Julho de 2007 às 17:52
Também te digo que as viagens de curso que vejo serem feitas mais recentemente são uma coisa muito chôcha.
Praia, praia, praia e mais praia.
Que vão para o Algarve que tem praias tão bonitas como esses outros locais e fica muito mais barato.

Beijinhos, invejosa


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