Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Domingo, 4 de Março de 2007
"Eu sou louco!" no Sapo

Pensei em fazer uma importação global do "Eu sou louco!" do Blogger, o meu blog inicial, para o Sapo.

Mas duvido que resulte.

Por isso vou transferindo para aqui os textos, um a um.

Acho que é também uma boa maneira de o que escrevi há mais tempo poder ser relido.

Espero que o Sapo corresponda às minhas expectativas.

Se não o fizer, já tenho outro hospedeiro fisgado.

 



publicado por António às 16:37
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005
Explicações no Ribeiro
Entrei para o liceu de Alexandre Herculano, na zona do Bonfim, do Porto, em Outubro de 1959.
Na escola primária tinha sido um bom aluno.
No primeiro ano do liceu, andei mais ou menos, com notas entre 10 e 13. Mas, no último período levei um Mau a Matemática, e só a benevolência do professor, o Dr. Pedro Pinheiro Gonçalves de quem haveria mais tarde de me tornar amigo, dele e de parte da família, fez com que na pauta saísse um 9.
No segundo ano as notas não foram melhores. Levei uma negativa a Desenho. Mas, nessa altura, havia exames nacionais no fim desse 1º ciclo e o meu pai, temendo que as coisas corressem mal, no terceiro período resolveu meter-me num explicador colectivo.
Mas que raio de coisa era essa?
Tendo aulas de tarde até cerca das cinco horas, todos os dias ía para as Salas de Estudo do Bonfim das cinco às sete. O proprietário era um sujeito alto e entroncado, já com perto de cinquenta anos, cabelos brancos, voz de trovão, óculos
ray-ban de aros dourados e lentes verdes, ar de macho sedutor que, não sendo formado, dava explicações de Francês. Era o Sr. Sebastião Ribeiro, também conhecido publicamente por ter sido dirigente do F.C. do Porto. Era casado com uma antiga aluna, a D. Clotilde, mais nova vinte anos do que ele e que, apesar de o ter desposado muito cedo, já estava um bocado estragada, não pelo peso do Sebastião (não sei se era o come tudo, ou não), mas por quatro partos de outras tantas meninas. Ele queria um rapaz que nasceu um ou dois anos depois para sossego da mulher. Mas depois ainda nasceu outro. O Ribeiro era a personalidade mais temida pelos alunos. Não precisava de ensaiar para enfiar duas galhetas na cara de quem não se portasse na linha.
Havia turmas mistas (coisa que não existia nos liceus) para os chamados alunos externos, os que estavam matriculados noutro estabelecimento de ensino, mas havia também classes de alunos “internos”, também mistas, para quem aquilo funcionava como um colégio.
Tínhamos aulas de Português e Francês, dadas pelo Sr. Seixas, um tipo do reviralho que já tivera uns dias de prisão na PIDE, sempre cabisbaixo e sonolento, de voz pouco audível e de Matemática, dadas pelo Eng. Alípio, um solteirão muito magro, sempre vestido de escuro, afónico, com as unhas dos dedos mindinhos bem compridas e constantemente a escarafunchar os ouvidos e a disparar o cerume para uma zona da sala mais vazia, pouco paciente e com ataques repentinos de ira. As Ciências e o Desenho ficavam por nossa conta.
Havia lá dois rapazes da minha turma do liceu: o Crespo e o atordoado, mas sempre com resposta bem-humorada na ponta da língua, Bernardino.
No total, seríamos uns quinze, dos quais talvez cinco fossem meninas: lembro-me da Emília, da Alice, da Dalila, da Fátima e da Zélia.
Éramos todos do Alexandre ou do liceu feminino da Rainha Santa Isabel que foi desactivado em 2004. Que pena!
Mas, o mais relevante, foi que as escritas do exame me correram bem e dispensei das orais (se bem me lembro, com doze).

Consequência mais notória: o meu papá entendeu que a dispensa se devera às explicações (e talvez tivesse razão) e resolveu que no ano seguinte iria para o Ribeiro desde o início. E continuei ainda por mais dois anos. Até ao fim do quinto. Em 1964.
No terceiro ano, o primeiro do 2º ciclo, ainda tive aulas de tarde no liceu. Nos dois seguintes tinha aulas de manhã, pelo que ía para o velho edifício da rua de Santo Ildefonso por volta das três. Sendo muitas vezes o primeiro a chegar, aproveitava para estudar as disciplinas para as quais não havia explicações: Desenho, Ciências, História e Geografia. Mas, conforme íam entrando os colegas, o estudo ía-se convertendo em conversa e brincadeira, mau grado o esquelético e narigudo Sr. Pereira, dedos amarelos de tanto tabaco, ir apontando no quadro o nome dos que se portavam mal. Eram sempre os mesmos, com o Bernardino a aparecer repetidamente logo abaixo de M.C. (mal comportados). Mas, quando começavam a chegar os professores, o Pereira desaparecia estrategicamente e os nomes eram logo apagados.
Agora, o Português e o Francês era leccionados pelo Ribeiro mas, como ele tinha as tarefas da gestão, era muitas vezes substituído pelo Seixas. O Inglês pela gordinha Dr.ª Matilde, irmã da D. Clotilde, solteira, e que viria a casar com o macambúzio Eng. Alípio que nos dava as aulas de Físico-Químicas. Finalmente, o melhor a ensinar: o solteiro e anafado Eng. Brenha, sempre bem vestido, que trabalhava também numa empresa do seu pai.
Nunca me esquecerei da forma brilhante como ele fez a introdução à Álgebra.
Chamou um aluno ao quadro e perguntou-lhe:
- Escreva aí um número qualquer.
E o moço escreveu 8.
- Isso é um 8. Eu quero que escreva um número qualquer.
O colega olhou para ele com cara de parvo. Ele e todos nós. E escreveu 17.
- Não! – disse o Brenha. Um número qualquer. Esse é o 17.
Perante o ar apalermado da plateia, e depois de ter perguntado se alguém sabia, pegou calmamente num pau de giz, aproximou-se do quadro e escreveu um “x”.
- Esta letra, em Álgebra, representa um número qualquer – disse.
E continuou:
- Se quisermos que seja 20 é 20. Mas pode ser 2 ou 234 ou 45.
Nunca esqueci isto. A noção básica da Álgebra é esta de um número variável representado por uma letra.
Feito este aparte, não posso deixar de referir a importância que esta escola mista teve para me habituar a ter raparigas como colegas. Foi, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes para um jovem adolescente que estava quasi proibido pelo regime de partilhar as salas de aulas com pessoas do outro sexo.
E, do ponto de vista pedagógico, comecei a habituar-me a estudar com outros colegas, a pôr-lhes questões, a tirar dúvidas. Passei a ser um bom aluno. Raramente tinha uma nota inferior a treze. Estive sempre no Quadro de Honra. Dispensei ao exame do quinto ano, quer em Letras quer em Ciências.
Foi um período que correspondeu ao desabrochar da personalidade, da mente, do corpo, da sexualidade. E acho que tudo de uma forma harmónica. Não sei se a frequência das explicações do Ribeiro tiveram muita ou pouca importância nestes resultados. Mas que tiveram, não tenho dúvidas.

Muitas histórias haveria para contar. Mas, confesso, já só me lembro de algumas.

Em determinada fase apaixonei-me por uma jovem sardenta, mas de ar já senhoril, que andava no Rainha Santa. A Zé. Confessei isso ao Rui Mónica. Este namorava com a Dalila que era prima desse “borracho”. E, como era próprio da época, a Dalila apresentou-me à Zé. Para desgosto meu, a rapariga não engraçou comigo e mandou-me dar uma curva. Não fiquei muito perturbado - mulheres há muitas, pensei - mas fiquei um bocadinho.
Mais complicado foi quando a Dalila, sempre ela, uns dias depois, ainda eu não tinha cicatrizado a ferida aberta no meu jovem coração, me chamou aparte e disse:
- Castilho! Tenho de te dizer que há duas meninas do quarto ano (eu andava no quinto, nessa altura) que gostam muito de ti.
Eu fiquei meio tonto. Não esperava nada daquilo. E logo duas. Afinal a Zé é que devia ter a mania que era boa.
- E quem são? - perguntei.
- Uma é a prima do colega Rui Seixas, a Cândida e outra é a Alcina! – disse com ar muito circunspecto a minha amiga. Agora é contigo. Ou estás interessado em alguma ou nenhuma te interessa.
- Pois é! – balbuciei.
E fiquei a matutar no que havia de fazer. Se fosse só uma…mas ter de optar entre duas era um tanto complicado. E ainda por cima dava-me bem com ambas.
Como seria de esperar, fui falar com o Mizé, com o Rui, com o Mesquita e com mais um ou dois colegas para me ajudarem a decidir. No meio dos mais diversos conselhos que agora não faço ideia nenhuma quais foram (nem interessa muito, pois deveriam ser bastante idiotas), ainda iam gozando com o meu recém-descoberto sucesso entre as raparigas.
Mas, de facto, eu via as mocinhas como colegas mais novas e, como se provaria mais tarde, sempre preferi as mulheres mais maduras às mais jovens. Não estava interessado em namorar com nenhuma.
Mas se rejeitasse as duas ainda poderia passar por maricas. Portanto, e sem convicção, escolhi a Cândida. Lá começamos a namorar mas a coisa durou pouco tempo.
Mais tarde, quando as vi com vinte e tal anos (a Cândida e a Alcina), já mulheres e muito jeitosas, pensei com os meus botões:
- Agora é que podiam vir dizer que estavam apaixonadas por mim!
Mas a Zé, essa ainda há poucos anos a via muitas vezes e nunca deixei de sentir um fraquinho por ela e pelas suas sardas.

As pessoas da minha geração que viveram na zona do Porto nessa época, devem lembrar-se de um programa de discos pedidos que era transmitido pelos Emissores do Norte Reunidos aos domingos à tarde, com a duração de uma hora, salvo erro, e apresentado por um tal Daniel Gonçalves. Chamava-se “Música na Estrada”. Era muito popular entre os adolescentes e, mais de metade do tempo era passado com o locutor a dizer o nome ou nickname de quem pedia o disco e a interminável lista daqueles a quem era dedicado.
Uma vez, eu e o Rui Mónica, mais o Mesquita e outro dos rapazes, resolvemos mandar um postal com a frase obrigatória, o nosso nome (Águias Negras – vejam bem!) e o disco pretendido. Estávamos em 1964, ano do aparecimento em força dos Beatles em Portugal, e nós pedimos um dos seus primeiros temas, uma canção fracota mas que foi o primeiro grande sucesso comercial do grupo de Liverpool – “She loves you”. Alguém se recorda?

Exactamente em 1964, com quinze anos portanto, terminei o quinto ano e, como o Ribeiro só leccionava até aí, terminaram para mim as explicações. De boa memória, como devem ter percebido do que escrevi atrás.
Mais histórias haveria certamente para contar, mas estas foram as que me ocorreram.
Anos depois, o Sebastião Ribeiro morreu deixando o negócio nas mãos da mulher e de um ou dois filhos. Entretanto tinham fundado o Externato de Santa Clara que absorveu as Salas de Estudo. Mas, tanto quanto sei, ainda hoje há aulas nesse velho edifício.
Dos meus colegas desse tempo nada sei.
Minto!
A Cândida e o Mizé (um dos meus conselheiros para assuntos sentimentais) casaram.
Um rapaz que andava um ano adiantado, bom estudante, o Tone Balio, aos vinte e poucos anos revelou-se esquizofrénico. Viveu os últimos anos no Hospital de Magalhães Lemos, tendo falecido em 2004.

As pessoas que leram este texto podem não ter tido muito gozo com isso.
Mas garanto-vos que eu tive imenso a escrevê-lo.


publicado por António às 19:09
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Sábado, 3 de Setembro de 2005
Diplomacia no Rivungo
Nota prévia:
Este texto baseia-se em mais um episódio ocorrido durante a minha permanência de dois meses (Outubro e Novembro de 1974) como comandante interino do Destacamento de Marinha do Cuando, localizado no Rivungo, Cuando-Cubango, Angola. É o quarto desta série. Antes, coloquei em exibição:
“Sobrevoando a savana” em 01 de Junho de 2005
“O cortador de carnes verdes” em 18 de Junho de 2005
“Cena de caça no Bambangando” em 17 de Julho de 2005


 
Estava uma manhã esplendorosa, com um sol quente e brilhante quando, por volta das dez horas, um dos meus homens me veio chamar ao pequeno aquartelamento:
- Sr. Tenente! Sr. Tenente! A Rosa vai ter um filho. Já lá está a Maria Cangonga e outras mulheres.
- Sim? – interroguei-o, num tom preguiçoso.
- Então vou lá! Diz ao sargento Gomes que, se for precisa alguma coisa, estou na cabana da Rosa – concluí.
Levantei-me da cadeira onde saboreava aqueles apetitosos raios solares e dirigi-me para uma das cubatas do quimbo mais próximas de nós. Era onde vivia a Rosa.

Mas quem era a Rosa?
Como já disse em textos anteriores, eu tinha ido para o Rivungo para lá ficar somente durante um mês, período de férias do comandante efectivo, tenente Taborda. Mais tarde, recebi a ordem para proceder ao desmantelamento da unidade e regressar a Luanda, pelo que acabei por ficar mais quatro semanas.
O Taborda estivera lá cerca de quatro meses.
Antes dele, o comandante durante dois anos fora o tenente Vieira.
Quando, ainda antes de encetar a viagem para aquelas terras esquecidas, o Vieira soube que eu iria para lá, veio falar comigo e disse-me:
- Ó Castilho! Eu, no Rivungo, vivia com uma rapariga chamada Rosa numa cabana que mandei construir. Quando me vim embora ela estava grávida. O que eu te peço, como já fiz ao Taborda, é que quando nascer o meu filho ou filha o registes como meu e com o apelido Vieira.
- E a Rosa é negra, calculo! – perguntei desnecessariamente.
- É, mas é uma rapariga porreira, muito meiga, a quem eu também andava a ensinar a ler.
- Certo, Vieira! Não me esqueço – prometi.
- Ah…e que nome queres para eles? – interroguei-o.
- O dos pais. Luís se for rapaz, Rosa se for rapariga – disse o meu camarada após pensar uns momentos.
A Rosa devia ter mel, pois o Taborda também foi viver com ela quando para lá foi, como pude verificar quando cheguei ao local.
Era uma negra de tom claro, bonita, mas um pouco estragada devido ao avançado estado de gravidez.

Voltemos àquele dia de princípio de Novembro.
Cheguei junto da cubata e perguntei se tudo corria bem. Disseram-me que sim.
Uma curiosidade que gostaria de satisfazer era se, como me tinham dito, os negros recém-nascidos ainda não tinham essa cor de pele. Teriam uma tez branca mas bastante mais avermelhada que os europeus.
Esperei cá fora, sentado no chão, quando apareceu de novo o grumete:
- Sr. Tenente! Estão ali dois tipos pretos, com uma farda e com pistola, que pretendem entregar uma carta ao comandante do barco.
Fui ver os homens, intrigado.
Apresentei-me, e um deles, num português com sotaque africano, pediu-me para ler a missiva que ao mesmo tempo me entregou.
O envelope tinha um carimbo circular que dizia:
MPLA – A vitória é certa.
- Vocês são do MPLA? – indaguei.
- Somos. Mas do grupo da Revolta do Leste. O nosso chefe é o Daniel Chipenda. O Agostinho Neto tem tomado muitas posições de ditador e nós queremos democracia.
Já tinha ouvido falar dessa cisão no MPLA – Movimento Popular para a Libertação de Angola.
Daniel Chipenda fora um dos homens mais influentes do grupo mas tinha fomentado uma separação relativamente ao grupo original e principal liderado, desde a fundação, pelo Dr. Agostinho Neto.
Lembro-me dele sobretudo como jogador de futebol da Associação Académica de Coimbra. Nessa cidade estudara, mas interrompera o curso para ir combater com a guerrilha angolana.
Abri então o envelope e li o papel manuscrito que estava dentro dele.
Era um convite para irmos, no dia seguinte, com o navio (a Lancha de Desembarque Pequena de que já falei noutros textos) buscar um conjunto de guerrilheiros para os trazer para o Rivungo onde pretendiam fazer trabalhos de politização das massas.
Pedi um ou outro esclarecimento e resolvi chamar o Neto para mandar uma mensagem ao Comando Militar do Luso (agora Luena) do qual dependíamos operacionalmente e outra ao Comando Naval de Angola a quem estávamos ligados logisticamente.
Assim foi feito. Nelas pedia que me dissessem qual a decisão: ir ou não ir!
Enquanto aguardava resposta, pensei que talvez ela não viesse em tempo oportuno e resolvi marcar uma reunião para depois de almoço com as forças vivas da terra. Estariam presentes, além de mim, o alferes Monteiro, comandante do destacamento do Exército, o chefe da PSP, o chefe da PIDE e também deveria estar o administrador de posto, Sr. Lebre, mas tinha voado para Serpa Pinto (agora Menongue) na semana anterior e voltaria nesse dia, mas mais ao fim da tarde.
O objectivo era preparar uma decisão para o caso de não termos retorno do pedido feito às hierarquias.
Fui pessoalmente falar com cada um e expliquei-lhes a situação.
Também achei por bem dar conta das minhas actividades aos “terroristas” para lhes incutir confiança.
Inicialmente pareciam-me um pouco receosos. Mas depois de falar com eles fizeram um daqueles sorrisos muito brancos como quem diz:
- Está a correr bem! Não vamos ter problemas.
De repente lembrei-me:
- A Rosa!
Corri para a cubata e lá estava a moça com uma menina nos braços. Tinha corrido tudo bem.
De facto não era negra, tinha uma coloração avermelhada.
Fui falar novamente com o Neto:
- Há resposta?
- Nenhuma, Sr. Tenente! – retorquiu o radiotelegrafista.
- Então repete as mensagens. E enquanto não vier nada, manda duas de hora em hora; uma para cada lado – ordenei.
Eram duas e meia da tarde quando começou a reunião.
Fui o primeiro a falar:
Rememorei o que se tinha passado até aí. Sugeri que, se não houvesse ordens específicas das hierarquias até às seis da tarde, tomássemos nós a decisão. E avancei com a minha proposta:
Atendendo ao que se estava a passar em todo o território angolano (e convém recordar que recebíamos o Expresso todas as semanas) uma recusa seria considerada uma atitude hostil pelos outros. Pelo contrário, e como a tendência era a de deixar as colónias com brevidade, parecia-me correcto que os homens viessem fazer os seus contactos com a população.
Os outros concordaram, excepto o tipo da PIDE, o Roque, que parecia ainda não ter percebido que as coisas estavam a mudar rapidamente e apresentou os mesmos argumentos salazaristas de “Angola é nossa” e outros que tais.
Curiosamente, fui sentindo ao longo da reunião aquilo que já tinha lido e estudado numa cadeira de Sociologia: que “a multidão segrega o líder” e, ali, era eu que emergia como o líder. Todos concordavam com praticamente tudo o que eu dizia (excepto o Roque, claro).
A certa altura chamamos os dois homens do Chipenda para combinar os detalhes para o dia seguinte. Tudo ainda pendente da resposta do Luso ou de Luanda.
Por volta das cinco chegou o Lebre. Alinhou também com as minhas posições.
Mandei chamar três dos meus subordinados: o sargento Gomes, o cabo Zé Castro e o João Correia para os pôr ao corrente da situação, pois era o destacamento da Marinha quem teria a parte mais importante na acção.
No entanto, o alferes Monteiro fez questão de também seguir a bordo no dia seguinte. Não me opus.
Eram seis da tarde.
- Ó Correia! Fazes-me o favor de ir perguntar ao Neto se veio alguma resposta? – pedi ao artilheiro.
Passados poucos minutos regressou o João:
- Não disseram nada, Sr. Tenente! Não nos ligam nada! Eles nem sabem que este buraco existe – resmungou o marinheiro.
- Pronto, meus senhores! Avançamos com a nossa decisão. Concordam? – perguntei em tom de fim de conversa.
Todos responderam afirmativamente excepto o “pide”. Disse que estávamos a cometer um grande erro e retirou-se.
Avisamos os da guerrilha que, depois, se foram embora.
Na manhã seguinte iríamos na nossa LDP pelo Cuando até um determinado ponto onde os antigos inimigos estariam à nossa espera.

Partimos às oito. Só o Neto, o sargento, o Lima e outro grumete ficaram em terra. Cobrimos a metralhadora
Oerlikon, a única arma pesada que havia a bordo, com um pano branco e o João ficou de se meter debaixo dele quando estivéssemos perto do local onde a lancha abicaria. Todos tínhamos armas, mas escondidas. Atamos um pano branco a uma vassoura para acenarmos, dando assim sinal de que a nossa presença era pacífica.
Ao fim de cerca de uma hora e meia de navegação, estávamos bem perto do local combinado.
De repente avistamos dois homens. Começamos a agitar o pano da vassoura.
O João escondeu-se com a arma preparada para fazer tiro de rajada.
Dei ordem ao cabo Zé para abicar.
Paramos.
Já havia cinco ou seis tipos à vista.
Mandei baixar a prancha da frente da lancha. Atravessei-a e fui para terra. Seguiram-me dois homens. Aquilo já era território zambiano.
De repente já não eram cinco nem dez, nem quinze.
Estariam ali uns vinte "inimigos" ("ex-inimigos", felizmente). Mais tarde disseram-me que escondidos estariam mais uns trinta polícias da Zâmbia para ripostar em força, caso tivéssemos uma atitude hostil. Mas nós tínhamos a noção do risco que corríamos. Portamo-nos bem.
Cumprimentos, abraços, sorrisos, e foram embarcados dez homens. Eles queriam que fossem vinte, mas entendi que seria gente a mais. Comprometi-me a vir buscar mais dez passados cinco dias. Era preciso saber como as coisas iriam correr no Rivungo.
O chefe do grupo era um rapaz novo, uns vinte anos, dono de um olhar vivíssimo com aquele brilho que só as pessoas muito inteligentes tem. E era dinâmico, também. E sensato. O nome de guerra era comandante Cow-boy. Falava bastante bem português. Uns meses mais tarde, já em Luanda, li num diário que fora morto aquando de um ataque da UNITA ao posto do MPLA de Serpa Pinto, no qual se encontrava. Tive pena do rapaz!
Mas havia um problema a resolver.
Os “turras” estavam todos armados com uma Kalachnikov, a metralhadora soviética exportada para todo o mundo. Um deles tinha um lança-foguetes. Só o chefe tinha uma pistola. Vestiam uma farda verde-azeitona escura (não sei se existe esta cor mas acho que dá para imaginar). Nós estávamos com camuflados e G3´s. Eu tinha também uma pistola Walter. Ainda tenho uma foto com uma Kalach e ao meu lado o comandante do grupo com a minha G3.
Chamei de lado o Cow-boy e disse-lhe:
- Caro amigo! Há uma situação que é de alto risco. Se vocês forem armados para o Rivungo, estando-o nós também, a possibilidade de haver tiroteios é enorme.
Ele escutava-me com toda a atenção. Os olhos bem abertos. Estava a perceber tudo, por isso continuei:
- Proponho-lhe uma coisa: quando chegarmos à aldeia, vocês entregam-nos as armas que ficarão guardadas no paiol da Administração de Posto. E porquê vocês e não nós? Porque ainda é Portugal que detém a soberania sobre Angola. No dia da independência ou antes, se nós nos retirarmos de cá, o que é o mais provável, as armas ser-vos-ão devolvidas e a segurança será da vossa responsabilidade. Até lá, será nossa.
O jovem negro fez uma longa pausa.
Claramente não estava à espera daquela proposta.
Mas eu não tinha dúvidas, como aliás se provaria mais tarde, que tinha razão.
E, felizmente, o rapaz teve o bom senso de perceber bem a gravidade do problema e respondeu:
- Sim! Estou de acordo.
Eu respirei fundo e ele, quasi imediatamente, começou a falar com os seus homens sobre a nossa decisão.
A viagem demorou outra hora e meia (como seria de esperar, já que o rio pouca corrente tinha). Foi animada com conversas, fotografias, risadas, vivas a Angola e a Portugal.
Um “turra”, no entanto, desde o início da viagem que vinha a ler um livro fininho, muito concentrado e sem entrar na animação geral. Aproximei-me dele e perguntei-lhe o que estava a ler. Sorridente nos seus dentes brancos mas desalinhados, mostrou-me uma gramática de português e comentou numa linguagem dificilmente entendível:
- Para falar com o povo preciso de saber bem português.
Fiquei tocado. Dei-lhe uma palmada nas costas e disse:
- Fazes muito bem! Continua!
Quando chegamos ao Rivungo, uma multidão estava à nossa espera. Nem sei donde saiu tanta gente nem como a notícia se propagou tão velozmente. O administrador Lebre entrou para a lancha e deu as boas vindas como entidade civil mais destacada (a malta pensou em tudo).
Logo lhe disse que fosse abrir as portas do paiol para guardar o armamento “terrorista”.
Pedi ao Cow-boy para seguirem o Sr. Lebre e depois ele arrumaria as armas e ficaria com as chaves.
Como disse, esta decisão foi de grande importância. Alguns dias mais tarde, e sobretudo depois de ter vindo o segundo grupo, alguns menos garbosos guerrilheiros começaram a beber uns copitos a mais e, sobretudo à noite, lançavam frases provocatórias para os meus homens que estavam de sentinela. Sim! As medidas de segurança começaram a ser levadas mais a sério.
- Sr. Tenente! Estes filhos da puta estão a provocar-me e a insultar Portugal! Eu ainda lhes mando uma rajada que os fodo a todos!
- Calma, Nunes! Lembra-te que eles estão desarmados e tu estás armado. Tens de ter auto-controle – disse, procurando sossegar o moço.
- Tem razão, Sr. Tenente, mas às vezes quasi que me passo.
Felizmente os conflitos não passaram deste e de alguns casos similares. O meu argumento era sempre o mesmo.
Voltando ao dia da chegada com os dez guerrilheiros a bordo, o Cow-boy perguntou-me se podia fazer uma sessão de politização (era a expressão usada) para a população, na manhã seguinte. Pediu-me também para improvisar um palanque.
Aceitei! Pois se eles tinham querido ir para lá fazer propaganda…
Estive a assistir ao comício que tinha imensos assistentes. As palavras proferidas foram sensatas e propícias a gerar um bom ambiente. Fiquei satisfeito.

Passadas umas duas semanas sobre este acontecimento, e em mais uma luminosa manhã de Novembro, começou a ouvir-se um barulho estranho. A pouco e pouco esse ruído foi-se aproximando até que alguém gritou:
- É um heli!
E poisou no ponto de encontro das duas “avenidas” do Rivungo. De lá saíram um oficial da Marinha que eu conhecia da Messe dos Oficiais e um do Exército.
- Foi daqui que mandaram uma mensagem a perguntar se podiam ir buscar uns soldados do MPLA? – perguntou o capitão-de-fragata.
- Sim! Fomos nós! Mas a questão foi resolvida nesse mesmo dia. Não havendo ordens superiores, decidimos nós o que fazer. Estão a ver aquele homem ali? E aquele acolá? E aqueles dois junto daquela casa? São guerrilheiros! – disse num tom firme.
- E tem corrido tudo bem? Quantos homens estão cá? – perguntou o major do Luso.
- Está tudo controlado. Trouxemos vinte – retorqui.
Mais um bocado de conversa, uma voltinha pela terreola, uma ida ao destacamento onde ninguém estava com farda.
- Peço desculpa de ninguém estar fardado, mas as condições climatéricas aqui recomendam que as pessoas andem mais à vontade – procurei justificar-me.
- Não há problema nenhum – disse o visitante da Armada.
Mais umas tretas e lá se foram com a missão cumprida.
- Quinze dias depois! – rimo-nos todos com a eficácia dos superiores.
Deixem-me fazer um aparte para dizer que o oficial de marinha que nos foi visitar nunca chegou a regressar a Portugal. Uma noite, em Luanda, foi assassinado com dois tiros nas costas. O corpo só foi encontrado na manhã seguinte. Questões de saias com mulatas, foi o que constou. Era casado e tinha uma filha que eu conheci pois toda a família estivera bastante tempo em Luanda.

E com esta conversa toda esqueci-me da Rosa. Ou melhor, não esqueci, pois uns dias depois da chegada dos “turras” fui falar com o Lebre para se registar a bebé como filha do tenente Vieira.
- Ó Sr. Tenente! É melhor esperar mais algum tempo para vermos se a rapariga é mulata. Pode não ser filha dele.
Eu ainda tentei rebater o administrador, mas ele estava tão renitente que cedi.
E acabou por nunca mais ser feito o registo. Não sei se isso ajudou ou prejudicou a Rosa e a filha nos meses e anos que se seguiram. Ou se foi indiferente. Mas ainda hoje tenho a desagradável sensação de não ter cumprido uma promessa.

Finalmente, em finais de Novembro, chegou um camião para nos levar de regresso a Luanda.
Fizemos uma pequena cerimónia de arriar a bandeira, já bastante rota e debotada, despedimo-nos da malta do Exército, do Lebre, dos agentes da PSP, do outro “pide”, que o era para ter emprego e não por convicção, da miudagem, enfim…um pouco comovente.
Uma velhinha que me lavava a roupa todas as semanas chegou-se a mim a chorar e disse:
- Sr. Tenente! E agora o que vai ser de nós sem a tropa portuguesa?


publicado por António às 16:10
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2005
Excursão a Zamora
Desde 1972 (concretamente desde a minha viagem de curso) que não fazia um passeio turístico de camioneta.
Este ano estive a ponderar entre uma viagem em viatura própria ou em autocarro turístico e concluí que:
- A minha carripana está com oito anos e pode dar alguns contratempos.
- Ainda por cima nem ar condicionado tem.
Num auto-pullman, por outro lado,
- Não me chateio nem canso a conduzir.
- Não me engano no percurso como é meu hábito.
- Posso apreciar as paisagens.
- Se tiver soninho, estou à vontade para dormir, sem cair por uma ribanceira abaixo.
- Tenho ar condicionado.
- Se a mulher amuar tenho mais pessoas com quem falar.
- Não tenho de andar a fazer marcações de hotéis que nem sei onde ficam nem como são.
- Não tenho de andar a escolher locais para comer e esperar desesperado para pagar no fim.
- O organizador faz marcações de hotéis, restaurante, pagamentos e muito mais.
- O transportador leva-me aos sítios mais interessantes sem erros ou grandes hesitações; o mesmo para o hotel.
- Não tenho problemas de estacionamento.
- Posso beber álcool às refeições sem a preocupação do teste do balão.
- A probabilidade de acidente é menor (e se houver algum, os ligeiros é que costumam ficar por baixo dos auto-pullman), embora os rails de protecção sejam bastante menos eficazes para um pesado, diga-se.
- Permite conhecer outras pessoas (entre vários companheiros de viagem haverá pelo menos alguns que serão pessoas interessantes).
Depois de tantos argumentos a favor do transporte colectivo rodoviário, aos que acresce o de já não ter pachorra para fazer longas quilometragens a conduzir, decidi:
Este ano vou fazer um passeio de autocarro.
Falei no assunto à minha mulher. Não se mostrou muito entusiasmada pois imaginou logo uma data de outros passageiros de garrafão de cinco litros ao lado e a banquetearem-se com uns nacos de presunto e chouriço dentro do carro. Fui-lhe dizendo que não era bem assim, que mais isto, que mais aquilo, mas continuava renitente.
Pronto!
Puxei dos meus galões de machista e disse:
- Olha! Eu vou! Se não quiseres vir não vens. Até pode ser que apareça alguma passageira interessante e eu estou de mãos livres.
E estes argumentos costumam ser os mais convincentes.
Disse que sim. Um tanto contrariada, mas aceitou a solução que, como puderam constatar, foi tomada da forma mais democrática possível.
Depois foi escolher qual a viagem a fazer:
Acabamos por optar por um
tour de dois dias, com dormida em Zamora.
Pouco tempo, pois para a minha senhora era um teste, acima de tudo.
Esta cidade de cerca de 70.000 habitantes, não é seguramente das mais importantes da Espanha actual. Mas foi lá que, em 1143, D. Afonso Henriques e D. Afonso VII, rei de Castela e Leão, se encontraram e assinaram o tratado de Zamora pelo qual o nosso primeiro rei, na prática, se torna isso mesmo, pois deixava de prestar vassalagem ao seu primo. E como estava presente um emissário do papa Inocêncio II, houve um compromisso de Afonso Henriques em se tornar somente obediente ao papado. De facto, parece que o rei português não cumpriu à risca o seu compromisso em relação ao sucessor de S. Pedro, o que originou um atraso de trinta e seis anos até o diferendo estar resolvido e o infante se tornar efectivamente rei de Portugal, reconhecido pelo Vaticano.
Enfim! Não sei se foi exactamente assim, mas é o tratado de Zamora quem marca, oficialmente, a fundação do reino de Portugal.
Depois de vos fazer engolir esta pastilha de cultura, voltemos à viagem.

Partimos no sábado, bem cedo, da baixa portuense e fomos parando sucessivamente em Vila Real (como é lindo atravessar o Marão), Macedo de Cavaleiros, Mogadouro (onde almoçamos uma razoavelmente rija posta mirandesa), atravessando portanto a rota do azeite. A paisagem era constituída por imensos olivais, embora houvesse também amendoeiras (não estavam em flor, como é natural), sobreiros, azinheiras, medronho e outras árvores. Pinheiros e eucaliptos eram raros depois do Marão, pelo que não havia sinais de incêndios florestais. Atravessamos o Douro internacional na Barragem da Bemposta e entramos em Castilla y Leon tendo feito uma rápida visita a Formoselle, pequena cidade também bastante arcaica. Aliás, tudo nessa região espanhola cheira a antigo. Desde a configuração plana e seca do terreno aos monumentos, milenares ou pouco menos do que isso.
Chegamos a Zamora a meio da tarde.
Depois das costumeiras acções de alojamento num razoável hotel de três estrelas, fomos dar uma passeata pela zona histórica da cidade, em pequenos grupos. Eu e a minha mulher fomos sós. Plaza Mayor, margens do rio Douro, algumas igrejas como a da Magdalena ou a de S. Ildefonso, foram alguns dos locais visitados. Ainda pretendíamos ver o principal monumento da cidade, a Sé, mas as pernas já diziam que não senhor, muito obrigado.
Recolhidos ao alojamento, tomamos um refrescante banho, fomos até uma esplanada junto ao hotel tomar uma bebida fresquinha e, finalmente, lá jantamos. A comida era boa, mas os empregados eram arrogantes e não nos tratavam com a atenção que é habitual em Portugal. Acho que os espanhóis (os castelhanos, pelo menos) estão a ficar com a mania de que são os melhores do mundo. Posteriormente tive oportunidade de confirmar isso. Não gostei!
No dia seguinte, bem cedo, como tem de ser neste tipo de viagem, arrancamos para Benavente. Depois fomos ao local mais interessante que visitamos (na minha opinião, obviamente): Puebla de Sanabria, pequena povoação de 2.000 habitantes, com um bonito castelo no ponto mais alto, duas ou três interessantes igrejas, ruas estreitas com varandas cheias de vasos com flores e, talvez o mais especial, todos os telhados em ardósia bem negra que lhe davam um aspecto muito característico. Lá em baixo, a seus pés, corria o rio Tera.
Em toda esta região que atravessamos, zona essencialmente agrícola, a cultura predominante era a do trigo. Mas não faltavam a aveia e o girassol. Também gado ovino, caprino e bovino, pelo que a indústria de lacticínios estava presente.
Rumamos, então para o lago Sanabria, que se estendia ao longo de um vale glaciário. Como nos estávamos aproximando da Galiza, começou a aparecer vegetação mais frondosa (azinheiras, sobretudo) e, no horizonte, foram nascendo cada vez mais elevações de terreno. Quando chegamos ao lago já não existiam vestígios da paisagem seca e árida de Castela.
Depois, foi seguir para a antiga fronteira de Chaves. Perto dela, os vestígios de um grande incêndio florestal.
Naquela cidade portuguesa o calor era tremendo. Não é por acaso que das terras do nordeste se diz que tem três meses de inferno e nove de Inverno.
Seguimos depois para Amarante. Mas, pouco depois de Vila Pouca de Aguiar, e durante uma boa dezena de quilómetros, acompanhou-nos uma mancha com os restos negros do que teria sido um pavoroso fogo que queimou mesmo árvores encostadas aos muros dos pequenos quintais de várias habitações.
Finalmente regressamos ao Porto e depois a casa.
Não posso deixar de fazer uma referência aos 23 passageiros. Eram, pessoas da meia-idade para cima, reformados e, salvo um ou outro caso, com situação económica não muito desafogada. Mas pessoas educadas e, o que é muito importante nestes passeios, cumpridoras das regras, nomeadamente dos horários. Como é habitual num grupo humano, aparece sempre o animador, o contador de anedotas, o tipo que fala alto e atira piadas com propósito. Ele lá estava: o Celestino, com a mulher a rir-se enquanto o mandava calar.
Finalmente, quero dizer-vos que a minha dona adorou tudo isto e ficou freguesa. E mais! Já disse que para o ano quer ir passar uns cinco dias a Barcelona. E depois ainda dizem que homens machistas como eu é que mandam! Nota-se!

Este post não será, certamente, dos mais divertidos. Penso que será mesmo um tanto penoso de ler.
Mas também posso ser chatinho, não posso?

Pensei em ilustrá-lo com uma ou duas fotografias mas, ficaram todas tão mal, que não tive lata para colocar aqui nenhuma.
Alternativa:
Vão fazer a viagem ou usem a imaginação!


publicado por António às 14:44
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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2005
Na Kaiserstrasse
Nota prévia:
Este texto baseia-se em mais um episódio da minha viagem de curso.
É o quinto desta série.
Antes, coloquei em exibição:
”A viagem de curso”em 13 MAI 05.
”As putas de Amsterdam” em 20 MAI 05.
”Em Paris” em 11 JUN 05.
“Um filme em Zurich” em 30 JUL 05. 
                                                                                                                                                           
No dia vinte e dois de Março de 1972, cedo como de costume, deixamos a cidade industrial de Ludwigshafen onde pernoitáramos duas noites e fizéramos uma visita de estudo à BASF, e rumamos a uma das mais importantes cidades da Alemanha (na altura só a ocidental, pois a reunificação dar-se-ia vários anos mais tarde) e da Europa:
Frankfurt.
Cidade moderna, com grandes arranha-céus e um bulício intenso, quer de viaturas quer de pessoas, não deixa de ser atraente. Sem importantes monumentos antigos, faz a compensação com o arrojo e vanguardismo de algumas soluções arquitectónicas.
Chegamos cedo pois, além de a distância ser curta, aquele país já tinha à época uma espectacular rede de auto-estradas. Além disso tínhamos de fazer uma outra visita de estudo: desta vez à Lurgi.
Por isso, mal terminamos as arrumações no hotel, fomos para a referida empresa onde demos uma rápida voltinha. A firma não era particularmente aliciante para ver, mas tínhamos de cumprir os mínimos por causa dos subsídios. Lá almoçamos e por volta das quatro da tarde já estávamos a abandonar o hotel. Tínhamos de aproveitar o resto do dia pois, na manhã seguinte, seguiríamos para Colónia (Koln).
E fomos saindo. Os rapazes que tinham namorada tiveram que gramar umas idas aos grandes armazéns e a shoppings (já os havia por lá, nesses tempos).
O meu amigo Jacinto (sempre ele) tinha trazido, entretanto, indicação para irmos ver um espectáculo numa casa chamada Bar Europa. Não sabíamos o que era, exactamente, mas as referências indicavam que se tratava de coisa muito adequada a homens,
Ficava numa transversal da Kaiserstrasse (rua do Imperador).
Esta rua larga e comprida nascia exactamente na Estação do Caminho-de-ferro (a que nós nos habituáramos a tratar pelo nome em alemão: bahnhof) e estendia-se à sua frente.
Não sei se já repararam que nas cidades portuárias, as “zonas” mais importantes de sexy-shops, cinemas porno, meretrícios e quejandos, se situam perto dos cais.
Nas cidades de interior, como Frankfurt, essas “zonas” localizam-se preferencialmente junto das estações dos caminhos-de-ferro.
Não é sempre assim, mas é-o a maior parte das vezes.
E lá fomos os dois, em busca da rua da perdição.
Perguntamos a um taxista que nos explicou e percebemos tudo facilmente. Também era perto e bom caminho. Por isso mesmo fomos a pé.
Ainda tínhamos um bom bocado da tarde e a noite para apreciarmos bem as últimas “modas” alemãs.
Os primeiros dois terços da rua eram normalíssimos.
Só na terceira parte (caminhando para a estação) é que começavam a aparecer as lojas, cinemas, bares e similares.
Fomos até ao final (ou início, se quiserem) da rua para fazer o primeiro reconhecimento do terreno.
Depois viemos para trás e começamos a fazer uma prospecção sistematizada das transversais.
Numa delas havia um bar que, por razão que não recordo, nos chamou a atenção. Parámos à sua porta e espreitamos lá para dentro para ver melhor de que tipo era. E um chulote qualquer começou a perguntar-nos, nas línguas respectivas, a nacionalidade: jugoslavos? turcos? espanhóis? brasileiros? e mais duas ou três. Fomos respondendo que não. Finalmente:
- Portugueses?
Respondemos afirmativamente.
E não querem saber que o homem nos mandou para a rua com maus modos?
Parece que alguns compatriotas nossos tinham feito estragos naquele meretrício.
Ainda se podia ver o sol. Continuamos a pesquisa.
A certa altura, noutra das transversais, deparamos com uma porta aberta. Por cima, um letreiro luminoso (embora apagado, no momento) tinha escrito: Paradise. Espreitamos pela porta e só víamos umas escadas que desciam para um piso inferior. O revestimento era todo a mosaico de cor azul clara. O aspecto geral era o de uma instalação nova. Como já estávamos escaldados, resolvemos dar uma olhadela por fora. Mais adiante havia uma porta e escadas semelhantes. Com uma diferença: A primeira dizia Eingang e a segunda Ausgang (entrada e saída, respectivamente).
Resolvemos entrar. Descemos as escadas e deparamo-nos com uma cave com as paredes todas revestidas a mosaico azul celeste e com algumas portas forradas a cabedal.
A área era enorme; talvez uns quarenta metros por vinte, talvez um pouco menos. E, nesse enorme átrio, dezenas de “meninas” em trajos sumaríssimos faziam trottoir. Eram quasi todas jovens e algumas lindas de morrer. Entre as prostitutas, andavam homens a apreciar e apreçar as pequenas. Quando chegavam a acordo, iam para uns quartinhos através das tais portas com couro.
Apreciada esta novidade, subimos e saímos.
Logo adiante, na esquina da rua principal com uma das que lhe eram perpendiculares, mas com entrada pela secundária, apareceu o letreiro: BAR EUROPA.
Era o que procurávamos.
Perguntamos a um velho porteiro se estava aberto. Respondeu que não.
- E quando é possível entrar?
- A partir das nove horas.
- E qual é o preço?
- Um marco – disse o homem.
Olhamos um para o outro. Oito escudos? Só?
- E não é preciso pagar mais nada? – interrogamos o sujeito.
- Sim, claro, o que beberem.
E mostrou-nos um cardápio com os preços que eram bastante baratos.
Entretanto perguntamos se podíamos dar uma espreitadela para o interior.
- Sim! As meninas estão a ensaiar – disse o simpático homem.
E espreitamos. Havia um palco ao fundo e, vestidas com uma espécie de fato de treino todo branco e muito justo, cinco ou seis mulheres ensaiavam colocando-se em posições um tanto heterodoxas.
- Já chega! – disse o guarda.

E terminou esta pequena conversa toda ela em inglês. Este idioma já se perfilava como o mais usado em todo o tipo de negócio em qualquer parte do mundo.
Feito este aparte, podemos dizer que o pouco que vimos aguçou-nos o apetite.
E continuamos o nosso passeio olhando para tudo aquilo com um ar de algum espanto.
A certa altura resolvemos ir ver um filme.
Era sessão contínua. Exibiam vários, uns a seguir aos outros, sem intervalo. O espectador entrava, ia vendo, e quando estivesse farto, saía.
Não demoramos muito tempo. O pedaço de filme que nos apareceu no écran era demasiado mau. Nem porno nem erótico. Uma merda.
Entretanto aproximava-se a hora de comer para depois ir ao show do Bar Europa.
Fizemo-lo tragando um hamburger, com mais cebola que carne e pão juntos, numa lojeca que tinha o balcão à face da rua.
Demos mais uma voltinha e ainda não eram nove horas já estávamos a comprar a entrada para o espectáculo do Europa.
Uma das empregadas vestindo, como as outras, um curtíssimo vestido preto e um avental branco rendado, indicou-nos uma mesa. Pedimos uma cerveja cada um. Vieram dois canecões que dariam para a noite inteira se o conteúdo não ficasse quente e portanto intragável.
E começou o espectáculo!
Eram seis raparigas que executavam vários números porno (não entravam todas no mesmo quadro: umas vezes eram duas, outras três, outras quatro...).
Meu Deus!
Nunca tinha visto daquilo!
Elas exibiam-se total e despudoradamente para uma assistência quasi totalmente masculina.
E quando uma delas resolve pegar numa longa boquilha e tirar umas fumaças vaginais fazendo rodelas de fumo, os espectadores aplaudiram delirantemente e em pé tão notável feito.
Também aparecia, de vez em quando, um artista com aspecto de australopiteco que deveria usar da sua virilidade para ajudar o desempenho das actrizes mas o homem devia andar a trabalhar muito pois a fraca actuação do seu falo deixou o público fulo.
E estivemos naquilo até à uma da manhã.
Mas o gozo maior foi quando contamos a aventura na Kaiserstrasse aos nossos colegas. Alguns decidiram que da próxima iriam comigo e com o Jacinto.
E dois deles foram: em Amsterdam.


publicado por António às 19:33
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005
Miguel Ângelo (a casa de Barcelinhos)

Quando iniciei a feitura deste blog decidi que só teria texto. Nem fotografias, nem músicas. Mais nada!
Mas hoje vou quebrar esse princípio.
A amiga Guevara do "Guerrilhas", a meu pedido, fez uma série de fotos da casa de Barcelinhos onde nasceu o meu bisavô Miguel Ângelo Pereira. E fez tudo num ápice.
Muito obrigado, minha querida amiga!
Seleccionei três dessas fotos para aqui colocar.
Peço especial atenção à terceira. Já serviu para rectificar a data de nascimento que constava do dicionário enciclopédico da Lello. É 1843 e não 1847. Alíás confirmado pelo artigo do Diário do Norte que referi no post anterior.
Na pequena placa de mármore cujos dizeres são ilegíveis na fotografia, está escrito o seguinte:


"Homenagem do Orfeão Universitário do Porto 1-9-1944"


Mais um obrigado à Guevara que foi quem fez a leitura in loco.
Penso que fiz bem em colocar estas imagens.
Enfim...às vezes é preciso subverter as regras, não é verdade?



publicado por António às 14:17
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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2005
Miguel Ângelo Pereira
Hesitei bastante sobre se deveria escrever e exibir este texto.
Tem a ver com os meus antepassados e, se eles fossem vivos, provavelmente não gostariam de ter alguns aspectos da sua vida expostos aos olhos de todos.
Mas, acontecimentos recentes vieram ajudar-me a tomar uma decisão.
As pessoas e os nomes aqui referidos são absolutamente verídicos.



O que vou contar tem a ver com um dos ramos da minha família. O paterno.
Desde muito novo que encontrei grandes reservas em meu pai, Fernando, seus irmãos Manuel, Gilberto e António e ainda em minha avó e mãe deles Maria Luíza (e utilizo a grafia que constava no seu bilhete de identidade), para falarem da sua vida passada bem como dos seus outros parentes. Posso acrescentar que já todos faleceram.
Maria Luíza chamava-se, de seu nome completo, Maria Luíza Castilho Dias. E o nome do meu pai e dos três tios que referi tinham como apelidos Castilho Dias, também.
Um dia, ainda jovem, estava a manusear o bilhete de identidade do meu progenitor e verifiquei que era omisso em relação ao nome do meu avô. Sabia que ele era Américo e aquilo intrigou-me. Perguntei qual a causa daquela omissão. O meu pai deu uma desculpa esfarrapada qualquer. Só muito mais tarde, e não sei a que propósito, ele me desvendou, finalmente, alguns dos segredos do passado. Mas só alguns! Poucos!
O seu progenitor e meu avô, Américo Pereira, pianista profissional e filho de um compositor e também pianista portuense de nome Miguel Ângelo Pereira (este já eu conhecia; era muito falado lá em casa), casara com uma senhora cujo nome nunca soube. Tiveram vários filhos. Mas Américo, que era um homem sedutor e mulherengo, quando a mulher e alguns filhos foram infectados pela tuberculose, nos primórdios do sec. XX, iniciou uma ligação amorosa com a sua cunhada mais nova que, segundo vários depoimentos, fotografias que vi e por muito ter convivido com ela (faleceu em 1991 com noventa e sete anos de idade), era mulher de grande beleza. Era Maria Luíza, a minha querida avó Mimi e por este nome todos os netos a chamavam.
O envolvimento entre Américo, que na altura tinha pouco mais de quarenta anos, e Maria Luíza, que tinha dezanove, teve como primeiro contratempo uma gravidez. Quando a família da minha avó soube da situação, a pobre rapariga foi expulsa de casa, aliás de acordo com os critérios morais e sociais vigentes na época. E foi recolhida, não sei por quem, em Vila do Conde onde nasceu o meu tio Manuel.
Acabaram por ir viver juntos para uma vivenda na zona da Arrábida (casa que eu ainda conheci) tendo nascido ali os filhos Fernando e Gilberto.
Mas o meu avô era um homem muito ausente devido aos constantes compromissos profissionais que tinha, muitos dos quais no Brasil onde passava longos períodos.
E foi protelando, não sei se o casamento pois desconheço quando a sua primeira e legítima mulher faleceu, mas a assunção oficial da paternidade dos rapazinhos.
E isso nunca viria a acontecer pois entretanto faleceu no Rio de Janeiro, durante uma das tournées, com cinquenta e dois anos de idade. A minha avó, além dos três filhos criança, ficou ainda com um no ventre, o António, que foi o último a desaparecer de todos os personagens que referi, em Julho de 2004.
Como não eram pessoas de grande riqueza, os dois mais velhos, Manuel que já estudava no liceu e o meu pai que só tinha ainda concluído a terceira classe (tinha nove anos) foram lançados no mundo do trabalho. Gilberto foi educado por uns padrinhos mas acabou interno no asilo do Terço. Minha avó ficou a cuidar da casa e do bebé que entretanto nascera, em 1929, ano do falecimento do pai de seus filhos. Mais tarde arranjou um emprego que conservou até se reformar.
E pouco mais soube deste ramo da família. Conheci ainda uma irmã da minha avó, de nome Alzira e os seus dois filhos: Jaime e Lili (o nome correcto não lembro agora).
Nunca conheci e mal ouvi falar dos meios-irmãos de meu pai pois, se alguns morreram com a tísica, outros sobreviveram.
Torna-se agora mais compreensível o silêncio sobre muitos factos que, talvez por acordo entre eles, resolveram levar para a tumba.
E também se torna mais compreensível a minha dúvida em escrever e divulgar este texto.
Já fiz uma breve alusão ao meu bisavô, pai de Américo, a figura dessa linha familiar mais falada e muitas vezes referida, ainda que sem grandes pormenores. Era, sem dúvida, o nome maior e mais reverenciado:
Miguel Ângelo Pereira.
Dele diz o dicionário enciclopédico Lello Universal:
“PEREIRA (Miguel Ângelo), compositor português nascido em Barcelinhos (1843 – 1901), autor das óperas Eurico, Zaida, Avalanche, de música sinfónica, etc.”.
E um longo artigo, assinado por Eurico Thomaz de Lima e cuja primeira parte foi publicada no Diário do Norte de doze de Março de 1958 e a segunda no número de vinte e dois do mesmo mês, titulava:
“Miguel Ângelo Pereira – O maior músico português da segunda metade do sec. IXX morreu na pobreza e louco”. (afinal eu tenho a quem sair, estão a ver?).
A noção que eu sempre tive era a de que todo o espólio artístico do meu bisavô havia sido perdido. Cheguei, já homem, a escrever para o Círculo de Cultura Musical a pedir informações sobre o artista, mas nem resposta tive.
E o assunto estaria encerrado se o acaso não resolvesse fazer-nos umas das surpresas que lhe são tão habituais.

Já este blog havia sido criado quando, a trinta de Maio do ano corrente, recebi um e-mail de um sujeito que assinava José A. Nele me pedia para lhe telefonar ou dar o meu número de telefone. Vivia em Lisboa.
Liguei-lhe.
E que me disse ele?
Que, andando a ler alguns blogs, viu um comentário meu num deles (tenho quasi a certeza que era o “Guerrilhas” da Guevara) no qual que me referia ao meu bisavô Miguel Ângelo Pereira como tendo nascido em Barcelinhos, na margem esquerda do rio Cávado, mesmo junto à ponte velha que liga aquela freguesia à cidade de Barcelos. A Guevara que me perdoe a indiscrição mas eu escrevi isso porque ela é uma barcelense.
E disse-me mais, o senhor:
Que a sua sogra, senhora de setenta e seis anos de idade, também era bisneta do compositor. E que tinha algumas pautas com músicas do meu bisavô. E tinha mesmo pequenas gravações áudio de alguns excertos de peças dele.
Rejubilei, como devem calcular!
E ainda mais: que ele fora casado com uma senhora de quem tivera cinco filhos. Por ordem decrescente da idade, Artur, Rafael, Raul, Virgílio e Américo. Todos com o apelido Pereira. Todos músicos profissionais.
Uma importante informação que a senhora, descendente de Artur, me deu (pois no dia seguinte falei com ela pelo telefone) foi a de que uma tal Dr.ª Ana Maria Liberal a tinha contactado pois fizera um mestrado sobre a música na cidade do Porto na segunda metade do século XIX e tinha ficado fascinada com o talento e também com a importância que Miguel Ângelo havia tido na época. Completou dizendo que a tal doutora e musicóloga estava a doutorar-se e tinha escolhido como tema exactamente este compositor agora quasi esquecido.
Tendo obtido da bisneta de Miguel Ângelo o seu contacto telefónico, também para a doutora liguei. Ficou muito grata pois lhe faltavam elementos sobre o filho mais novo, o meu avô Américo, e eu estive a fornecer-lhe informações sobretudo ligadas aos seus descendestes.
Teceu os maiores elogios sobre o artista que, repetiu, a fascinava pela sua personalidade e talento. Afirmou mesmo que eu me podia orgulhar de ter um ascendente com uma enorme e decisiva influência no riquíssimo meio musical portuense dessa época. E confirmou que, embora muito do espólio artístico não tivesse paradeiro conhecido, havia ainda material, quer em papel quer em gravação (feita muito mais tarde, obviamente, e com intérpretes que desconheço).
Contou-me que a loucura teria sido originada pelo facto de a ópera Eurico, que ele considerava a sua obra-prima, ter tido pouco êxito, o que o deixou muito abalado e mais tarde o convertera em doente mental (provavelmente hoje, com um bom anti-depressivo, ficaria curado em poucos meses).
Disse-me ainda que o meu avô Américo não só fora um conceituado pianista como também compositor de reconhecidos méritos.
Como a tese de doutoramento terá de ficar pronta até Outubro ou Novembro do ano em curso, combinamos que depois me ofereceria um exemplar.
Consequentemente, vou aguardando que o trabalho fique concluído para, finalmente, descobrir muitos dos mistérios que, para mim, ainda estão por decifrar.
Depois, e em função do que vier mencionado nesse documento que considero já de grande valor, definirei o que fazer, nomeadamente para reabilitar a memória do meu ancestral.
Nos dias seguintes falei com a minha irmã e as minhas primas que ficaram também entusiasmadíssimas, como era de calcular. E também querem um exemplar da tese do doutoramento, claro!

Penso que a decisão de aqui divulgar os factos que tanto incomodaram os meus antepassados foi a mais correcta. Que me perdoem os falecidos. Mas estamos no campo da investigação histórica e, além disso, gostaria muito que o nome de Miguel Ângelo Pereira passasse a constar da galeria dos grandes compositores portugueses pois, ao que parece, o foi.
Lá para o final do ano espero voltar a este assunto.
Realmente, a vida reserva-nos cada surpresa!
Só para terminar:
Já repararam que se o meu avô tivesse perfilhado os filhos o meu nome seria, por exemplo, António Dias Pereira?

A título de nota de rodapé, devo dizer que dos descendentes de Américo nenhum mostrou aptidões para a música. Nomeadamente eu, a minha irmã e o meu filho estudamos piano mas, como se costuma dizer, não dávamos uma para a caixa.
Tenho pena!


publicado por António às 14:07
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2005
No norte de Itália
Quando escrevo sobre acontecimentos passados, recorro fundamentalmente ao que está retido na minha memória. Mas, procurando na maleta das recordações, na colecção das velhas fotografias, nos mapas geográficos, aparece sempre algum documento que ajuda a localizar os locais, a revisitar ruas e monumentos, a definir datas. E são preciosos auxiliares e revigorantes cerebrais.
Para o texto que se segue, bem procurei alguma ajuda, mas nada apareceu. Portanto, o que vos vou contar é baseado somente na memória. Espero que essa minha função intelectual ainda esteja a trabalhar bem!



Na Páscoa de 1977 logrei obter o meu primeiro emprego na indústria privada.
Foi na zona de Vizela, numa fábrica de revestimentos têxteis, isto é, telas ou malhas revestidas a plástico flexível, nomeadamente PVC e poliuretanos, originando couro artificial para vender em rolos e destinado a confeccionar napas para estofos e vestuário, marroquinaria e calçado, principalmente.
Exercia as funções de chefe do laboratório e uma das principais tarefas que me foram cometidas consistia no desenvolvimento de novos produtos. Trabalho muito interessante e que, quando bem sucedido, era bastante compensador (espiritualmente, já que materialmente tudo ficava na mesma).
Saí em 1979, também pela Páscoa, tendo cometido um dos maiores erros da minha vida. Ou talvez não. Mas isso agora pouco interessa.
No final da primavera de 1978, em Maio ou Junho, fui com um colega e meu chefe, o director de produção Eng. Américo, visitar durante dez dias (ida num domingo, regresso numa terça-feira) uma empresa congénere italiana com a qual tínhamos um acordo para apoio técnico. Como os frutos daí resultantes eram muito poucos, essa permanência de seis dias úteis na Flexa, talvez desse bom resultado.
Naturalmente que não vou aqui falar do que aconteceu durante as oito horas diárias dentro da fábrica, mas sim daquilo que fica mais bem guardado na memória, isto é, o que acontece durante o período de lazer.
Ficamos alojados num hotel de Gallarate, uma pequena mas moderna e activa cidade industrial da zona mais rica de Itália, a Lombardia. Fica situada a norte de Milão e a sul de Varese.
Como a nossa empresa estava com dificuldades financeiras (que anos mais tarde viria a ultrapassar), pôs-nos a dormir no mesmo quarto que, por infeliz acaso, só tinha uma cama. A situação não era muito simpática, mas como o Américo tinha sido meu colega de curso e estivera comigo em Luanda, na Marinha, encaramos o desconforto com umas piadas ajustadas ao facto, nomeadamente ao de dormirmos na mesma cama.
Como aquilo era uma visita de trabalho e bem cedo estava à porta do hotel uma carrinha para nos levar para a fábrica da Flexa, o mesmo acontecendo no regresso, só tínhamos livres uma meia hora antes do jantar e depois um pouco da noite porque, o mais tardar às onze, íamos para o quarto.
Para além de jantarmos quasi sempre umas pizzas ou sparghetti (foi aí que aprendi a comer esses tubos longos, fininhos e fugidios com colher e garfo), depois dávamos uma volta a pé pela zona circundante do hotel, onde havia dois jardins, até recolhermos a penates após uma passagem pelo bar para beber um
scotch potenciador do sono.
Numa dessas noites, após o jantar, passamos por duas moças italianas, talvez ainda teenagers, que deram umas risadinhas como quem quer dizer: “Venham daí!”. E nós fomos! O entendimento não foi fácil pois elas não pareciam ser muito instruídas, mas lá se foi mantendo uma conversinha mais ou menos sem pés nem cabeça. Quando elas disseram que iam para casa, nós continuamos a acompanhá-las com toda a calma. Se desse alguma coisa, muito bem. Se não desse, paciência.
Estava já completamente escuro quando as raparigas atravessaram um grande portão de ferro que dava acesso a um vasto átrio interior rodeado por habitações e lojas. Meteram-se num talho que ainda estava de portas abertas, apesar da hora. Nós também entramos para esse átrio apesar de muito mal iluminado. Resolvemos aguardar mais alguns minutos para ver se estava mesmo tudo perdido.
Eis que à porta da loja surge um corpulento vulto que o contra luz tornava negro, a vociferar coisas que não percebemos e com o braço direito levantado e brandindo um facalhão.

Parecia uma cena de um filme de terror!
Perante aquela imagem...ah, pernas para que vos quero?
Mesmo com pouca luminosidade, lá nos orientamos chegando em tempo record ao hotel.
Nessa noite os
whiskies foram duplos e sempre com um olho na porta de entrada.
Ainda agora pergunto a mim mesmo o que teria originado uma reacção tão agressiva por parte do italiano (o gajo devia ter vindo da Sicília!). Seria puro gozo? Talvez!

Quando chegou o fim-de-semana, resolvemos ir no sábado a Milão, de comboio. A estadia não deu para conhecer minimamente a cidade que me pareceu bastante moderna do ponto de vista arquitectónico.
Mas não pudemos deixar de ir ao Duomo conhecer um dos mais maravilhosos monumentos que jamais vi: a catedral. A Catedral de Milão. Construída numa rocha muito clara, penso que calcário, e com uma incontável quantidade de rendilhados no melhor estilo gótico. Demorou quinhentos anos a construir.
Mesmo ao lado, duas ruas cruzando-se em forma de cruz. Com construções antigas e de grande cunho artístico. E a particularidade de terem uma cobertura de vidro. Constituíam a Galleria Vittorio Emanuel onde pontificavam lojas com nomes famosos e produtos caríssimos.
Bem perto estava o famoso Teatro Scala, talvez a mais famosa opera house do mundo.
No domingo, partimos outra vez de Gallarate, dentro de um comboio que nos levou até ao bordo sul do Lago Maggiore (Maior, em português), na zona pré-alpina e já muito perto da Suiça. Magníficas paisagens que não fotografei porque não havia levado a máquina. Penso que Américo o fez. Um dia hei-de-lhe perguntar. É uma zona turística, que penso muito cara, sem edifícios modernos, tudo em estilos antigos mas muito bonitos. Não falo mais sobre o assunto porque de linhas arquitectónicas percebo tanto como de linhas de coser. Isto é, nada!

Foi essa a única vez que fui a Itália.
Espero um dia ir a Veneza.
Ir a Veneza e morrer…diz-se.


publicado por António às 10:08
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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2005
No campo de trabalhos
Nos primeiros dias de Agosto de 1972, com 23 anos e nove contos de rei no bolso (dinheiro emprestado pelo meu pai para fazer face a eventuais despesas não previstas), uma mala pesada e a cabeça carregada de imaginação, voei para Londres onde passei uma noite.
Na manhã seguinte, e num dia que não consta dos meus registos, infelizmente, pois esta necessidade de me localizar no tempo e no espaço é quasi doentia, dirigi-me, de táxi, do hotelzinho tipo asilo para indigentes onde pernoitara, para a Liverpool Stress Station onde apanhei o comboio para March Station, duas horas afastada, já no Cambridgeshire.
Lá nos esperava (a mim e a muitos outros jovens de todo o mundo) um período de vinte e dois dias de trabalho no Friday Bridge Agricultural Camp, perto da cidadezinha de Wisbech, uns duzentos quilómetros para norte de Londres.
Durante a viagem travei conhecimento com uns portugueses e espanhóis, que viriam a ser meus parceiros habituais durante todo o período nesse antigo campo de concentração da segunda guerra mundial. Sim, porque os aliados também faziam prisioneiros e tinham de os meter em algum sítio.
Chegados a March, estava à nossa espera um autocarro que fez várias viagens da estação para o campo para transportar os “trabalhadores”. E uso esta palavra porque se nós, rapaziada jovem, encarava aquilo como um campo de férias onde se podia trabalhar e ganhar algum dinheiro, os responsáveis do Friday Bridge encaravam-nos como mão-de-obra em stock para suprir as necessidades da agricultura e indústria agrícola locais.
Uma vez no campo, deram-nos um folheto explicativo e uma prelecção.
Fiquei logo a saber que tínhamos de pagar uma série de coisas. Não gostei!
Além da zona de refeitórios, bar e a enorme sala de convívio, tudo no edifício central, velho mas restaurado, havia a vasta zona dos dormitórios (que era constituída por bangalôs). Uma parte para rapazes e outra para raparigas, separadas por uma rede de arame. Mas rapidamente os mais safados descobriram algumas passagens clandestinas através da cerca. Havia um número elevado de bangalôs (pois os utentes eram duzentos e tal, se a memória não me atraiçoa) e cada um deles tinha umas doze pequenas e desconfortáveis camas. Nada de armários. Umas prateleiras, uma pequena caixa para guardar objectos, uma cadeira para cada um. A roupa ficava dentro da mala ou a arejar na cadeira, sobre a cama ou em cima da bagagem. Luz directa quasi não havia e a indirecta chegava para ler um livro, mas de letras bem gordinhas.
Fui colocado num deles juntamente com alguns portugueses, mas também com os espanhóis do comboio e outros tipos de diferentes países.
No campo havia predominância de italianos. O raio dos tipos falavam alto e de forma arrogante e faziam uma tal barulheira que, rapidamente, se tornaram os mais detestados. Uma vez, um dos mais parlapatões irritou de tal modo um pacato e gigantesco alemão que este lhe deu um murro na trombeta que o fanfarrão voou, como nos filme. Delirante!
Mas havia gente de imensos países. Da Europa, principalmente, mesmo do leste europeu que ainda estava sob o jugo soviético.
Orientais também. Japoneses, claro, mas eram poucos.
Também brasileiros e de outros países da América Latina. Não me posso esquecer de uma bela morena argentina que tinha o interessante hábito de, durante a noite, escapulir-se para a zona do dormitório dos homens onde metia a cabecita debaixo da roupa da cama dos moços e oralisava um tratamento anti-stress.
Entretanto, foi lido e afixado o nome dos “operários” que iriam trabalhar no dia seguinte.
Não havia trabalho para todos, diariamente, por isso era preciso ter sorte ou engraxar os responsáveis do campo. Tive sorte. Chamaram logo o Mr. Dias (pronunciaram “daias” tendo eu reclamado, em vão, que era “dias”).
Lidas as instruções sobre o trabalho do dia seguinte, fomos jantar uma comida horrorosa feita à base de vegetais.
Depois, foi a altura de procurar uma miúda para meter conversa e ver o que dava. E não é que estavam já todas engatadas? Havia uma inglesa loira, gorda e com os dentes estragados que me fazia uns olhinhos, mas não me atraía muito e continuava esperançado em arranjar uma mais jeitosa. Mas essa noite, como as outras, acabei-a a beber uns copos e a conversar com a malta do costume, a quem se juntaria um grupo de três portuguesas.
Na manhã seguinte, bem cedo, lá fui para uma fábrica de enlatados vegetais (nomeadamente favas e ervilhas). Fui colocado junto de um tapete rolante que transportava esses vegetais ainda quentes e fumegantes da cozedura que haviam sofrido previamente em grandes panelões, tendo a tarefa de retirar com a mão os que tivessem um aspecto mais feio ou apodrecido. Coisa simples. Depois andei a transportar de um lado para outro uns bidões de ferro, mas vazios. Aquilo estava a correr bem! Perguntaram quem queria ficar a fazer horas extras. Voluntarizei-me.
Em suma: trabalhei doze horas mas ganhei uma boa maquia em libras.
E qual não é a minha surpresa quando, ao chegar ao campo, extenuado e cheio de sono, me dizem que estava de novo convocado para o dia seguinte. E para a mesma fábrica. Fui logo dormir.
De manhã, bem cedo, tomamos o pequeno-almoço e fomos transportados para o local de trabalho.
Mas desta vez não tive tanta sorte:
Os supervisors, que podemos traduzir por encarregados (prefiro esta designação à de supervisores), perante as tropas voluntárias, começaram a chamar com um dedo (naquele conhecido movimento repetitivo em que o indicador se dobra parecendo um anzol e se estica, repetidamente) a rapaziada – moças incluídas, claro – para as mais diversas tarefas. E não me ligavam nada.
Finalmente fizeram-me sinal e um dos mandões levou-me para cima de um palanque localizado mesmo no início de um dos tapetes rolantes de que já falei atrás. Deram-me uma pá e fiquei à espera.
Passados uns minutos, colocaram ao lado do tableau onde eu aguardava, um enorme penelão cheio de favas, fumegante. Tive de tirar os óculos pois ficaram, de imediato, embaciados.
E veio a ordem: alimentar, à pazada, o tapete com favas. Mas tinha de ser rápido para que a cobertura da tela transportadora pelas favas fosse contínua.
Ora reparem bem! Foram escolher para o trabalho mais pesado (era necessária uma força de braços muito grande para bem cumprir a tarefa) um dos mais baixos e leves do grupo.
Resultado?
Durante uns minutos a tarefa foi cumprida. Mas as forças foram faltando e cada vez era maior o intervalo entre as descargas das sementes. Os supervisors bem protestavam comigo, mas o resultado era cada vez pior. Cheguei ao limite com pequenos montinhos espaçados de uns dois metros.
Os chefes vociferavam mas, com o barulho, não percebia nada. Até que tomei uma decisão. Desci do palanque e disse:
- I wanna go away!
E tentei fazer-lhes ver que havendo uns “operários” com um corpanzil enorme, me deviam colocar noutra actividade. E não é que os pataratas disseram que não? Mandaram-me descansar e comer qualquer coisa para recuperar energias, os burros. Comi uma das horrorosas sandes de tomate e alface que trouxera do campo. Nunca gostei nem gosto de sandes de vegetais.
Ao fim de uns minutos puseram-me outra vez em cima do palanque. Nem três minutos lá fiquei.
Fui despedido!
Pagaram-me o tempo que lá tinha estado, uma ninharia, apanhei uma boleia na estrada e regressei ao campo onde finalmente dormi uma boa soneca.
E como os dias foram passando sem ser novamente convocado para trabalhar, juntamente com mais um ou dois ou três portugueses (ou os que quisessem alinhar), fomos percorrendo a região e as cidadezinhas à boleia.
Wisbech foi onde nos deslocamos mais vezes. Também era a mais próxima do campo e tinha uns pubs muito engraçados e com uma boa frequência. March, Hunstanton, Harwich e Peterborough foram outros dos destinos onde eu fui gastando a reserva de dinheiro que o meu pai me emprestara.
As noites eram passadas em cavaqueiras ou guitarradas bem divertidas, com os portugueses e alguns espanhóis. A malta do costume, afinal. E assim não fui praticando o inglês que era uma das finalidades desta minha permanência no Reino Unido.
Finalmente, ao fim de mais de uma semana sem ser escalado para o exterior, apareceu de novo o meu nome na lista dos “trabalhadores” escolhidos.
Desta vez o local era um pomar de ameixieiras.
A tarefa, trepar às árvores e encher um enorme cesto de vime com ameixas em bom estado de conservação. Mas totalmente cheio. Depois devíamos regressar ao local onde estavam os mandões, a colheita era pesada, despejada nuns camiões e partíamos novamente com o cesto já vazio.
E lá fui eu feito capuchinho vermelho de cestinha na mão até uma árvore. Pedi emprestado um escadote, fui enchendo o recipiente, mudei de árvore, mais ameixas lá para dentro e, pronto. Tudo cheio!
Quando tentei pegar no cesto para o levar à pesagem, nada! Não tinha força para o sustentar.
Pedi ajuda a alguns tipos mas a solidariedade não funcionou.
Resolvi, então retirar parte da carga. Quando verifiquei que já tinha músculo para o transportar, lá fui eu.
Chegado à pesagem, os encarregados viram o cesto meio vazio (eu via-o meio cheio) e mandaram-me para trás enchê-lo.
Voltei ao mesmo local! Novamente as ameixas para dentro e mais pedidos de ajuda, mas sem resultado.
Acabei por deixar cesto e fruta e fui-me embora.
Pelo menos desta vez não fui despedido. Antecipei-me!
E os dias continuaram como tinham sido até ali. Boa vida, umas passeatas e as divertidas noites de música e palavras.
Poucos dias antes de me vir embora, fui trabalhar para a fábrica dos enlatados. Dessa vez tudo correu bem e ganhei algum dinheirinho, que bom jeito dava pois as reservas estavam a desaparecer mais depressa do que eu desejaria.
Ao fim dos vinte e dois dias programados, fiz a viagem de regresso a Londres. Ainda por lá andei três dias, acompanhado por um dos patrícios do campo, até voar para o Porto.
Depois da chegada, dos beijos, dos abraços, das lágrimas da mamã, das perguntas e de tudo o mais que é habitual nestas ocasiões, interrogou-me o meu pai:
- Chegaste a usar algum do dinheiro que te emprestei?
- Gastei-o todo – respondi.
- Gastaste os nove contos todos?
- Sobraram uns trocos.
- Nove contos? Isso é muito dinheiro! – cogitou o meu pai com cara de chateado.
E rematou:
- Pronto, está bem! Está dada a prenda de formatura!
Lixei-me!


publicado por António às 18:41
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2005
Seis meses de vida
Pois é!
Este meu cantinho fez ontem, dia sete, seis meses de vida.

Meio ano!

Escrevi na introdução:
"Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças!".

Procurando fazer um breve balanço, acho que ainda não é tempo de me mandarem a camisa-de-forças.
Escrevi cerca de setenta textos.
Os primeiros eram completamente insanes.
Depois fui tomando um rumo, naturalmente, como uma criança que vai crescendo e fazendo opções.
Actualmente, o "Eu sou louco!" é, sobretudo, um repositório de memórias do passado.
O que será no futuro?
Ainda não sei.
Mas espero continuar a escrever pois cada vez gosto mais de o fazer.
Quando acharem que isto não presta, avisem-me. Ou chamem a ambulância.
Não me deixem andar aqui a fazer figuras tristes.

Não posso deixar de aqui e agora fazer uma referência a todos os que me lêem, e sobretudo àqueles que, com o seu comentário, muitas vezes aparecendo em todos os textos de forma continuada, me tem dado o alento que é sempre necessário.
O meu obrigado!

Também não posso omitir que tenho conhecido aqui pessoas maravilhosas e talentosas.
Bendita a hora em que o meu amigo "frog" me meteu nestas andanças!

Até sempre!


publicado por António às 12:47
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2005
Fórmula 1 na Boavista
Teve lugar nos passados dias 8, 9 e 10 de Julho o Grande Prémio Histórico do Porto, organizado, entre outras entidades, pela Câmara Municipal.
Não fui assistir a corridas nem acompanhei de perto os pormenores do evento.
Penso que foi um acontecimento muito variado que teve como mote principal os Grandes Prémios de Fórmula 1 disputados no citadino circuito da Boavista nos anos de 1958 e 1960.

Como tive o privilégio de assistir a essas duas corridas que contavam para o campeonato do mundo de pilotos e construtores, não posso deixar de relembrar esses dias. Repito que contavam para o campeonato mundial, pois houve outras corridas desta classe superior que eram meramente particulares.
O circuito, perigosíssimo como muitos daquele tempo e nos mais variados países, tinha as boxes e a meta na marginal marítima, entre as praças da Cidade do Salvador e de Gonçalves Zarco (Castelo do Queijo). Os automóveis subiam a avenida da Boavista até virarem à esquerda para a avenida Dr. Antunes Guimarães. Iam pela rua do Lidador até à sinuosa Circunvalação (toda ela marginada por grossas árvores a dois ou três metros dos carros) e esta terminava na praça que citei inicialmente.
O primeiro destes “Grand Prix” teve lugar no dia vinte e quatro de Agosto de 1958.
O segundo a catorze do mesmo mês de 1960.
Eram domingos. Nos sábados anteriores disputaram-se os treinos.
A vinte e três de Agosto de 1969 realizou-se idêntica prova no circuito de Monsanto, em Lisboa., mas a esse não assisti.
Só muitos anos depois se voltariam a disputar corridas do mesmo nível mas então no autódromo do Estoril. Foram treze provas, de 1984 a 1996.

Apesar de só ter nove e onze anos, respectivamente, o meu pai fez questão de me levar a ambas as corridas.
Quer aos treinos de sábado, quer no domingo, o grande dia.
Em pleno Agosto, no pino do calor, colocados a meio da recta da avenida da Boavista, ponto onde os carros atingiam a máxima velocidade, com precárias condições de seguranças (ao bólidos passavam a sete ou oito metros da nossa posição, tendo como única protecção duas fileiras de fardos de palha paralelipipédicos, cada uma com dois sobrepostos), aguentando a pé firme sobre um passeio, com o programa das corridas na mão para leitura prévia e consulta durante a prova e o enorme entusiasmo de vermos correr os grandes nomes do que agora se chama o Circo da Fórmula 1. E algum nervoso, também. E se algum carro se despistasse e viesse para cima de nós? Pois não estaria agora a contar-vos essa inolvidável experiência.
As sensações foram semelhantes nos dois anos.
No início da corrida, com as máquinas todas juntas, não se conseguiu distinguir senão o que ia em primeiro. Em dois ou três segundos tinham passado todos os concorrentes. O ruído era ensurdecedor. O cheiro era intenso e estranho, mas agradável.
O meu pai apalpava as minhas mãos e dizia:
- Estás com suores frios. Tens medo?
- Não, não, papá! – mentia.
Passados alguns minutos começava a ouvir-se um ruído distante.
- Estás a ouvir? São eles. Vem aí outra vez! – dizia o meu pai, excitadíssimo.
E o barulho aumentava, aumentava e, de repente lá vinha outra vez o magote dos concorrentes. E o cheiro. E o barulho.
Com o decorrer da corrida o espaço entre os concorrentes foi aumentando. Alguns foram desistindo. Já se podiam identificar todos os corredores. E acompanhar volta a volta a luta pelos primeiros lugares e também por outras classificações entre os que tinham carros menos competitivos.
E a adrenalina tinha baixado o seu nível.
- Olha, olha, agora não passou o 32. Quem é? – perguntava o meu progenitor.
- É o português. O Mário Araújo Cabral. – respondia eu depois de consultar o cardápio.
- Esse é um pixote! – sentenciou o adulto.
- Oh! Agora não passou o vermelho! – exclamou o pai.
- É o Ferrari do Phil Hill, o 26 – avançava eu, já dominando o assunto.
Já perto do fim o importante era saber quem seria o vencedor.
Ganhou o Stirling Moss em 1958. Era o nosso ídolo: meu e do meu pai. Mas o campeão do mundo foi o Mike Hawthorn, em Ferrari. Ambos ingleses. Passados poucos meses de se sagrar campeão, o loiríssimo Mike morreria no meio de uma amálgama de ferros retorcidos num acidente de viação quando conduzia o seu Ferrari pessoal.
O Jack Brabham ganhou a corrida e o título mundial em 1960.
A volta de honra encerrava o espectáculo, com os três primeiros classificados empoleirados numa pequena camioneta de caixa aberta. O vencedor tinha à volta do pescoço uma enorme coroa de louros. Exibiam taças. Foram os últimos e mais fortes aplausos.
Depois, o regresso a pé até um local onde houvesse carros eléctricos para voltar a casa.
E os pilotos percorriam o mesmo caminho dos populares, conduzindo os bólidos em que haviam acelerado minutos antes. Lembro-me de ver o inglês Graham Hill, o seu fino bigode e o cabelo muito liso passar mesmo ao meu lado, no seu BRM em forma de charuto, como todos os outros bólidos da época, muito devagarinho. Haveria de ser campeão do mundo em 1962 e 1968. Morreria na queda de um pequeno avião em Novembro de 1975 quando, no meio de denso nevoeiro tentava aterrar num pequeno aeródromo perto de Londres. O seu filho Damon Hill seria também laureado em 1996.
Alguns nomes muito importantes da Fórmula 1 correram nestas provas:
Stirling Moss, o eterno segundo, inglês.
Mike Hawthorn, prematuramente desaparecido, inglês.
Jean Behra, o mais famoso piloto francês da época.
Wofgang von Trips, o conde alemão da Ferrari que morreria nas pistas sem ter sido campeão.
Jack Brabham, o australiano três vezes campeão do mundo e que agora veio ao Porto.
Graham Hill, o inglês cavalheiro, duas vezes triunfador.
Maria Teresa de Filippis, a italiana que foi a primeira mulher (e penso que a única) a competir na Fórmula 1.
Bruce McLaren, neozelandês.
Jim Clark, o inglês que foi o melhor por duas vezes e que morreu na pista de Hockenheim, numa prova de fórmula 2, em Abril de 1968. Muitos se recusaram a admitir que o despiste tivesse sido provocado por erro de condução, tal era a sua competência como piloto.
John Surtees, o inglês que veio das motos e ganhou um título.
Mário Araújo Cabral, o primeiro português a competir nesta fórmula.

Para terem uma ideia de como estávamos nos primórdios deste tipo de competição, não posso deixar de vos maçar com mais uns dados.
O primeiro campeonato do mundo disputou-se em 1950. O vencedor foi o italiano Nino Farina. Também ele venceu a primeira corrida desse ano, em Silverstone. Em 1952 e 1953 ganhou outro italiano: Alberto Ascari. E o mítico argentino Juan Manuel Fângio venceu por cinco vezes. O seu record só muito recentemente foi batido pelo alemão, ainda em actividade, Michael Schumacher, com sete vitórias.
Portanto, os dois Grandes Prémios a que assisti directamente, ao vivo como se começou a dizer mais tarde, foram o oitavo e o décimo.
Muita coisa mudou entretanto.
Vou só referir que em 1965 apareceu a correr um jovem escocês (campeão em 1969, 1971 e 1973) que, com a sua luta pela melhoria das condições de segurança das pistas e nos carros, contribuiu decisivamente para que hoje o número de pilotos mortos em corrida seja percentualmente muitíssimo menor do que o daquela época. O seu nome era e é: Jackie Stewart, o escocês voador.

Uma nota para referir que o Grande Prémio disputado em Monsanto foi ganho por Stirling Moss e Jack Brabham sagrou-se campeão nesse ano de 1959. Nessa corrida estreou-se Mário de Araújo Cabral.

Finalmente, não posso deixar de mencionar que além da Fórmula 1, havia corridas para viaturas menos potentes. E alguns pilotos nacionais batiam-se com os melhores estrangeiros.
Eis alguns nomes para a posteridade:
Joaquim Filipe Nogueira.
Casimiro de Oliveira (irmão do cineasta Manoel de Oliveira).
José Nogueira Pinto.
Manuel Nogueira Pinto.

Muito haveria para dizer.
Mas não é meu propósito contar aqui a história da Fórmula 1.
Talvez já tenha escrito demais.
Desculpem!
(apesar de que, quem não gostou não chegou até aqui, não é verdade?)


publicado por António às 15:05
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Sábado, 30 de Julho de 2005
Um filme em Zurich
Nota prévia:
Este texto baseia-se em mais um episódio da minha viagem de curso.
É o quarto desta série.
Antes, coloquei em exibição:
“A viagem de curso” em 13 MAI 05
“As putas de Amsterdam” em 20 MAI 05
“Em Paris” em 11 JUN 05


Vindo de Genève, o autocarro com os felizardos finalistas chegou a Zurich ao fim da tarde do dia dezasseis de Março de 1972.
Fomos largados à porta do Hotel Rothus que, pudemos constatar, era o mais fraco e baratucho de todos aqueles onde pernoitamos. Por isso, também foi o único em que estava incluído o jantar. Foi a compensação feita pela agência de viagens que tratou dos alojamentos (com excepção dos da Alemanha): a Wagons-Lit Cook que, aliás, foi sempre impecável.
Ficava na zona velha da cidade mas, como já era quasi noite e nele tomaríamos a refeição, acabamos por não conhecer nada de Zurich.
Aquando da habitual azáfama de retirar as malas da viatura, distribuir os quartos e neles fazer a arrumação mínima, reparamos que mesmo em frente havia um cinema que tinha em exibição um filme que, quer pelo título quer pelos cartazes, parecia ser um filme erótico.

Aqui vou recordar mais uma vez que estávamos em 1972. A política salazarista de censura no cinema era bem forte. Quantos filmes não eram pura e simplesmente proibidos? E quantos não eram truncados, muitas vezes de tal modo que o próprio enredo se tornava incompreensível? Muitos, seguramente.
Não posso deixar de vos contar uma das mais caricatas manifestações desse puritanismo saloio que vi no cinema.
Estava a presenciar um filme com a então vedeta Brigitte Bardot e, num plano em que a actriz apareceria filmada nua da cinta para cima, de frente, exibindo os seus ainda bonitos seios, de repente a metade inferior do écran aparece toda negra, só deixando ver dos ombros para cima a bela francesa.
Aliás, mostrar seios era completamente interdito nas salas de espectáculos.
Quando em vinte e oito de Setembro de 1968 Marcelo Caetano (padrinho do conhecido Marcelo Rebelo de Sousa, a quem deu o nome próprio) assumiu a presidência do Conselho de Ministros, os aspectos relativos à censura foram progressivamente reduzidos, sobretudo no que diz respeito a livros. Mas também no cinema.
Recordo aqui o primeiro filme visto em Portugal em que seios femininos eram mostrados num plano muito semelhante ao que atrás referi para a Bardot. Eu, que na altura era um frequentador mais do que assíduo das salas de cinema, fui ver a estreia de “La piscine”, um policial francês bem ao meu gosto, realizado em 1968 por Jacques Déray e interpretado por Alain Delon, Maurice Ronet, Romy Schneider e Jane Birkin.
Penso que estaríamos em 1969. Talvez 1970.
Mesmo no final da segunda parte (e recordo que havia uma primeira preenchida normalmente com desenhos animados, um jornal de actualidades, e traillers dos próximos filmes a exibir, e depois mais duas com o filme de fundo) surgiu o tal plano em que, pela primeira vez, vi umas mamas no cinema (as da actriz austríaca e que, por sinal, e para decepção da maioria dos espectadores à soirée, que eram homens, já estavam bastante descaídas).
Logo a seguir foi o intervalo (o segundo) e não pude deixar de notar no rosto dos que vieram cá fora fumar um cigarrito e fazer um xixi uma cara diferente da habitual. E o silêncio também era bem maior que o costumeiro. Ao fim e ao cabo, acabávamos de ver um facto histórico. E os seios da Romy assim se tornaram um ícone do cinema no nosso país.
Mas filmes eróticos e pornográficos, nem pensar em vê-los. Isso ficaria para depois da revolução.

Voltemos a Zurich.
Acabado o repasto, muito de nós, rapazes e raparigas, resolvemos ir ver o tal filmezito.
E digo assim porque, de facto, era uma comédia brejeira com actos sexuais visivelmente simulados, uma linguagem desbragada (foi o que me disse no final um emigrante português que lá estava, pois eu de alemão não sei mais do que contar até dez) e uns nus femininos e masculinos. O certo é que muitas das nossas colegas não resistiram a dar uns gritinhos semi-histéricos. Mas, para todos os efeitos, foi o primeiro filme “despudorado” que vimos, pelo que não pode deixar de ser referido como um ponto importante da nossa saga através da Europa democrática e sem censura.
No final, alguns dos moços estivemos a ouvir o tal emigrante português, que era porteiro no edifício da ONU em Genève, a contar-nos histórias para adultos sobre a sua experiência na Suiça. Coisas um pouco fantasiadas, penso, mas que não deixaram de nos fazer abrir a boca de espanto algumas vezes.
Só quem viveu os tempos da ditadura pode avaliar bem o que tudo isto poderia representar para nós.
E no dia seguinte, bem cedo como de costume, abalamos rumo a Innsbruck, na Áustria, onde passamos dois dias e duas noites estupendos, nomeadamente nas pistas de neve onde quasi todos nós andamos de “sku” pela primeira vez.


publicado por António às 18:42
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Terça-feira, 26 de Julho de 2005
Uma turma difícil
Tendo regressado da comissão de serviço no Ultramar (como se dizia na altura) em Outubro de 1975 e tendo terminado um mês depois o serviço militar obrigatório, vi-me com um “canudo” debaixo do braço mas sem emprego.
A situação era particularmente delicada pois estávamos no auge do gonçalvismo (que esteve em vias de provocar uma guerra civil em Portugal) e, consequentemente, as empresas fechavam às catadupas, muitos empresários fugiam para o estrangeiro e a oferta de emprego baixava.
Acresce que a procura aumentou imenso. Quer devido aos imensos militares que estavam na tropa e que, de repente, vieram engrossar as hostes de desempregados, quer devido aos incontáveis “retornados” das nossas colónias africanas.
Foi neste quadro que, três anos após ter concluído os meus estudos, estava a viver com os meus pais. É certo que tinha um bom pé-de-meia trazido da Marinha mas, com a inflação na casa dos vinte por cento, esse dinheiro desvalorizava rapidamente.
Lembro-me de quando nós, os desempregados, nos encontrávamos na baixa portuense e perguntávamos:
- Ó pá! O que é que fazes?
A resposta era, invariavelmente:
- Nada! Compro tudo feito!
Ou de uma anedota que circulava na época:
“Um jovem engenheiro sem emprego, foi oferecer os seus préstimos a um circo. O dono deste disse-lhe que só tinha uma vaga: a de funâmbulo e teria de caminhar no arame sobre uma arena com leões. O nosso jovem, valente, aceitou o desafio a troco de um pequeno salário. Mas, como não era propriamente um expert nessa actividade, logo no primeiro ensaio caiu na arena. Estarrecido, viu um dos leões aproximar-se mas, qual não é o seu espanto quando o animal lhe sussurra ao ouvido:
- Não te preocupes. Nós, os leões, também somos todos malta de engenharia!”.
Corri tudo a procurar onde ganhar dinheiro. Escrevi muitas dezenas de cartas.
Finalmente, talvez em Janeiro de 1976, arranjei umas aulas de Matemática num ano “zero” do Instituto Industrial, hoje o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Mas sem qualquer vínculo.

Entretanto recebi uma comunicação do Ministério da Educação para me apresentar na Escola Industrial de Penafiel.
Era uma escola muito velhinha, que ficava no monte do Sameiro, bem perto do centro da cidade. Ao lado já estava em construção uma escola nova que seria inaugurada no ano lectivo seguinte.
Mudei logo. Tinha mais segurança de emprego. E, enquanto não aparecesse outra coisa, era trabalho. Embora nunca tivesse sido meu objectivo leccionar, era uma actividade que me dava algum prazer.
Isso aconteceu na altura das férias da Páscoa e fui substituir uma professora que dava Física ao antigo 6º ano do liceu ou equivalente (já não sei muito bem como estava organizado – ou desorganizado – o ensino na época, pelo que podem haver aqui algumas imprecisões) e que fora com o marido para o Canadá.
Daria também aulas a uns miúdos do 3º (ou 7º) ano.
Quando comecei a travar conhecimento com outros professores e lhes dizia que tinha ido substituir a Dr.ª. Alice Pires, diziam-me invariavelmente:
- Então tens o 6º B! Estás lixado! Tem lá um grupo que é do piorio. Ninguém tem mão neles.
Comecei a ficar com algumas preocupações.
Mas quando falei com a professora de Matemática dessa turma e a vi quasi a chorar por não conseguir controlar a rapaziada, reparei no ar choninhas e absolutamente despido de autoridade que ela tinha e pensei:
- A esta até eu tinha vontade de dar tanga.
As primeiras aulas a essa turma decorreram com toda a normalidade. E refiro-me às primeiras duas ou três semanas. Não compreendia a razão de tanto alarmismo. Havia mesmo um grupo de alunos aplicados e interessados em aprender.
Uma vez, em conversa com uma professora que dava aulas de Química, a Conceição Castro, e falando sobre as minhas impressões acerca dessa turma, disse-me ela:
- Olha! Se os professores se souberem impor não há problemas.
Concordei.
Até que, numa aula teórica (não havia aulas práticas) das onze ao meio-dia, a ser dada no laboratório de Física, estava eu a escrever no quadro quando começo a ouvir um tic-tac esquisito. Voltei-me e vi o ar de riso da malta. Caminhei em direcção ao ponto donde vinha o som e deparo com um metrónomo (um daqueles aparelhos que servem para marcar o compasso da música), dentro de um armário com material para experiências, a funcionar.
Desliguei-o e disse com um tom autoritário:
- Quem ligou isto quer ter a dignidade de se acusar?
Claro que ninguém o fez. Após uma pausa, concluí:
- Espero que isto não volte a acontecer!
E voltei para o quadro continuando a exposição da matéria. Quando estava de novo virado para o quadro: tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Comecei a ferver.
Fui outra vez desligar o aparelho mas, desta vez, dirigi-me a um grupo de discentes (dos mais atrevidotes) que estava sentado junto do armário:
- Só pode ter sido um de vocês! Ninguém quer assumir o acto que praticou?
Silêncio….
Voltei para a secretária, olhei para os gajos e disse com um tom de voz mais alto que o costume:
- Meus senhores. Se isto voltar a acontecer eu dou a aula por terminada. Ouviram bem? E mais! Considero toda a matéria que deveria ter sido ensinada nesta aula como efectivamente leccionada. Entendidos?
- Sim, senhor doutor – responderam timidamente poucas vozes.
Passado um pouco eis-me, de novo, voltado para o quadro, e:
tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Fiz uma pausa. Poisei o giz. Assumi um ar austero e disse:
- A aula está terminada! Podem estudar a matéria até à página 112 pois é considerada como ensinada. Muito bom dia!
Arrumei as minhas coisas e saí.
Apercebi-me que havia alguma discórdia entre os alunos. Mas fui à minha vida.
Na aula seguinte tudo correu normalmente. E assim foi até ao fim do ano.
Sem querer, tinha aplicado o velho lema dos líderes:
“Dividir para reinar”.
De facto, os alunos interessados tinham-se imposto aos outros alegando que estavam ali para aprender e passar. Era rapaziada humilde e não se podiam dar ao luxo de andar a brincar. Senão iriam trabalhar mesmo sem terem completado os estudos.

Terminadas as aulas, uma tarde encontrei-me com um numeroso grupo de alunos daquela turma. Estavam a ver as notas. Cumprimentamo-nos como normalmente mas, um dos mais irreverentes, o Pinheiro, dirigiu-se a mim e disse-me:
- Tenho de lhe dar os parabéns, senhor doutor. Foi o único professor que conseguiu dominar a nossa turma.
Confesso que fiquei um bocado inchado. Mas fora assim mesmo!
Mais tarde uns colegas disseram-me que eu cometera uma ilegalidade e que, se fosse apresentada queixa contra mim, eu estaria tramado.
Só respondi:
- Então apresentem queixa e depois veremos!

Afinal, uma turma difícil nem sempre é assim tão difícil. Depende…


publicado por António às 19:52
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Sexta-feira, 22 de Julho de 2005
O anúncio
Nos finais de 1975, eu e mais dois amigos, após alguns agradáveis bate-papos em casa do Fernando, decidimos que todas as quartas feiras nos encontraríamos depois do jantar nesse mesmo local para uma sessão de conversa. Os quatro.
O Fernando, de que já falei num texto aqui publicado em dezasseis de Maio de 2005 com o título de “traz outro amigo também”, era o anfitrião natural pois já estava casado e tinha um filho, uma casa e uma boa sala com confortáveis sofás (além das bebidas, claro). Engenheiro Civil, professor de Vias de Comunicação, de inteligência e cultura superior, era casado com a Maria João que fora nossa colega e também era de Civil.
O Vítor também já aqui foi referido. Lembram-se do jovem industrial do ”Línguas traiçoeiras” colocado à vossa disposição em cinco de Junho deste ano? Licenciado em Engenharia Electrotécnica era o mais novo e o único que não fora nunca nosso colega nem no liceu nem na universidade. Havia sido vizinho do Nando e eram amigos há alguns anos. Eu também já o conhecia. O Duarte só se relacionou com ele na casa das reuniões. Tinha também uma inteligência e cultura bem acima da média.
Finalmente, o meu amigo Duarte, o mais velho, Engenheiro Mecânico, trabalhava na empresa do Vítor e dava aulas ao nível do secundário.
O dono da casa e o industrial eram (e são) politicamente mais direitistas.
Eu e o mais velho, mais para as esquerdas.
Não fora eu me recusar peremptoriamente a jogar às cartas, provavelmente aquilo ter-se ia convertido num casino. Mas tal nunca sucedeu. Foi sempre uma tertúlia onde se conversava e discutia, às vezes com algum calor, tudo e todos.
E as reuniões semanais continuaram. Às quartas-feiras à noite, como já disse. Em alguns anos o dia da semana mudava por força dos horários nocturnos do Duarte.
Esses encontros prolongaram-se durante mais de vinte anos.
Depois o Fernando divorciou-se e passamos a fazer uns jantares mensais (que geralmente são bimensais) que ainda perduram.

Nos primórdios de 1978, já não sei como nem por quem, foi posta a questão de colocar um anúncio no jornal. Um anúncio procurando uma rapariga para namoro. A ideia surgiu por brincadeira mas, piada daqui, piada dali, todos acabamos por achar que era uma boa ideia.
- Só vamos ter uma ou duas respostas – falou um.
- Ainda nos vai aparecer um travesti – palpitou outro.
- Vão aparecer mais respostas do que vocês pensam – disse eu.
- Ainda vai haver casório no fim – gozou o Fernando.
- Ó pá, tu que és casado; não há problema? – inquiriu o sensato Duarte.
- Não! Isto é um brincadeira. E agora estou curioso de saber quantas respostas vamos ter – respondeu o anfitrião.
E passamos à acção.
A primeira coisa a fazer foi redigir o anúncio. Foi fácil.
Saiu uma coisa parecida com o que se segue:

Cavalheiro, solteiro, 30 anos e com formação

superior, procura menina ou senhora com um
máximo de 35 anos, para conhecimento mútuo
e futura relação de amizade. Guarda-se sigilo.
Resposta ao nº 123 deste jornal


Ficou combinado que o Vítor iria ao Jornal de Notícias entregar o anúncio para ser publicado no domingo. As despesas seriam divididas pelos quatro. As respostas chegariam ao JN durante a semana seguinte e na sexta-feira o nosso parceiro iria buscá-las. Quinze dias depois as cartas seriam abertas ali mesmo.
- E a tua mulher? – perguntei.
- Às quartas ela vem sempre mais tarde pelo que quando cá chegar já temos tudo visto – retorquiu o Nando.
Na quarta seguinte a única novidade trazida pelo Vítor, para além de nos dizer que tinha cumprido o combinado e de ter apresentado a conta (que logo pagamos), foi dizer que:
- Os gajos do jornal não aceitaram a nossa redacção. Tive de acrescentar que era para casamento. Caso contrário o anúncio ia para a secção das “Massagens”.
- Isso é um bocado chato – disse o Duarte.
- Bom! Está feito, está feito. Acho que com esse detalhe vamos ter mais respostas – falei.
- Vítor! Não te esqueças de na sexta ir buscar as cartas, ok? – lembrou o Nando.
E chegamos à aguardada quarta-feira.
Parecendo que o fazia de propósito, o nosso correio foi o último a chegar.
Entrou na sala com as mãos atrás das costas, um sorriso mordaz e atirou:
- Boa noite! São capazes de adivinhar quantas respostas recebemos?
- Vinte!
- Doze!
- Vinte e cinco – procurei eu adivinhar.
O sorriso do Vítor já era do tipo orelha a orelha.
- Sessenta e quatro!
E repetiu:
- Sessenta e quatro!
E atirou com uma caterva de cartas para cima da mesa.
- Foda-se! – dissemos em uníssono.
- Impressionante!
- E vamos ler isso tudo?
- Claro!
Seguiu-se a distribuição de tarefas:
- Vamos ver dezasseis cada um – sentenciou o Vítor.
- E seleccionamos as melhores – concluí eu com um sorriso malandro.
- De acordo! Ó Nando, arranja aí uma faca ou um canivete para ajudar a abrir – pediu o Duarte.
Eis que se ouve uma chave no trinco da porta do apartamento.
- É a minha mulher. Escondam isso!
Nem um minuto depois já a Maria João entrava para nos cumprimentar como fazia habitualmente.
Ainda hoje estou para perceber como, num ápice, as cartas desapareceram: debaixo de livros, de cinzeiros, de almofadas, de sofás, de carpetes, de rabos. O facto é que a patroa não deu por nada.
Pouco depois despediu-se com o habitual:
- Tenham uma boa noite. Fiquem à vontade.
Começamos o trabalho. Durante a sua execução alguém lia passagens de uma ou outra missiva. Normalmente dava para rir.
Às vezes mais apetecia chorar, tais os dramas que se conseguiam vislumbrar por trás de autênticos pedidos de ajuda. Até de emigrantes em França chegou resposta.
Acabamos seleccionando dezoito. Seis para cada um dos solteiros.
Cada um de nós contactaria as suas seis “namoradas”.
O Nando, exemplar chefe de família, não ficou com nenhuma. E disse mais:
- Acho que tirando as que vão ser contactadas, devemos dar resposta a todas as gajas que responderam. Acho que isto pode ser uma brincadeira para nós mas, para muitas delas, não o é certamente. E também temos de devolver as fotos às que as enviaram.
Concordamos.
Na quarta-feira seguinte trataríamos das respostas. O anfitrião encarregar-se-ia da logística.

E que resultou dos contactos?
O Vítor, que andava com problemas na empresa, acabou por não contactar nenhuma.
O Duarte, se bem me lembro, só contactou uma. Simpatizou com a moça e começaram a sair juntos.
Eu contactei três:

A primeira, que tinha uma linda letra e uma carta escrita sem erros e perfumada, chamava-se Susana.
Telefonei-lhe para marcar um encontro.
Ficou para o domingo seguinte, à porta de casa dela, depois do almoço.
No dia aprazado, já em pulgas (estas coisas criam alguma adrenalina), meti-me no meu 127 branco e lá fui. Estacionei, toquei à campaínha e disse ao que ía.
Passados poucos minutos apareceu-me uma mulherzinha atarracada, meio anã, feia como um bode (acho que até tinha bigode), que recusou o meu convite para entrar na viatura. “Sem nos conhecermos bem não entro no carro”. Porra! Não teria espelhos em casa? Ou seria ceguinha? Enfim: teríamos que dar uma volta a pé. Claro que a minha vontade foi fugir a toda a velocidade. Mas os meus princípios de cavalheirismo obrigaram-me a ser educado. E, contrariado e olhando para todos os lados para ver se ninguém me topava, lá fui dar a passeata com a horrorosa Susana. Azar o meu. Passado pouco tempo passo por um carro onde estava o Manel e a família. Lá os cumprimentei com um uivo e a olhar de lado e segui caminho. Mas a minha companheira era também asmática. E, ao fim de algumas centenas de metros, ao caminhar soltava um autêntico assobio dos brônquios. Façam um pequeno esforço e imaginem eu a caminhar com um aborto sibilante. Nem me quero lembrar mais disso. O passeio acabou depressa. Despedimo-nos. E a coitada ainda me perguntou se queria sair no domingo seguinte. Disse que sim; que depois telefonava. Claro que esta conquista foi logo riscada da lista!

A segunda era uma mulher fisicamente bem interessante. Saímos algumas vezes, de carro, mas só falava de astrologia. Vinha carregada de livros para me provar que aquilo era tudo verdade. E para me adivinhar o futuro. Mas, de facto, os astros que eu queria ver era na cama, não eram aquelas idiotices de Marte e Vénus e conjunções e não sei que mais. Foi de vela em dois tempos.

À terceira, a Lúcia, telefonei-lhe e marcamos encontro para um domingo. Chovia copiosamente. Entrou para o meu estimado 127 (foi o primeiro carro novo que comprei, com dinheiro ganho por mim; ainda me lembro da matrícula – PS-16-53).
A Lúcia era uma bonita e elegantíssima mulher de 31 anos. Com uns lábios carnudos e uns dentes alinhados e alvíssimos. Cabelos negro azeviche, lisos e curtos. Pele branca de princesa. Olhos como tições, levemente amendoados e feitos com riscos de timidez. Não vou dizer muito mais. Tivemos um envolvimento que durou cerca de seis meses. Um ano depois eu casava com a minha actual mulher.
Mas, tenho de vos confessar, ela foi um caso lindo na minha vida.
Já estavam a perceber, não estavam?

Não vou entrar em mais pormenores.
Estabeleci a mim próprio limites para o que poderia escrever destas histórias verdadeiras. E nesta cheguei ao limite. Embora não tenha chegado ao fim.


publicado por António às 18:35
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Terça-feira, 19 de Julho de 2005
Sonhos e realidade
Lembro-me de ter ouvido o meu professor de Filosofia do antigo sexto ano dos liceus, o já falecido Dr. Castanho Fortes, nas aulas de Psicologia dizer:
“Todas as noites, enquanto dormimos, nós sonhamos. Mas, passados ao estado de vigília, muito poucas vezes nos recordamos do que ocorreu nesse complexo processo de erupção do subconsciente e mesmo do inconsciente”.
Não sei se as teorias de então ainda são as de agora. Provavelmente não. Mas não é essa discussão científica que quero suscitar, embora quem se quiser pronunciar sobre ela o possa fazer. É até bom que o faça para aprendermos mais alguma coisa.

Vou, em vez disso, e para que este seja um texto levezinho, contar-vos um sonho que tive e que se confundiu com a realidade.
Penso que teria uns vinte e tal anos. Já tinha acabado o curso e a nota mais baixa que tivera fora um dez (só um, vejam como era um rapazinho aplicado e dotado) a Física Geral, depois de uma oral em que o Prof. Pires de Carvalho, que também já mora na outra banda, no seu estilo sibilino, me deu um baile. Mas passou-me!
Uma manhã, acordei lembrando-me perfeitamente do sonho que tivera. Coisa rara, aliás. Durante o sono, tinha recebido uma notificação da secretaria da Universidade a informar-me que não me podiam passar a certidão de curso pois ainda tinha de fazer uma cadeira em falta: a Física Geral. Não dei nenhuma importância ao assunto.
Mas a impressão fora tão forte que, durante todo o dia, a ideia de que, na realidade, tinha chumbado a essa disciplina e tinha de a repetir anos depois de a julgar morta e enterrada, atormentou-me.
Quando regressei a casa, e sem mais delongas, fui procurar a certidão: e ela lá estava.
Que alívio!

Mas, desta mistura de sonho e realidade, tenho outro exemplo pessoal.
Hesitei em escrevê-lo aqui mas, como tenho uma lata do caraças, cá vai:
Uma noite sonhei que estava na rua, conversando com uma linda moçoila, já a noite tinha tombado.
Eis que surge do negrume um salteador, rosto escondido pela escuridão. Um candeeiro de iluminação pública era a única e ténue fonte de luz. E eu, fazendo alarde de uma capacidade que, na realidade, não possuo, quando o crápula se aproximou o suficiente, saltei na sua direcção e dei-lhe um murro. Mas o facínora reagiu e seguiu-se uma luta corpo a corpo em que a vantagem ia alternando em favor de um ou outro dos contendores. E a luta durou, e durou...
Eis que, a certa altura, senti uma enorme vontade de urinar e disse ao meu adversário.
- Alto! Vamos fazer uma trégua pois tenho que mijar.
O outro anuiu. Dirigi-me ao lampião e comecei a aliviar a forte pressão que sentia na bexiga. Como sabe tão bem um relaxe deste género!...
Acordei nesse momento.
Senti uma quente humidade nas calças do pijama.
Pois. Foi isso mesmo. Tinha-me mijado a sério.
Nunca um sonho húmido foi tão hilariante.

Casos destes já aconteceram com alguns de vós, certamente.
Mas alguém consegue contá-lo aqui?
 
 
Nota: Posteriormente, em 18 de Janeiro de 2006, recebi um e-mail de um filho do Dr. Castanho Fortes dizendo-me que o pai ainda era vivo e gozava de boa saúde em Cascais, onde vivia. Ainda bem!


publicado por António às 14:43
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Domingo, 17 de Julho de 2005
Cena de caça no Bambangando
Vem esta narrativa na sequência de outras duas que já estão colocadas neste blog:
“Sobrevoando a savana” e “O cortador de carnes verdes”, postadas respectivamente ao primeiro e ao décimo oitavo dias do mês de Junho deste ano de 2005.
A acção decorre nessa terra do fim do mundo, o Rivungo, onde eu era o comandante do Destacamento de Marinha do Cuando, composto por mais doze marinheiros de água doce que, bem longe do mar, navegavam no estertor da guerra colonial, nos finais de 1974.
A minha ida para lá fora motivada pelo mês de férias do comandante efectivo. Quando pedi para me dizerem quando regressava ao seu lugar o meu colega, o Comando Naval de Angola respondeu-me que já não ia. E que eu podia desactivar a unidade e ir embora com o pessoal e o material que fosse transportável por camião sobre picada. Devido a várias vicissitudes, ainda lá fiquei outro mês.
E mesmo este pequeno período de oito semanas foi suficiente para ficar meio apanhado da mona.

Como já anteriormente referi, a comida que recebíamos semanalmente só chegava para alimentar aqueles jovens esfomeados durante quatro dias. Para suprir as carências para o resto da semana, ia-se caçar.
Para transporte usava-se um dos jipes, na parte mais recuada do qual foi soldada uma estrutura em ferro, mais elevada, configurando um banco de três lugares devidamente almofadados para proteger os rabinhos.
Como arma, as metralhadoras G3.
Havia dois homens que eram habituais nas caçadas: O cabo José Castro e o artilheiro João Correia. O primeiro como condutor da viatura e o segundo como atirador.
Este era o homem mais antigo no Destacamento. Marinheiro de artilharia, estatura média, magro, loiro, fumador inveterado e com os dentes estragados apesar da sua juventude, depois de dois anos de comissão no Rivungo pediu para lá continuar pelo que já ia no terceiro ou quarto. Era o mais respeitado pelos outros, depois dos graduados. Estava sempre a trabalhar e era pau para toda a colher. Vivia numa cubata com a indígena mais rica da localidade, pois o pai era o dono da única loja existente. Vendia de tudo. Um verdadeiro supermercado, à escala da terrinha, claro. E a filha era a negra mais bem vestida das redondezas pois o papá lhe facultava os melhores e mais berrantes panos para confeccionar a roupa. O Correia tinha-lhe verdadeiro amor. Era o único que cumpria horário, pois fora das horas de serviço ia para sua casa e dedicava-se inteiramente à mulher e, entre outras coisas, ensinava-a a ler, escrever e contar. Tinha o comportamento de um verdadeiro marido e chefe de família embora não tivessem filhos. E, quando retiramos definitivamente aquelas paragens, foi pungente vê-los a chorar que nem crianças pois ambos sabiam que nunca mais se encontrariam. Amor lindo!
Além dos dois, normalmente iam mais três homens para as caçadas semanais que eram em locais relativamente perto e demoravam pouco tempo graças à pontaria do Correia.
Apanhavam caça ligeira, normalmente coelhos, ao início da noite, usando a técnica do encandeamento dos animais por um potente holofote. Chamavam-lhe “farolinar”. E bicho parado era bicho morto.
De vez em quando, fazia-se uma caçada mais longe para apanhar caça mais grossa.
Foi precisamente para eu poder tomar parte numa dessas caçadas, que se combinou para determinado dia uma ida à zona de Bambangando (o nome foi-me transmitido oralmente, nunca o vi escrito pelo que, se não for exactamente assim, espero ser perdoado).
Além de mim, do cabo Zé, e do João, iria o Nunes, grumete de tronco largo e musculado, barba rara e um bigodinho ridículo, que trabalhava bastante na confecção dos alimentos e tomava conta da bicharada doméstica do destacamento. Incluía um pequeno jacaré, cães, um macaquinho e umas cobritas.
Como a zona para onde íamos era afastada o suficiente para nos perdermos (mas nela havia abundância de animais de carne saborosa), ia connosco um nativo para servir de guia. Também levávamos machados para dar início à amanha das bestas abatidas.
E assim, bem cedo, numa manhã soalheira de finais de Outubro (não esqueçam que o Rivungo fica no hemisfério sul), estávamos prontos para uma aventura completamente inédita para mim.
Quando perguntei se o material de comunicações estava na viatura, disseram-me que não costumavam levar:
- Mas isso muda já hoje! – disse eu, e ordenei ao homem das comunicações, o Neto, que preparasse um transmissor-receptor para ir connosco. E também combinei com ele que de duas em duas horas nós comunicaríamos em determinada frequência. Se não recebesse nada, deveria tentar contactar-nos.
O lanche não tinha, naturalmente, sido esquecido. E muito menos a água. Íamos para uma zona mais afastada do rio e, portanto, mais quente. A savana pura!
Toda a malta do destacamento se veio despedir de nós. Fiz duas ou três recomendações ao sargento Gomes que assumia, interinamente, o comando da unidade.
E lá partimos à aventura.
Tudo corria bem. Eu estava entusiasmado e ia tirando umas fotos. Parámos ainda em duas pequenas povoações para descansar os cuzinhos dos solavancos. A certa altura, já o sol ia alto (acho que os relógios marcavam entre as dez e as dez e meia), o Correia disse:
- Sr. Zé! Pare o jipe e o motor!
E logo após os meus tímpanos vibraram com um tiro e, alguns segundos depois, com outro.
- Acho que matei um javali! – disse o João.
O cabo arrancou e fomos na direcção indicada pelo atirador.
- Está ali! – disse o Nunes.
E estava, de facto, um animal caído. Ainda mexia. O guia pegou num machado e deu-lhe o golpe de misericórdia.
- Lá vou eu comer carninha de javali! – falei para os meus botões.
Após algum tempo de descanso sob umas árvores, pois o calor já era fortíssimo, arrancamos para tentar apanhar mais uma peça.
Diga-se que, nestas caçadas maiores, distribuíamos parte da colheita por alguns (no total eram muito poucos) brancos de outros aldeamentos que os meus homens conheciam. E, chegados ao Rivungo, também vários eram os contemplados. Mas a recíproca também era verdadeira.
Com o jeep novamente a galgar terreno sob um sol cada vez mais forte, nova situação de tiro se propiciou mas, desta vez, falhamos.
No entanto, pouco depois, um disparo certeiro do artilheiro atingiu um caixote. Foi naquelas paragens que ouvi falar pela primeira vez naquele nome. Depois de morto e de o observar, pareceu-me uma espécie de antílope, mais corpulento.
E ainda caçamos um segundo javali.
- Vamos apanhar mais um e depois regressamos – disse o cabo Zé.
Seria perto da uma hora. Sol a pique, novo caixote à vista correndo veloz, pé a fundo no acelerador, um grande solavanco, um estrondo, um jipe parado, um motor fumegante.
O bloco estava partido. Não poderíamos sair dali sem ajuda de outros.
- Vamos puxar o carro para aquela zona com árvores. Aqui não aguentamos o sol e o calor – disse o cabo.
- Depois comunicamos com o Neto. A próxima hora prevista é às duas. Mas pode ser que ele esteja por perto e nos escute – disse eu.
E todos em cuecas ou calção de banho puxamos, com uma forte corda que fazia parte da carga habitual, o jipe para uma zona de sombra. Foram pouco menos de duzentos metros.
Reparámos, então, que no meio da vegetação havia uma grande chana. Também foi lá que ouvi pela primeira vez falar nesta palavra. É um charco, maior ou menor, de águas quasi estagnadas, onde os animais vão beber.
Mas estávamos a coberto dos raios solares. E isso era muito importante.
Ainda antes de comer a merenda contactamos o Destacamento. Ninguém respondeu. Deviam estar a almoçar.
Começamos a refeição mas, quando eram duas horas, ouvi a voz do nosso telegrafista depois de o ter chamado.
Contei o que tinha acontecido, indiquei o local onde estávamos (o guia foi precioso para esta informação) e demos instruções sobre quem deveria ser contactado para nos vir buscar. Era um dos brancos que vivia numa das terrinhas por onde passáramos e que tinha um camião.
E fomos esperando.
Duas, três, quatro, cinco horas da tarde.
A água acabou. A sede era imensa. Só havia uma solução: beber daquela água da chana, apesar de estar cheia de bichinhos lá dentro e uns mosquitos enormes caminhando sobre ela.
- O que não mata, engorda! – sentenciei.
E enchemos os jerricans filtrando a água com um lenço. Até hoje não tive qualquer problema por ter bebido daquele líquido certamente inquinado. Os organismos mais jovens tem boas defesas mas, apesar de tudo, tivemos sorte.
E a espera continuou.
Seis, sete, oito, nove horas. Noite.
Os contactos com o Neto foram frequentes.
Já perto das dez, iluminados por uma fogueira que além de clarear poderia servir para afugentar algum animal menos desejado, ouvimos o ruído de um motor. Pouco depois vimos a luz de faróis. Finalmente salvos!
O jipe foi carregado para cima do camião e após algum tempo de viagem chegamos ao primeiro dos povoados.
Saciamo-nos com água fresquinha. E cerveja.
Entretanto, alguém notou que os animais mortos já estavam a deitar mau cheiro. Como ainda faltava algum tempo para chegarmos ao destino, decidimos deixá-los ali mesmo para depois serem enterrados. Lá se foi o resultado da grande caçada. E a carninha de javali...que chatice!
Chegados ao Rivungo e feitas as despedidas dos nossos salvadores, contamos a aventura rapidamente. A fadiga era muita. Fomos tomar banho e dormir.
No dia seguinte, a narrativa foi calmamente detalhada.
E disse ao Neto:
- Ora vês a importância de se ter um meio de comunicar e saber quando ele pode fazer falta?
- Tem razão, Sr. Tenente – anuiu, abanando simultaneamente a cabeça em sinal de aprovação.
O Neto era um tipo baixote, cabelo grande e muito encaracolado, um patusco bigodinho. Era considerado meio tolo pelos outros. Mas era bom como técnico de comunicações.
Um dia, mais tarde, fui encontrá-lo na sua minúscula cabine aninhado, calções em baixo, e o pirilau metido dentro de uma tigela com um líquido aquoso.
- Que se passa, pá? – perguntei.
Embaraçado, confessou-me que ele e o Xana, um dos grumetes mais mandriões do grupo, e que era fumador de liamba, segundo me disseram, depois de tanto ouvirem dizer que se fossem circuncisados teriam muito mais prazer nas relações sexuais, haviam recorrido ao serviço de um dos dois enfermeiros negros e beberrões da povoação que, com uma lâmina de barbear, lhes tinha cortado o prepúcio.
Resultado: uma infecção em cada um deles e cura demorada, pois a medicação existente não era a mais adequada.
Daí o demolhar do membro viril (que, naquela fase, não o devia ser muito) numa solução de borato de sódio.

De facto, muitas vezes aquilo parecia mais um manicómio que um quartel militar (mesmo em miniatura).
Mas, a mais interessante, enriquecedora e louca experiência ainda estava para acontecer.
Um dia virá aqui poisar. Até já tem título:
“Diplomacia no Rivungo”


publicado por António às 14:34
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2005
Em Las Palmas
Tendo terminado os meus estudos em Outubro de 1972, tinha por objectivo prioritário cumprir o serviço militar para depois encetar uma carreira profissional.
Estava a fazer o estágio obrigatório de três meses (e ao mesmo tempo a tentar ganhar umas coroas vendendo uns apartamentos do Algarve - como não vendi nenhum, não ganhei nada -), quando fui informado de que estavam a iniciar-se os exames do concurso para oficiais da Reserva Naval, que era o curso de oficiais milicianos da Armada.
Sabia que era uma das melhores maneiras de fazer a tropa. Éramos alojados na Escola Naval, no Alfeite (juntamente com os cadetes que durante quatro anos faziam a preparação para uma carreira na Marinha de Guerra), e tratados como gente fina. Empregadas para fazer as camas e arrumar os quartos, refeições magníficas com dois pratos, ao almoço de quinta-feira havia direito a um cálice de Porto e a um bolo. Enfim, tudo do bom e do melhor!
Pelo que estou a dizer, já adivinharam que de facto, em Fevereiro, mesmo à justa com o fim do tal estágio, fui para a conhecida Escola sita na margem esquerda do Tejo para cumprir seis meses de formação.
Ainda passei um mês em Vila Franca de Xira, no Grupo 1 de Escolas da Armada. Aí não tínhamos alojamento suficiente e com o mínimo de qualidade e resolvi alugar um quartinho cá fora. Pago pelo papá, pois claro!
No fim desse meio ano (de bastante estudo, diga-se de passagem), iniciamos uma viagem de instrução, que durou cerca de três semanas, na fragata Roberto Ivens. Éramos quarenta cadetes.
A viagem decorreu em Agosto e a primeira etapa foi uma ida à bela Ilha de S. Miguel, nos Açores.
Depois fomos até Mindelo, na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde.
E regressamos por Las Palmas, na Gran Canaria.

Vou ater-me ao que se passou em Las Palmas.
Atracamos ao fim da tarde. A previsão era ficarmos ali duas noites e um dia.
Logo que tivemos autorização fomos para terra. Todos com a alva farda de Verão (a de Inverno é azul-marinho e muito mais bonita; com a outra parecemos uns sorveteiros), saímos como se fossemos um bando de pombos e depois fomo-nos dividindo progressivamente em grupos cada vez menores.
Acabei por ficar só com o Ferreira. Este colega era ainda mais pequenino e mais feio do que eu e caminhava meio encurvado.
Comemos qualquer coisa e depois demos umas voltas pelas animadas ruas desta cidade que, como é sabido, vive do turismo. Mas o facto de andar vestido segundo os cânones militares era bastante inibidor.
Não sendo oficiais de carreira, aquilo era, para nós, um fardo, bem mais que uma farda.
A certa altura vimos que, num dos muitos bares e casas de diversão nocturnas que por lá havia, entrava um grupo de quatro raparigas muito bonitas e boazonas.
- Ora vamos lá entrar aqui para ver o ambiente. Mas cheira-me que é coisa que vale a pena! – disse o habitual promotor destas visitas nocturnas, ou seja, eu.
Entramos. A luminosidade era tão escassa que durante muitos segundos estivemos a aguardar que os olhos se habituassem ao escuro. Um elegante e altíssimo empregado veio ter connosco e convidou-nos a sentar numa poltrona com uma mesa junto. Pedimos uma cerveja cada um. Bem fresca.
Conforme íamos vendo melhor todo o requintado ambiente, mais a nossa curiosidade ia sendo desperta. As mesas ocupadas, não muitas, eram-no por mulheres. Umas mais novas, outras já quarentonas avançadas. Esquisito. Não havia homens como clientes. Entretanto foram entrando também alguns sujeitos, vestidos de fato de corte impecável, altos e magros, verdadeiros modelos ou galãs de Hollywood. Ficavam em pé mas, de quando em quando, um ou outro ia para as mesas das clientes.
De repente, um deles saiu com uma das veraneantes. Pouco depois outro saiu com duas.
Bom! Aquilo era uma casa de ataque invertida. Um refinado prostíbulo para damas.
Estava bem claro no nosso espírito que tínhamos entrado no local errado.
Mas…e se tentássemos a nossa sorte?
Pois logo entrou um grupo de cinco ou seis clientes que, por mero acaso, se sentaram muito perto de nós. Passados alguns minutos, começamos a meter conversa. Mas não tínhamos outra resposta que uma olhadela para a nossa triste figura. E depois vinham os gigolos e as meninas eram só sorrisos.
Pouco depois viemos embora. A ferida no orgulho de machos latinos era tão profunda que fomos para o navio dormir.
Decididamente, não nasci para prostituto!

No dia seguinte, acordei bem cedo.
Feita a higiene habitual, peguei num saco e fui sozinho para a praia. Pouco passava das oito da manhã. O areal, enorme, estava deserto. Pude olhar para a ilha e constatar que era de uma aridez confrangedora. Tudo aquilo é artificial. Beleza natural: zero!
Estendi-me e rapidamente adormeci (devia estar ainda em convalescença da profunda ferida sofrida na noite anterior).
Quando acordei, seriam umas onze horas, só via pessoas à minha volta. Areia, mais nenhuma para além da que estava junto a mim. Vesti-me (desta vez uma roupinha normal que tinha trazido no saco de praia) e só com muita perícia vim para a marginal sem ter pisado ninguém.
Deambulei pelas ruas até encontrar um grupo de camaradas. Alguns também vinham vestidos normalmente. Atrelei-me a eles.
Almoçamos e depois fomos fazer umas compras.
Numa das lojas, uma boutique, uma senhora de fino porte fez questão de nos apresentar a sua filha Juanita pois ela gostava muito de marinheiros, tendo alguns de nós cumprimentado a jovem com um beijinho (e eu fui um deles). Só que, de perto, podia verificar-se que a donzela tinha barba e, quando proferiu umas amistosas palavras, a voz era bem mais grave do que se poderia esperar. Era um travesti! Confesso que lamentei a mãe, que tinha de fazer um papel que, certamente, lhe seria penoso. Mas filho é filho, não é?

E nada mais digno de registo, pelo menos que eu me lembre, se passou.
As ocorrências não tinham sido das mais agradáveis.
Foi regressar a bordo, retomar a vida normal, dormir e, na manhã seguinte, rumar às Ilhas Selvagens onde um pequeno grupo de tripulantes foi até aos rochedos em missão de soberania. Parece ser um protocolo a cumprir para manter aquele pequeníssimo território, desabitado, como património português.
E depois regressar ao Alfeite para iniciar umas merecidas férias. Sim, férias! Porque isto de andar no mar alto, com o navio sempre a baloiçar, ora levanta a proa ora a popa, ora inclina para estibordo ora para bombordo, é cansativo.
Juro!
Mas também é porreiro!


publicado por António às 14:12
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Sábado, 9 de Julho de 2005
Lutador anti-fascista
Ano de 1969.
A crise académica desencadeou-se em Coimbra aquando da visita do então Presidente da República, Américo Thomaz.
Na sessão de inauguração de um novo edifício, salvo erro ligado às Matemáticas (mas haverá muita gente que conhece melhor esta peripécia do que eu e pode corrigir-me), o presidente da Associação Académica e actual deputado Alberto Martins pretendeu usar da palavra como representante dos estudantes. Tal foi-lhe negado.
Quando os participantes na cerimónia saíram para o exterior, um muito numeroso grupo de estudantes insultou o Thomaz (chamando-lhe, em bem sonoro e afinado coro, de palhaço) e outras altas individualidades como o então ministro da Educação, o bem conhecido Hermano José Saraiva.
Daí para a frente, foi um processo tumultuoso que teve o seu zénite na greve aos exames da Academia coimbrã.
Mas o movimento alastrou a Lisboa e ao Porto que eram, ao tempo, as únicas cidades com ensino superior (se já havia em Évora, peço desculpa, mas teria ainda muito pouca gente).

No Porto, eu frequentava o 2º ano que era também o segundo dos chamados preparatórios e que eram leccionados na Faculdade de Ciências. Só depois faria os dois últimos anos, na Faculdade de Engenharia, à rua dos Bragas.
E, embora longe do vigor contestatário da cidade do Mondego, foram-se fazendo uns comícios (só depois da revolução é que percebi que o Partido Comunista, e não só, já estavam por trás das movimentações).
Estes realizavam-se sobretudo no átrio interior da entrada da Faculdade de Ciências.
A frontaria do vetusto e bonito edifício estava (e ainda está) voltada para o largo dos Leões (oficialmente é a praça de Gomes Teixeira), com o seu grupo escultórico no meio do lago e os tapetes de relva bem verdinha.
Entrando pela larga e pesada porta de ferro e vidro, podíamos ver o átrio e, ao fundo, duas escadarias largas, em pedra, que conduziam ao andar superior. Entre ambas existia um espaço ocupado por uma secretária.
Pouco visíveis da entrada e muito perto das escadas, nasciam lateralmente dois corredores mal iluminados que davam para a zona da Química, um deles, e para a da Mineralogia e Geologia, o outro.
Pois era nessas escadarias que, quasi todos os dias, havia uns quantos colegas mais activos politicamente que faziam as suas intervenções oratórias de mal dizer do regime, do governo, da guerra colonial, da falta de liberdade e democracia e de tantas coisas a que o salazarismo-marcelismo fornecia múltiplos argumentos.
E o maralhal quando lá passava ficava a ouvir durante algum tempo, aplaudindo as passagens mais empolgantes. E depois ia à vidinha.
Mas não eram só os anti-fascistas quem tinha voz.
O Zé Gordo, um tipo anafado de óculos verdes, graduado da Mocidade Portuguesa e defensor assumido e convicto do regime, também falava para uma plateia onde tinha alguns (poucos) apaniguados e muitos mais mirones. Quando era aplaudido pelos colegas situacionistas, logo os apupos se ouviam bem mais alto e, alguns democratas ainda pouco esclarecidos, mandavam-no calar ou ir para a rua.
Confesso que admirava a coragem do sujeito.

E chegamos ao dia D.
Melhor, dia P, pois estava convocado um plenário para discutir qualquer coisa que já não sei o que era.
O átrio estava prenhe de malta. Rapazes e raparigas, naturalmente. Nas escadas de pedra postavam-se os activistas da luta anti-fascista, agora já reconhecidos por todos.
Eu estava mais ou menos a meio com o meu colega e amigo Fernando.
A sessão começou às três da tarde.
Discursos, aplausos, apupos quando se falava no Marcelo, no Thomaz ou no regime e, a certa altura, ouviu-se uma voz a dizer.
- A polícia de choque chegou!
- Ninguém arreda pé! – disse um dos líderes.
E o plenário continuou como se o alerta não tivesse sido ouvido.
Sinceramente, não me pareceu que houvesse alguma intervenção policial, pois tudo decorria com bastante calma.
Pelo sim pelo não, fui magicando na táctica a seguir.
Sair dali era uma vergonha. E eu também era do reviralho, que diabo. E não era nenhum cobardola. Havia que enfrentar a situação de frente mas com inteligência.
E que decidi fazer?
Partindo do princípio que os agentes não eram muito dotados intelectualmente e que, pensava eu, batiam no que mexia, o melhor seria estar quieto. Melhor ainda: poderia dar-me uns ares de informador da PIDE, fazendo uma cara de quem está a apreciar o comportamento de uns e outros. E olhar sempre os monos nos olhos.
Passados uns bons dez minutos, e vindos dos dois corredores que atrás referi, irromperam a correr pelo átrio uma boa quantidade de agentes com cassetetes no ar e capacetes na cabeça. Ainda não se usavam os escudos de plástico transparente.
O pânico foi geral. As meninas, como é habitual nestas coisas, começaram com os gritos mais ou menos histéricos.
Como não entrara polícia pela porta principal, foi por ela que os estudantes começaram a sair.
Mas eu mantive a minha táctica. Curiosamente, o Fernando procedeu exactamente da mesma maneira sem combinarmos nada. Só quando a zona estava quasi vazia é que ele me fez um sinal para sairmos,
Ninguém nos tocou!
Nos relvados do largo estavam imensos contestatários, sentados ou em pé, a insultar os polícias. Dirigimo-nos calma e firmemente para a porta onde já estavam a juntar-se os invasores.
Mal pus um pé na rua. Pumba! Apanhei com um pedaço de relva, com as raízes cheias de terra, em cheio na cara. Era dirigido aos monos mas eu é que apanhei com o torrão nas trombas.
Porra! Então a polícia não me agrediu e foram os anti-fascistas a fazê-lo?
Fiquei pior que estragado!
Mas compreendi e perdoei de imediato! Solidariedade académica e anti-fascista acima de tudo.
Entretanto, eu e o Fernando dirigimo-nos para o passeio onde ficam as igrejas do Carmo e das Carmelitas, com o intuito de chegarmos ao bar de Letras onde a malta mais amiga se juntava diariamente.
Eis que olho para trás e vejo um mono a correr atrás de nós com gestos ameaçadores.
Toca a aplicar a mesma dose. Paramos, olhamos o homem bem de frente com cara de poucos amigos, e não é que ele dá meia volta e manda uma cassetetada numa velhinha que ia a correr?
A tese foi completamente confirmada pela experiência.
Chegados ao bar, contamos as ocorrências com um acento triunfal.
E havia razões para isso.

E assim começou e acabou a minha actividade como anti-fascista!
Ou será que qualquer dia me lembro de outra acção heróica que, quem sabe, me torne credor de uma daquelas medalhas que o Presidente da República distribui no 10 de Junho?


publicado por António às 18:16
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2005
O fármaco milagroso
Já lá vão uns anitos!
Em determinada fase da minha vida, e por razões que nunca cheguei a descortinar com rigor, andava tristonho, chateado, psicologicamente em baixo e com alguns sintomas somáticos que me alertaram.
E, como nestas coisas não sou peco, decidi ir a um psiquiatra.
Profissional já experimentado, não lhe foi difícil fazer o diagnóstico: eu estava com uma depressão.
Nada de grave, felizmente. Nestas e noutras doenças, quanto mais depressa formos a um médico e começarmos o tratamento maior é a probabilidade de cura ou cura rápida.
Receitou-me uns fármacos, disse como os deveria tomar e fez-me um aviso particular em relação a um deles:
- Este medicamento tem um efeito secundário para o qual eu o devo alertar. Inibe a ejaculação. Portanto, aconselho-o a avisar a sua esposa. Não vá ela pensar que anda a depositar o seu sémen noutros recipientes – e fez um sorriso bem largo.
- E posso continuar a trabalhar? – perguntei.
- Com certeza. Deve é abster-se de beber álcool.
Finalmente, mandou-me marcar nova consulta para daí a um ou dois meses.
Chegado a casa, relatei o ocorrido à minha mulher dando especial relevo ao tal efeito colateral do medicamento.
Sem entrar em pormenores, pois este não é um blog erótico (quando tiver um, eu aviso), o facto é que quando tinha relações sexuais eu bem me esmerava no sentido de tentar provar a mim mesmo que afinal era mais potente que o medicamento. Essas coisas também ajudam a curar depressões, mas...nada!
A coisa demorava um tempo infinito, eu transpirava de tanta ginástica fazer, às vezes parecia que ía acontecer, mas...sempre nada!
Até que, exausto e ofegante, às vezes o falo ainda acordado (relembro que foi há uns anitos), meio lixado também, preparava-me para uma soneca retemperadora.
A minha mulher é que não desgostava do medicamento, como devem calcular!
Acho que uma vez (ah, valentão!) consegui uma ejaculação mínima, mas serviu para me aumentar a auto estima.
Entretanto a medicação revelava-se eficaz e, quando fui novamente ao clínico, ele fez uma redução das dosagens.
E perguntou-me:
- Notou o efeito secundário de que lhe tinha falado?
- E de que maneira, senhor doutor! – respondi
- Sabe que esse medicamento pode também ser usado, em doses menores evidentemente, para combater um problema que é bem mais comum do que aquilo que se pensa: a ejaculação precoce – informou o doutor.
- Acredito! Acredito! – disse, soltando uma gargalhada
- Olhe! Vou-lhe contar um caso que se passou com um cliente meu, aliás uma figura pública mas cujo nome, como compreenderá, não lhe direi.
E continuou a psiquiatra:
- Uma vez apareceu aqui o tal sujeito com um problema depressivo. Um dos medicamentos que lhe receitei foi exactamente este. Quando veio cá a uma consulta de controlo, eu disse-lhe que iria deixar de tomar este remédio.
“Não, senhor doutor! A minha mulher não deixa!” respondeu-me ele. Parece que ela nunca tinha atingido nenhum orgasmo e graças a este medicamento milagroso agora conseguiu portanto não quer voltar à situação anterior.
E concluiu:
- De facto ele sofria de ejaculação precoce e como este medicamento pode ser usado para colmatar essa característica pouco interessante, eu continuei a receitar-lhe o produto, mas só na dosagem indicada para contrariar esse problema que o senhor tinha.
Depois de mais alguma conversa, despedimo-nos e sai.
E pouco tempo depois estava completamente curado.

Os eventuais interessados escusam de me perguntar o nome do medicamento milagroso pois já me esqueci completamente.


publicado por António às 14:52
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Domingo, 3 de Julho de 2005
Uma noite em Londres
Em 1972 resolvi ir passar as férias num campo de trabalhos na Inglaterra.
Já tinha vinte e três anos e nunca tivera uma experiência do género.
Como iria ganhar dinheiro, com esses proventos pagaria as despesas que teria de fazer.
Naturalmente dei conta da minha intenção a meu pai e minha mãe, sendo que o primeiro se prontificou a pagar as viagens de avião, a meu pedido.
Tratei do assunto através de um organismo da Universidade de Lisboa cujo nome não lembro.
O período de labuta seria de vinte e dois dias, em Agosto, no Friday Bridge Agricultural Camp, perto da cidadezinha de Wisbech, no Cambridgeshire, uns duzentos quilómetros para norte de Londres.
Como é meu péssimo hábito (e ainda por cima empurrado por minha mãe que queria que levasse mais coisas, não fossem elas necessárias), arrumei um montão de tralhas numa mala enorme cujo peso aguentava com alguma dificuldade.
Para obstar a qualquer inusitada falta de dinheiro, que eu considerava pouco provável pois ia determinado a trabalhar o que fosse preciso para ter fundos suficientes que me garantissem o essencial e algumas coisas acessórias, o meu pai emprestou-me nove contos. Assim, ele ficava mais sossegado. E eu também.
Embarquei no aeroporto de Pedras Rubras para um voo directo a Heathrow.
Ao fim de duas horas cheguei.
Ao sair do avião vi uma senhora que era professora de inglês no Alexandre Herculano, liceu que frequentara. Era a famosa e solteirona Carolina, de quem nunca havia sido aluno, mas cuja fama de severidade era sobejamente conhecida nessa escola. Era mesmo célebre por bater com os grossos dicionários na cabeça dos alunos quando estes não respondiam a preceito às suas perguntas.
Imediatamente me ocorreu que, atrelando-me a ela, teria a vida facilitada. E logo a abordei. Acabou por se mostrar uma pessoa muito simpática que, segundo me disse, todos os anos ia a Inglaterra para não perder o contacto com a língua inglesa.
Apanhamos o autocarro para o centro de Londres onde ela se transferiria para outro transporte que a levaria a um lar de freiras onde ficaria alojada. Eu iria, no metro, para um hotelzinho em Earl’s Court cujo nome me fora fornecido pela tal organização de Lisboa onde tratara dos assuntos.
E assim aconteceu (pelo menos comigo; com a doutora não sei).
O hotel era de qualidade abaixo do aceitável mas, pela numerosa clientela que se apinhava na sua entrada, tudo malta muito jovem e não britânica, achei que estava no sítio mais adequado.
Quando, depois de uma espera de largos minutos, chegou a minha vez de fazer a marcação do alojamento, a inglesa que nos recepcionava, bastante mal encarada, mal penteada, nariguda e com os dentes podres, perguntou:
- Single or sharing?
E disse os preços respectivos.
Como ia na desportiva, respondi:
- Sharing, please.
Decidi, portanto, partilhar o quarto com alguns outros visitantes da capital do Reino Unido.
Paguei e dirigi-me ao quarto indicado. Sem chave. Como aquilo era muita malta, a gerência não autorizava que os clientes do sharing usassem esse instrumento que sempre me parecera fundamental, quanto mais não fosse, por razões de segurança.
Mas, como diz o provérbio, em Roma sê romano.
Seriam umas quatro da tarde. O tempo estava bonito, com sol. E pude ver que o enorme quarto que me fora destinado tinha nove camas com roupa lavada, uns quantos guarda-fatos e um lavatório com uma torneira. Nem sabão, nem toalhas, mais nada. Mas, pensando bem, se eu ia para um campo de trabalhos, qual proletário, tinha de começar a habituar-me a algumas incomodidades.
É assim que se fazem os homens, cogitei.
Reparei que algumas camas já tinham sobre elas malas ou sacos. Sinal de que tinham sido “reservadas” por alguém. Fiz o mesmo. Coloquei a bagagem sobre o leito que me pareceu melhor posicionado e fui conhecer a mundana cidade de Londres.
Apanhei o metro para Piccadilly Circus e depois fiz a pé o circuito Regent Street, Oxford Street, Charing Cross Road, Shaftesbury Street com regresso à praça donde partira. Pelo caminho, ainda vi um espectáculo com golfinhos e pude apreciar quão cosmopolita era, de facto, Londres. Havia gente de todas as cores, raças, nacionalidades, enfim…um mundo.
Já era noite quando me meti no Soho onde visitei a que era, na época, a rua mais popular da Grã-Bretanha: Carnaby Street. Jantei e depois andei a visitar umas casas de espectáculos, todas de muito mau gosto qualquer que fosse a perspectiva pela qual fossem analisadas (ai Paris, Paris…).
Só pouco antes da meia-noite apanhei o metro (o último, segundo me disseram) para regressar ao hotel (chamo-lhe assim porque não me ocorre um termo mais adequado; espelunca seria excessivo).
Subi as escadas. A porta do quarto estava entreaberta e a luz apagada. Acendi-a. Logo ouvi uns urros que não entendi, ou melhor, entendi perfeitamente que significavam: Apaga a luz! Fi-lo imediatamente, mas o pequeno intervalo com o compartimento iluminado foi suficiente para ficar assustado.
As camas já estavam quasi todas ocupadas. E, de sob os lençóis, emergiam abundantes adornos capilares. Toda a cena me fez lembrar as casernas de trabalhadores de minas que vira num ou dois filmes.
Mantive a porta aberta para que a luz do corredor iluminasse um pouco o local onde deveria estar a minha mala. Mas que raio! A minha cama já estava ocupada! Pé ante pé fui caminhando o mais silenciosamente possível, procurando a bagagem. Finalmente vi-a arrumada a um canto.
E cama? Acomodei-me numa que estava sem “marcação” e ficava perto da porta.
Com a máxima cautela lavei as mãos e a cara e limpei-as ao lençol para não abrir a mala. A higiene dental limitou-se a um gargarejo. E, sorrateiramente, encafuei-me sob a roupa só com as cuecas vestidas.
Estava o sono a chegar quando entrou outro retardatário. Acendeu a luz e…bom, desta vez vinguei-me e também disse um palavrão qualquer em português.
O pior é que, quando o sujeito foi fazer as suas lavagens, como a minha cama de recurso ficava mesmo ao lado do lavatório, salpicou-me todo com água. E na zona do travesseiro, quer dizer, na cabeça e na cara.
Passado algum tempo, estava eu quasi, quasi, a dormir, entrou outro. Este não fez barulho. Só fez chuveiro para cima de mim, o desalmado.
E ainda apanhei uma terceira molhadela antes de adormecer.
Quando acordei, já a luz entrava pelas janelas. Olhei para as várias camas e estavam todas ocupadas. Toda a malta a dormir. Entretanto há outro que levanta a cabecinha e também espreita. E mais outro. E outro ainda. Agora, embora alguns dos meus parceiros tivessem umas caras patibulares, senti-me mais à vontade.
Levantei-me, abri finalmente a mala e lavei-me o melhor possível.
Concluído o ritual (que não foi muito canónico, como devem calcular), pisguei-me o mais depressa que pude para ir a uma conhecida estação do caminho-de-ferro apanhar o comboio que me levaria a Wisbech.
E o que me aconteceu no campo de trabalhos fica para vos contar noutra ocasião.


publicado por António às 14:40
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2005
O Senhor Engenheiro
Podem ter acesso à minha Homepage (ou Página pessoal ou Webpage) a partir deste blog.
Quem já a visitou, pode ter lido que este vosso amigo licenciou-se em Engenharia Química, tendo feito a última cadeira em Outubro de 1972 mas, só depois de efectuado um estágio obrigatório de três meses é que me foi concedida a licenciatura. A certidão respectiva tem data de oito de Março de 1973.
E pensam que depois de ter o canudo – efectivamente tenho o diploma à moda antiga, feito à mão, escrito com letra gótica (?), em latim, sobre pergaminho e com um medalhão em prata, pendente – passei a ter o direito de usar o título de Engenheiro?
Não!
Para isso é preciso estar inscrito na Ordem dos Engenheiros.

Conheço o caso de um velho professor catedrático que, atingida a idade própria, salvo erro os setenta anos, jubilou.
Era membro da Ordem mas, em face da nova situação, escreveu para lá a dizer que não pretendia continuar como associado.
Pois não querem saber que, alguns dias depois, recebe uma carta a dizer que o seu pedido de demissão tinha sido registado, mas lembrando-lhe que a partir desse momento não poderia usar mais o título profissional de Engenheiro?
Como pessoalmente nunca tive interesse nenhum em inscrever-me nessa associação, nunca tive direito a usar o título profissional.
Na prática, todavia, todos os licenciados são chamados de “Senhor Engenheiro”.
E não só. Os Engenheiros Técnicos também. E muita mais gente.
É de todos sabido a apetência que há por uma grande parte dos nossos compatriotas em ser chamado por Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor (ou no feminino, claro está).
Na empresa onde trabalho, nomeadamente os fornecedores, tratam quasi toda a gente por Engenheiro. Quer o fossem, quer o não fossem. E não é que, até hoje, só conheci uma pessoa que, perante tal “promoção”, dizia:
- Eu não sou engenheiro. Gostava muito de o ser, mas não sou, de facto – e soltava uma sonora gargalhada.
Todos os outros calam-se muito caladinhos e lá vem as cartas, os faxes, os e-mails, os telefonemas dirigidos ao Senhor Engenheiro Malaquias ou Barnabé que, muitas vezes nem um curso técnico completo tem.
Acho que isto revela bem a importância de se ter um título em Portugal.
Muitas vezes, quando telefono para determinado destino, depois de dizer o meu nome (Castilho Dias, nunca usando o título) a menina pergunta:
- O senhor é Engenheiro?
Naturalmente que eu respondo afirmativamente.
Pois nem imaginam como as deferências se multiplicam. E agora já não tanto, mas há vinte ou trinta anos, até metia dó.
Mas quero dizer-vos que tenho muito orgulho em ter feito o meu curso. Deu-me muita canseira e muito trabalho.
E até sabe bem ser tratado pelo título. Mas nunca fiz questão em ser chamado como tal. Quem quiser chama, quem não quiser não chama.

Bom!
Vinha isto a propósito de eu não poder usar oficialmente o título profissional.
Acontece que, por razões do interesse da empresa onde presto os meus serviços, pediram-me recentemente que me inscrevesse na Ordem.
Respondi que se a empresa tinha vantagem nisso eu estava disponível a inscrever-me, desde que a entidade patronal tratasse de tudo e tudo pagasse.
E assim foi feito.
Já recebi uma carta a dizer qual o meu número de membro da Ordem.
Portanto, minhas amigas e meus amigos, a partir deste momento muito respeitinho pelo Senhor Engenheiro.


publicado por António às 14:45
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Sábado, 25 de Junho de 2005
Sequestro
Outono de 1982. Viviam-se dias agradáveis, soalheiros.
Eu trabalhava numa empresa sita em Sobrado, no concelho de Valongo, desde Abril de 1979.
Fora criada em 1949, curiosamente o ano do meu nascimento.
Em 1980 foi comprada por um dos maiores grupos empresariais privados portugueses mas, ao contrário das expectativas de todos os que nela trabalhavam, continuou financeiramente debilitada. Mais rigorosamente, a situação piorou. Cerca de dois anos depois os ordenados já eram pagos aos soluços.
Pressentia-se que o fim estava próximo.
Uma das panaceias que a administração usou para tentar evitar o que já era inexorável foi determinar que no chamado sector têxtil, onde quasi só trabalhavam mulheres em dois turnos, se fizesse uma alteração.
Os dois grupos de funcionárias laboravam alternadamente, isto é, um deles funcionava das seis às catorze, o outro das catorze às vinte e duas. E assim durante uma semana. Passado o fim-de-semana, as operárias trocavam de turno. As que trabalhavam de manhã passavam para a tarde e vice-versa.
Este sistema não tinha nenhuma vantagem especial para a empresa mas, como propiciava, de acordo com o contrato colectivo de trabalho, um suplemento salarial de vinte por cento, agradava às mulheres.
Ora a decisão da administração foi no sentido de acabar com essa alternância e, consequentemente, cessava o tal acréscimo no rendimento.
É bom de ver que as movimentações começaram logo que a mudança foi anunciada para vigorar a partir de determinada segunda-feira.
Dirigentes e delegados sindicais andavam numa roda-viva a travar mais uma luta contra a exploração do patronato.
Um plenário foi convocado para as duas horas da tarde e assim, aproveitando a mudança de turno, estariam lá as mulheres todas que eram umas centenas.
Antes de ir dar uma espreitadela ao local da reunião eu, que na altura também era chefe de uma parte das colaboradoras abrangidas pela nova regra, passei pelos salões onde as máquinas estavam quasi todas paradas por ausência das operadoras.
E reparei que uma tal Margarida, jovem, anafada, loira de cabelo curto, mal-educada, regateira e delegada sindical, por toda a gente conhecida por Mamuda, estava junto de uma operária. Achei a situação estranha e aproximei-me.
Constatei que a operadora estava a chorar devido às ameaças que a Mamuda lhe fazia por ela não ir ao plenário e se manter com a máquina a trabalhar.
Irritado com a situação, e depois de ter feito algumas perguntas para me certificar que não estava a interpretar mal o que acontecia, disse para a loira:
- Se esta sua colega pretende continuar a trabalhar, a senhora não tem o direito de a estar a importunar. Portanto, saia já daqui!
A delegada sindical ainda ripostou (pareceu-me ouvir qualquer coisa como fascista) mas repeti a ordem em tom mais altissonante e ela lá foi devagarinho para outro lado. Claro que fui atrás dela para evitar que repetisse a cena com mais duas ou três colegas que tinham resolvido continuar a trabalhar.
Daqui a pouco já vão perceber esta referência especial à Mamuda.·
E chegamos à tal segunda-feira em que a nova regra iria começar a funcionar.
Como se previam problemas, o director fabril, Eng. Veiga, eu, os meus colegas Jacinto (de que já falei algumas vezes nos meus textos, embora na qualidade de amigo) e Lopes, bem como o Miranda, chefe do Pessoal, decidimos aparecer nas instalações fabris antes das seis.
E as mulheres compareceram ao trabalho. Mas a maioria eram do turno que deveria vir só de tarde. As que acataram a nova regra eram poucas.
Perante a situação, o director decidiu deixar que as coisas continuassem assim e tentar falar com alguém da administração, mais tarde, para combinar a forma de combater a falta de cumprimento do estipulado. Refira-se que a sede administrativa ficava no Porto e não em Sobrado.
Por volta das dez da manhã já o Eng. Veiga tinha tentado contactar alguns administradores, mas sem sucesso.
E então, algumas operárias, lideradas pela Guida Mamuda, deixaram o local de trabalho, entraram na zona de serviços, subiram as escadas de acesso ao gabinete do director e foram falar com ele no sentido de ser revogada a directiva.
Claro que o Veiga não tinha poderes para tal e disse isso às empregadas. Estas, melhor dizendo, a Mamuda, afirmou então que não iriam para o trabalho sem a anulação da ordem.
Saíram do gabinete e postaram-se na escadaria que ficava uns trinta metros adiante.
Quando, passados alguns minutos o director veio indagar qual a causa do barulho que continuava a ouvir, mas ainda mais ampliado, deparou já com umas dezenas de funcionárias às quais se dirigiu.
Foi recebido com apupos e palavras de ordem (como é habitual nestes casos) e com a intimação de voltar para o gabinete e só sair de lá quando o problema estivesse resolvido.
O director fabril telefonou então para o Porto a informar que estava sequestrado e tinha de falar com algum administrador. Mas de qualquer deles, nem rasto…
Depois ligou para o Miranda e para os três chefes de produção (eu, o Jacinto e o Lopes) a contar o que se passara.
E fomo-nos mantendo em contacto telefónico. Administradores, nada! E o grupo de mulheres liderado pela fogosa peituda continuava na escadaria.
Antes de ir almoçar, resolvi ir ver como estava o engenheiro director. Passei pelo grupo de mulheres, falei com o meu chefe, saí e, quando ia atravessar o grupo contestatário, a Mamuda avançou para mim, empurrou o seu bem almofadado peito contra o meu e gritou:
- Não passa! Não passa!
E logo as outras num afinado coro:
- Não passa! Não passa!
E regressei ao gabinete donde tinha acabado de sair.
Estava sequestrado.
Não fiquei atrapalhado. Numa primeira fase até achei certa graça. Sempre gostei de situações incomuns.
Telefonamos aos colegas para não irem lá acima sob pena de também ficarem retidos.
E o dia foi passando. Cigarros, estratégias, conversa, tácticas, telefonemas. Nada de comida nem de administradores. Só autorização para ir fazer xixi.
Telefonei à minha mulher que estava grávida de oito meses. Contei-lhe o que se passava.
Ficou aflita, como seria normal, mas fui-lhe dizendo que não havia perigo nenhum e que mais isto e mais aquilo; não queria que se incomodasse excessivamente.
A certa altura da tarde, entrou o Miranda. Não aguentava sem nos vir ver e lá ficou detido.
Três!
Com o passar das horas, a fome e as palavras de ordem que eram gritadas de vez em quando, as preocupações foram aumentando.
E se aquela horda entrasse por ali dentro e nos agredisse? Cheguei a pensar que ainda seria defenestrado como o Miguel de Vasconcelos.
Nenhum administrador apareceu na sede nesse dia. Estávamos furiosos com eles. A decisão fora de sua responsabilidade e agora deixavam o seu representante na fábrica sem protecção nenhuma. Ainda chamamos a GNR mas, como de costume, não adiantou nada.
A tarde aproximava-se do fim.
Era preciso fazer qualquer coisa.
E o Veiga foi chamar uma delegação de duas ou três trabalhadoras para vir falar com ele. Vieram umas trinta para dentro do gabinete. Tive algum medo do que poderia acontecer.
Já não me lembro do que foi dito. Lembro-me que, por volta das dez da noite, se chegou a um acordo. Acho que isso aconteceu porque as mulheres acabaram por perceber que o Veiga não tinha poderes para tomar a decisão que pretendiam e porque elas próprias se queriam ir embora.
E assim acabou o sequestro.
Telefonei imediatamente para casa. Aliás, durante todo esse período, várias vezes o fiz para sossegar a mulher e outros familiares que, entretanto, já tinham sabido da minha desconfortável situação.
Para vos falar francamente, acho que fiquei preso só porque a Guida Mamuda se quis vingar da minha atitude no salão de máquinas e que intencionalmente narrei mais acima.
Nos dias seguintes, progressivamente, as trabalhadoras começaram a cumprir a determinação da administração que na terça-feira de manhã, finalmente, deu sinal de si.
Os salários continuaram a chegar cada vez mais atrasados. Penso que essa foi umas das razões para desmotivar a luta das empregadas. Começaram a perceber que aquela empresa que dava sustento a tanta família (em muitos casos a famílias inteiras; pai, mãe e filhos) estava moribunda.
Lembro-me que um dia uma jovem operária me disse:
- Sabe? Nós nascemos para ser pobres.
Menos de um mês depois nasceu o meu filho.
Cerca de mês e meio mais tarde mudei para outra empresa.
Ainda nela trabalho e, ironia das ironias, foi também comprada pelo mesmo grupo empresarial. Mas desta vez a coisa está a correr bem! Uff…
Em Janeiro de 1983 as máquinas da CIFA – Companhia Industrial de Fibras Artificiais, SA, pararam. Para sempre.


publicado por António às 14:36
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Terça-feira, 21 de Junho de 2005
O Pérola Negra
O Pérola Negra é uma casa de diversão nocturna do Porto.
Diversão para homens, entenda-se.
Casa de alterne, de ataque e de actuações ao vivo.
Foi fundada nos anos sessenta, situando-se desde sempre na rua de Gonçalo Cristóvão, muito pertinho do cruzamento com a rua de Camões.
Fui lá muitas vezes. Ou só ou com amigos. Geralmente beber uma cervejola e ver o “show”. Pouco depois da revolução, especializou-se, durante vários anos, em espectáculos pornográficos em carne e osso. Mais carne do que osso, claro!
O fundador e proprietário, já falecido, fartou-se de fazer dinheiro.
Até de Lisboa vinha malta para ver como era para depois contar como foi.

Situemo-nos agora nos inícios dos anos oitenta.
Eu, o meu amigo Jacinto, de que já falei, nomeadamente aquando da estadia em Paris, e um outro grande amigalhaço, o Paulo, decidimos ir, com as respectivas consortes, fazer uma mariscada a Matosinhos, numa noite quente de verão.
Depois de bem comidos e bem bebidos, e recordo que naquele tempo ainda a GNR não usava os famosos balões para medir o nível de alcoolémia no sangue dos condutores, demos um pequeno passeio a pé junto ao mar.
Refrescava e ajudava a fazer a digestão.
Algum tempo depois resolvemos voltar para os carros.
- E que vamos fazer agora?
O habitual seria irmos para casa de um dos casais e tagarelar até às tantas.
Mas este vosso humilde escriba teve uma ideia brilhante:
- E se fôssemos ao Pérola Negra?
- Grande ideia! – disse logo o Jacinto que era ainda mais louco do que eu.
O Paulo, menos dado a estas coisas da vida nocturna, ficou calado.
E as mulheres, depois de olharem umas para as outras responderam:
- Que horror! E se alguém nos vê? Pensem noutra coisa.
- E pode haver zaragata.
Mas não pude deixar de reparar que tinham um brilhozinho nos olhos, como diz a canção do Sérgio Godinho.
- Olhem que é uma oportunidade única. Vamos os seis e garanto que ninguém se mete connosco – disse eu.
- Claro! E indo com homens como nós ninguém vos vai importunar nem fazer propostas indecentes – apoiou o Jacinto.
Não foram precisos muitos mais argumentos.
A curiosidade de ver como era uma casa de meninas por dentro, a funcionar, e ainda por cima um “show” porno ao vivo, venceu todos os “mas”.
- Vamos lá! – disse a minha mulher.
- Então vamos! – disseram as outras.
O Paulo venceu o retraimento inicial.
E lá nos dirigimos ao famoso Pérola Negra.

O porteiro, velhote calmeirão, seguramente um reformado tendo ali um complemento monetário, quando nos viu e ouviu perguntar quanto custava a entrada para seis pessoas, fez uma cara de admiração. Estava habituado a ver as mulheres a entrar sozinhas e sair acompanhadas, mas entrarem acompanhadas era coisa rara, certamente.
Feito o pagamento que, como é normal nestas coisas, dava direito a algum consumo, descemos a larga escadaria e entramos na grande e mal iluminada sala.
A música gravada soava baixo, sem ferir os ouvidos.
Fomos recebidos com toda a deferência.
Escolhemos uma larga mesa não muito perto do “tableau” e sentamo-nos em confortáveis “maples”.
Vieram as bebidas e, conforme os olhos se iam adaptando ao escuro, as nossas acompanhantes puderam apreciar um prostíbulo em movimento.

As meretrizes estrategicamente dispersas pela sala, quasi todas sentadas, ou sozinhas ou aos pares. Os clientes mais afoitos faziam um chamamento discreto ou íam sentar-se junto da escolhida. Aos mais tímidos ou inexperientes era perguntado pelos empregados de mesa se pretendiam a companhia de uma menina. Outros chamavam os serventes e pediam um conselho sobre quais as raparigas com melhor desempenho. Muitas vezes, os funcionários levavam uma "dama" até à mesa de um cavalheiro para o entusiasmar. Mas a maioria não tinha nem queria companhia.

Os homens mais velhos eram alvo de mais atenções que os rapazotes. Por razões óbvias.
De quando em quando ouvia-se o pum do abrir de uma garrafa de champanhe ou de um espumante mais rasca.
De tempos a tempos saía um parzinho. Depois a menina voltava sozinha.
Tudo sob o olhar atento do patrão.
À uma da manhã começou o espectáculo, com um casal de dinamarqueses, ou lá o que eram, a ter relações sexuais para português ver.
Não deixo de admirar a descontracção dos homens que tem de fazer isto, em frente a um numeroso grupo de mirones, duas vezes por noite e sem fracassarem. E ainda não tinha sido sintetizado o Viagra!
Mas não era o que se passava no palco que despertava a curiosidade das nossas mulheres. Era o comportamento das meninas e dos clientes.
E a mim e aos dois compinchas era observar as nossas mulheres a olhar e cochichar.
Delicioso!
Quando saímos, elas confessaram que tinha sido uma experiência única (não esperava que dissessem que tinha sido uma experiência repetida). Acharam que as pessoas se comportavam muito bem (nem sempre, nem sempre, digo eu!). Mas o que mais as tinha surpreendido tinha sido o facto de as meretrizes não estarem vestidas em trajes ínfimos, com meias de rede, ligas à mostra e peitos impudicamente exibidos – deformação resultante do que viam no cinema, certamente – mas vestidas com toda a normalidade.
- Se visse alguma delas na rua diria que era uma moça que andava a estudar – comentou a minha cara-metade.
Pois é!
As aparências iludem!


publicado por António às 15:31
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Sábado, 18 de Junho de 2005
O cortador de carnes verdes
“Um dia vos falarei das minhas aventuras como comandante do Destacamento de Marinha do Cuando. Bom…o destacamento eram trezes homens, incluindo eu. E mais uma lancha de desembarque pequena. Mas que grande tropa eu ia comandar!”.
Foi assim que terminei o texto que publiquei aqui, no primeiro dia de Junho deste ano, com o título:
Sobrevoando a savana

Estávamos no final de 1974.
O destacamento era constituído pelo comandante, um sargento, um cabo, cinco marinheiros e cinco grumetes.
Sabem o que distingue um marinheiro de um grumete?
O primeiro é o que fica aprovado no curso de uma das muitas especialidades existentes na Armada. O grumete é o que chumba.
Aprendam que eu não duro sempre!
Os dois meses que passei no Rivungo foram dos mais originais que se podem viver.
Esta povoação do Cuando-Cubango, situada nas margens do rio Cuando, tinha duas ruas. Dispostas em L. A maior era paralela ao rio, e teria uns cem metros. O quartel ficava situado na extremidade do L mais afastada da rua mais pequena, que devia ter cinquenta. Ambas eram largas e em terra batida; a mais curta tinha mesmo separador central.
O nosso poiso era constituído por uma pequena construção em tijolo rebocado. Aí ficavam meia dúzia de divisões, sendo uma delas o meu quarto. O sargento e o cabo também aí tinham umas instalações tão pobres como a minha.

Havia ainda uma segunda construção relativamente sólida onde dormiam os outros dez bravos.
Um coberto onde um assalariado autóctone, o João Jacare cozinhava.
Um outro onde estava a mesa para se tomarem as refeições e havia dois frigoríficos a petróleo.
Tínhamos um galinheiro e uma pocilga.
Uma torre de vigia em madeira.

A lancha de desembarque (não que andássemos a treinar para invadir a Normandia, mas porque tendo fundo chato permitia navegar no estreito rio que tinha muitos bancos de areia) e, ainda, dois jeeps.
No aglomerado havia também um pequeno quartel do Exército (cerca de trinta homens, todos angolanos, dos quais só o alferes e dois furriéis eram brancos), a Administração de Posto, um pequeno hospital (que nunca funcionou), uma mini esquadra da Polícia com quatro agentes, a casa onde vivia o Sr. Lebre, mulato que administrava a localidade, a casa dos dois Pides, a do Camassango, um sujeito que era o responsável pela “investigação agrária” (o rapaz tinha um gira-discos com um som pior que horroroso, mas era com a sua música que fazíamos os bailes nocturnos duas ou três vezes por semana, com música africana, pois claro, senão as raparigas íam embora), a casa dos dois enfermeiros, negros e beberrões, e acho que não me esqueci de nada.
Uma coisa importante. Havia luz eléctrica. Água e saneamento é que nem pensar!
O resto eram cubatas feitas de terra seca com cobertura de folhas de uma árvore de que não sei o nome.
Nunca soube exactamente quantas pessoas ali viviam. Mas deviam ser muito mais de um milhar.
O avião que para lá me transportara, todas as semanas levava o correio, o jornal Expresso (um luxo onde eu lia as novidades da revolução) e a comida que só dava para quatro dias.
Para comer nos outros três era preciso ir para a savana caçar. E que boa carne saboreei! Até javali comi, qual Obélix!
Uma vez por mês, vinha pela picada um camião com as bebidas. Calhavam duas cervejas e um refrigerante a cada um, por dia. Alguns bebiam tudo numa semana, ou menos. Depois, tinham que se saciar com água tratada em filtros porosos ou compravam as bebidas engarrafadas aos que tinham espírito mais comercial.

Depois desta fastidiosa tentativa de vos explicar o que era o Rivungo, vou-vos falar do Lima.
Era um dos grumetes, natural do Minho, e que fora empregado num talho. Cortador de carnes verdes, portanto. Quando a falta de comida ou o insucesso nas caçadas exigiam que se matassem uns frangos ou uns leitões da nossa pecuária, era ele quem se encarregava de dar a facada letal e fazer o trabalho de talhante. E era impecável nessa função. Elemento imprescindível, portanto.
Uma manhã, entrava eu com as minhas calças de bombazina castanhas, sapatilhas em bota e T-shirt preta (nunca andávamos fardados, pois aquilo era uma tropa muito especial) na edificação onde ficavam os meus aposentos, e vi o Lima estendido no chão e outro dos nossos a dar-lhe bofetadas na cara.
Perante tal cena, engrossei a voz para ficar mais comandante e gritei:
- Mas que merda é esta? Larga imediatamente o rapaz!
O moço, cujo nome não recordo, olhou para mim com um ar assustado e disse:
- Ó senhor tenente! Eu não lhe estou a bater. Foi ele que desmaiou e estou a tentar acordá-lo.
Imediatamente comecei a ajudá-lo em tão prestimosa tarefa dando uns tabefes no Lima.
Ao cabo de um ou dois minutos o rapaz começou a voltar a si.
Mandei o outro buscar um copo com água (era preciso poupar as outras bebidas para momentos mais solenes) e, enquanto o valente minhoto se recompunha, perguntei ao socorrista:
- Mas porque é que ele desmaiou?
- Porque se picou num dedo e quando viu sangue, caiu redondo.
Eu não queria acreditar.
- Estás a gozar comigo? – disse um tanto agastado – então ele mata porcos e galinhas e desmaia por ver uma pintinha de sangue no dedo?
E foi o próprio Lima que me explicou:
- É verdade, senhor tenente. Ver o sangue dos outros não me faz impressão nenhuma, mas se vejo o meu, nem que seja uma coisinha de nada, não aguento e desmaio.
Fiquei varado. Nunca tinha imaginado que tal pudesse suceder. Mas era mesmo assim.
As pessoas são mesmo bizarras, não são?


publicado por António às 15:19
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Terça-feira, 14 de Junho de 2005
Vocação religiosa
Isto das histórias do passado é como as cerejas.
Tira-se uma e vem logo atrás duas ou três. Ou mais.
Por isso vou-vos fazer mais uma narrativa dos meus tempos de escola primária.

Tudo começou no ano lectivo de 1957/58. O ano em que fui gloriosamente eleito chefe de turma.
Numa manhã duma quinta-feira normalíssima, a já conhecida D. Ester, dedicada e competente professora, estava dando a sua aula quando se ouviu um truz-truz na porta.
A mestra foi abri-la e surgiu um padre. Vestido a preceito, pois naquele tempo não havia padres à paisana. E com coroa, pois claro.
Era muito jovem e com boa figura.
Como mandavam as regras, a malta levantou-se toda. Era a forma oficial de saudação e de mostrar boa educação.
Logo a seguir disse a senhora:
- Podem sentar-se. O senhor padre autoriza.
Cumprida a ordem, continuou:
- Este é o Sr. Padre Rocha que virá aqui à aula, todas as quintas feiras, para vos dar uma lição de Religião e Moral. Durará cerca de uma hora. E portem-se bem!
Ouviu-se um burburinho que foi imediatamente interrompido por um mero olhar mais carrancudo da professora.
E o padre começou quasi de imediato a falar.
Não sei o que disse.
Sei que logo nesse dia começou a cativar-nos com a sua forma serena de estar e o modo como se nos dirigia e fazia participar nas questões tratadas.
E, a partir daí, a horinha com o padre Rocha era um momento sempre desejado.
Chegados ao fim do ano escolar, todos pedimos ao sacerdote para voltar no ano seguinte.
Disse que gostaria muito, mas não sabia se era possível.
Acabadas as férias grandes, voltamos à escola. Agora na 4ª classe.
Numa das primeiras quintas-feiras, apareceu a D. Ester com um ar contristado a dizer:
- Hoje vão começar novamente as aulas de Religião e Moral.
- Vem o padre Rocha? – gritamos.
- Não!
- Oh!!! – saiu-nos pesaroso e redondinho este “Oh!!!”
- Não pôde ser. Mas o senhor padre que vem este ano também é muito bom.
Qual quê! Queríamos era o padre Rocha.
Eis que um dos alunos grita:
- O padre Rocha está ali escondido atrás da porta. Eu vi-o!
Desmascarado, o sacerdote entrou, perante os gritos e palmas de euforia da rapaziada e os sorrisos complacentes dos dois adultos.
E, durante todo o ano, essas horinhas foram um regalo.
O padre Rocha tinha um verdadeiro talento para lidar com crianças.
Terminado o ano, feitos os exames da 4ª e de admissão, começaram as merecidas férias antes de uma nova etapa das nossas vidas ter início.
Uma ou duas semanas depois de iniciadas as férias, houve um telefonema do padre Rocha para casa dos meus pais.
Foi a minha mãe quem atendeu. Era o jovem clérigo que pretendia convidar-me para um lanche nas esplanadas do Palácio de Cristal. A mim e ao Quim Delgado (este Quim não tem nada a ver com o outro de que falei na história do “esquentamento de consciência”, convém dizê-lo por causa das dúvidas). Após alguns telefonemas, tudo ficou aprazado para uma das tardes seguintes. O Delgado viria ter a minha casa e depois, os três, iríamos merendar.
Entretanto, a minha irmã, com os seus oito aninhos, mas sempre muito ladina e desconcertante, ia observando tudo.
- Ó Tone! Ainda vais para padre! – e ria-se com ar trocista.
Há hora do jantar, e depois de posto ao corrente da situação, o meu pai não se mostrou muito agradado:
- Já percebi que ele anda a pescar rapazes para o seminário. Mas tu não estás interessado em ir para padre, pois não, meu filho?
- Não, papá!
E, de facto, nunca sentira a menor vocação para o sacerdócio. Dizia sempre que queria casar e ter filhos.
E chegou o dia combinado.
O Quim Delgado já tinha vindo e estávamos ambos a brincar na rua.
E chegou o padre. Beijinhos, entramos em casa, a minha mãe fez o papel de anfitriã e a minha irmã lá estava muito caladinha.
A certa altura, o padre fez uma primeira abordagem à nossa ida para o seminário.
E a minha maninha não se conteve. Usando uma expressão que ouvira várias vezes, não só lá em casa mas também na de outros familiares e amigos, disparou:
- Ele não quer ir para padre porque os padres são capados!
Meu Deus!
Padre com sorriso amarelíssimo. Mãe aflitíssima. Eu embasbacado. Quim…nem reparei. E a Nandinha com um sorriso de orelha a orelha!
A minha pobre mãe desfez-se em desculpas. O padre dizia que era normal nas crianças.
E lá fomos para o Palácio que era a melhor maneira de fugir ao embaraço.
De resto, tudo correu bem.
Estava uma bela tarde de Julho e o nosso amigo sacerdote ainda voltou a falar no assunto, agora de forma mais directa, mas ambos fomos peremptórios a dizer que não era essa a nossa vocação.
Regressamos a casa, fizeram-se as despedidas e o clérigo abalou.
Durante alguns anos não ouvi falar no padre Rocha.

Cinco ou seis anos depois, estava eu a ler a necrologia (no que imitava o meu pai) d´
O Comércio do Porto, que era o jornal diário lido em casa, quando se me deparou a notícia, brutal!
Tinha morrido, vítima de doença prolongada, o Rev. António da Rocha Soares.
Devia andar pelos trinta anos. Nem tivera tempo de envelhecer. Que injustiça!
(acho que ainda verti uma lagrimazita)


publicado por António às 15:01
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Sábado, 11 de Junho de 2005
Em Paris
Paris!
Cidade mítica!
Desde criança que a capital francesa era o local mais apetecido para um dia visitar.
Não me perguntem porquê. Provavelmente porque desde sempre ouvi e li coisas lindas sobre a cidade Luz. Talvez por lhe chamarem cidade Luz.
E o dia de visitar Paris começou a desenhar-se quando integrei a Comissão Organizadora da viagem de curso.
Não foi inocente a minha opção de participar nessa comissão.
Havia alguns sítios que muito gostava de conhecer e, ao ter capacidade de intervir na escolha do itinerário…estão a perceber, não estão?
E um desses locais era, obviamente, a mundana cidade centro da Europa.

Foi assim que, a vinte e nove de Março de 1973, a camioneta com os 34 viajantes deixou Bruxelas e se dirigiu a Paris.
Ficamos instalados em dois hotéis, pois não tínhamos encontrado um que, por si só, tivesse vagas para todos. Eu e um grupo mais pequeno fomos alojados no Hotel Peiffer, na rua de l´Arcade, pertinho da Madeleine.
O Jacinto (lembram-se da aventura na “zona” de Amsterdam?), ainda hoje grande amigo, já o era na altura. E, muitas vezes, os dois fugíamos aos outros para procurar descobrir esse mundo novo que era a Europa desenvolvida, da liberdade e da democracia, mais à vontade. Quando anda muita gente junta, acaba por se perder mais tempo. Uns querem isto, outros aquilo. Não acham que é assim? E um dia e duas noites em Paris não dão para desperdiçar um minuto que seja.
Pois foi com ele que partilhei o hotel e toda a aventura parisiense.
Na primeira noite fomos passear a pé pela cidade. O Arco do Triunfo, Campos Elíseos, Pigalle. Enfim! A noite parisiense na rua.
Chegados ao hotel, e perante um mapa da cidade e outro do metro, planeamos com todo o rigor possível o que faríamos no dia seguinte.
Bem cedo, descemos para o pequeno-almoço.
Fomos servidos à mesa por uma bela empregada a quem lançamos uns piropos no melhor francês que conseguimos esgalhar.
E como a mocinha não falava português, fizemos alguns comentários (usando mesmo o vernáculo à moda do Porto) a zonas da sua anatomia que nos chamaram a atenção de forma mais destacada.
Refeição acabada, toca a pegar nas coisas e pés a caminho para a estação do metro.
Já na rua, ouvimos uma voz de mulher a chamar. Instintivamente, olhamos para trás. Era a empregada que nos servira no hotel e que, em bom português, disse:
- Acho que esta máquina fotográfica é de um dos senhores!
Ficamos positivamente petrificados. Afinal, a bela francesa era...uma emigrante portuguesa.
Mas, rapidamente refeitos do impacto daquela verdadeira traulitada na cachola, foi o Jacinto quem retorquiu:
- É minha! Muito obrigado!
E a visita ao Paris diurno começou.
Madeleine, Notre Dâme, Louvre, Torre Eiffel, Inválidos, Túmulo de Napoleão, Opera, Saint Germain e mais uns quantos locais que não relembro de momento.
Mas uma das coisas fascinantes em Paris é que em cada rua, em cada praça, ao dobrar de cada esquina, lá está um monumento, dos mais conhecidos ou dos outros que não sendo tão famosos são igualmente belos.
Devo dizer que uma das obras que mais me impressionou, pois nunca a vira em fotografia, foi o túmulo de Napoleão. Essa famosa personagem histórica dissera, em vida, que as pessoas se curvariam perante ele mesmo depois da sua morte. E, de facto, o mausoléu fica num piso inferior ao da entrada, existindo uma abertura circular com um murete e a primeira coisa que as pessoas normalmente fazem é ir junto dessa varanda e inclinar-se para ver cá em baixo o túmulo do imperador.
Também quero referir que fomos ao famoso e velhinho mercado Les Halles. Já estava tudo vazio, inclusive as tabernas da sua vizinhança onde, por certo, muitas canções teriam sido cantadas com o acompanhamento do imprescindível acordeão. Estava tudo deserto pois iria ser demolido, em breve. No seu lugar está hoje o Centro Pompidou (espero não estar a dizer asneira).
A certa altura, penso que exactamente nessa zona, dirigimo-nos a um sujeito de meia-idade para lhe pedir uma qualquer indicação acerca de um local que pretendíamos ver. Prontificou-se logo a levar-nos ao tal lugar, que era bem pertinho, aliás. Quis saber de onde éramos.
- Nous sommes portugais! – disse eu.
- Também eu! – retorquiu o homenzinho.
Tinha de ser. Quem, senão um português, poderia ter toda aquela hospitalidade?
E estivemos a conversar um pouco com o emigrante que estava radiante por nos ter encontrado.
E assim passamos o dia.
Regressados ao hotel, depois de ter comido qualquer coisa rapidinha (naquele tempo ainda não havia “fast food” mas, umas sandes e uma cervejinha, pouco demoraram), preparamo-nos para o “Paris by night”. Mas onde haveríamos de ir?
Perguntamos à recepcionista, uma jovem francesa (esta era mesmo…) muito bem arranjada e maquilhada, aonde nos aconselhava ir: Lido, Folies Bergères, Molin Rouge…
Respondeu com o seu sotaque parisiense (eu quasi morro quando ouço uma mulher a falar com aquela entoação; até fico a tremer de excitação, confesso) não sem antes nos mirar dos pés à cabeça:
- Pour vous…je vous conseille le Crazy Horse.
Nunca tínhamos ouvido falar de tal cabaret. Mas a rapariga devia saber do assunto e, depois de tomarmos a decisão, explicou-nos como se ia para lá.
E fomos ao Crazy Horse Saloon de Paris (fundado pelo Sr. Alain Bernardin que dirigia a casa com mão de ferro; faleceu há poucos anos). Ficava, e penso que ainda é no mesmo local, na zona dos Campos Elíseos, rua George V.
Ocupamos a nossa mesa. A sala era pequena e estava cheia. Predominavam os italianos, sendo a maioria casais. Pedimos uma cerveja que foi servida num copo enorme.
E o espectáculo começou.
Foram duas horas de um show erótico de elevado profissionalismo e com as mulheres com os corpos mais esculturais que já admirei. Só visto! Não sei descrever quão fabulosamente bem modelados, flexíveis e sensuais eram. Acho que durante algum tempo acreditei que Deus existia. Só uma divindade poderia fazer coisas tão belas!
Mais tarde, pela passagem de ano, e várias vezes, vi reportagens na RTP sobre a noite de Paris e lá vinha sempre em destaque o Crazy Horse. Algumas delas eram mesmo só sobre este cabaret. Tenho tudo gravado em cassete de vídeo. Como se costuma dizer: cada tolo com a sua mania!
No dia seguinte, quando fazíamos a viagem para Bordéus, conversando e comparando experiências com outros colegas que tinham ido a outros cabarets, eu e o Jacinto concordamos que em boa hora tínhamos pedido o conselho à recepcionista parisiense.

Nunca mais voltei a Paris!
Costuma-se dizer, para realçar a beleza da cidade italiana dos canais:
“Ir a Veneza…e morrer!”.
Eu digo:
“Ir outra vez a Paris…e morrer!".


publicado por António às 14:49
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Terça-feira, 7 de Junho de 2005
O chefe de turma
Decorria o ano lectivo de 1957/58, mas a acção centra-se num dia dos primeiros meses de 1958.
Andava na 3ª classe.
A professora era a D. Ester a quem já me referi no post “Eu, borboleta”.
Eu era um dos melhores alunos (como é óbvio…tosse, muita tosse) e como tal, quando havia matéria nova, lá ia o Castilho (era o meu nome de guerra) ao quadro para resolver os primeiros problemas e dar as primeiras respostas. Pobre de mim! Muita porrada apanhei por causa dessas chamadas de mérito. Como não era o crânio que a professora gostaria que eu fosse, irritava-se e pumba, catrapumba! Mas acabava por aprender!
Mas, dizia eu, estávamos em 1958.
Foi o ano das últimas eleições directas para Presidente da República no regime de Salazar.
Inicialmente, havia 3 candidatos:
O Dr. Arlindo Vicente, apoiado pelos comunistas e afins.
O General Humberto Delgado, suportado pelos democratas anti-salazaristas.
O Contra-Almirante Américo Thomaz, pelo partido único, a União Nacional.
Graças à extraordinária adesão popular que foi aglutinando o oficial do Exército, o candidato Vicente acabou por desistir e os vermelhos, apesar de lhe chamarem General Coca-Cola devido a uma ligação forte de Delgado aos EUA, acabaram por o apoiar.
Ainda me lembro de meu pai me ter levado a algumas acções de campanha do General (que ele considerava não irem ser alvo de acções policiais e, portanto, não serem arriscadas para um catraio) e, nomeadamente, da ida à sede de candidatura no Porto que ficava na Praça da República.
Como é do conhecimento geral, graças a muita trafulhice, o Thomaz lá ganhou a farsa eleitoral.
E, pouco depois, a Assembleia Nacional legislava no sentido de que a eleição do presidente passasse a ser feita nessa mesma Assembleia.
Enfim…ditadura tem de ser mesmo assim, senão não é ditadura.
Ora, nesse curto período de tempo em que se podia falar em democracia com razoável liberdade, aconteceu algo de inédito na minha classe.
A D. Ester, uma bela manhã (se não era bela, façam de conta) apareceu na sala com uma daquelas caixas de cartão em que trazíamos os sapatos novos da sapataria. Tinha uma ranhura no centro da tampa. Colocou-a sobre a secretária.
Da bolsa retirou um montinho de pequenos papéis quadrados, brancos, sem nada escrito.
E, com ar pomposo, anunciou:
- Hoje vamos eleger o chefe de turma.
A rapaziada ficou a olhar, muito provavelmente com cara de parvos, pois a situação era inédita e completamente inesperada.
- Cada aluno escreve num destes papelinhos o nome do colega que acha que deve ser o chefe de turma, dobra-o em quatro, e vem metê-lo nesta caixa por este buraquinho. Perceberam?
- E que faz o chefe de turma? – perguntou um dos miúdos, revelando alguma argúcia e muito desplante.
A mestra lá disse umas coisas de que não me lembro.
Distribuiu um papel a cada um e repetiu as instruções.
O silêncio era solene.
Os alunos sentiram que era preciso ser responsável naquele momento e foram meditando em quem votariam. E escrevendo.
- Ó senhora professora, pode-me dar outro papel que me enganei?
Lembro-me que votei no Gouveia, o puto que partilhava a carteira comigo.
Terminada esta fase, seguiu-se a contagem dos votos.
D. Ester vai desembrulhando os boletins de voto (chamemos-lhe assim, para dar mais pompa à narrativa) e dizendo em voz alta o nome que estava escrito em cada um:
- Castilho
- Castilho
- Castilho
- Guerreiro
- Castilho
- Castilho
- Irineu
…e assim por diante.
Eu estava estupefacto, pois jamais me passara pela cabeça ser tão bem cotado entre os meus colegas. E devia estar vermelho como um tomate.
Ganhei as eleições!
Por uma larguíssima margem.
Depois de ter sido declarado chefe de turma, a professora pediu um aplauso para o vencedor que entretanto fora chamado ao palco, quero dizer, para cima do estrado.
E foi bonito de ver o maralhal todo a bater-me palmas e a gritar:
Cas-ti-lho! Cas-ti-lho! Cas-ti-lho!
Até as professoras das outras salas vieram presenciar tão vibrante momento de democracia e glória.
Para encerrar a sessão, o Guerreiro, o Irineu e mais um ou dois ganapos que haviam ficado nos lugares seguintes, vieram abraçar-me por indicação da senhora. O Chico Irineu chorava como uma Madalena por ter perdido (anos mais tarde perderia um pé devido à explosão de uma mina na Guiné).
Confesso que esse dia foi um dos mais gloriosos da minha vida.

No ano seguinte não houve eleições.
A professora nomeou como chefe de turma o Guerreiro, que por acaso era filho da reitora do Liceu de Rainha Santa Isabel.
Puras coincidências, claro!


publicado por António às 22:59
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Domingo, 5 de Junho de 2005
Línguas traiçoeiras
Quando escrevo “línguas” no título desta lenga-lenga que agora começo a teclar, não me estou a referir ao órgão carnudo que temos (e os outros animais vertebrados) na cavidade bocal e que serve para ajudar à deglutição de alimentos, para lamber selos, para fazer chacota das pessoas quando a pomos cá para fora, para comer (adoro língua de vaca), para fazer bolinhas com chiclets, para mostrar ao médico numa consulta antes dele nos fizer que estamos com maus fígados e outras utilizações mais ou menos nobres como alguns jogos amorosos sobre os quais eu não me vou pronunciar pois, quem isto ler já está, tenho a certeza, muito bem documentado na matéria, mesmo sem ter tido aulas de Educação Sexual.
Refiro-me, isso sim, a “línguas” no sentido de “idiomas”.
Feito este fundamental esclarecimento prévio que certamente muito contribuirá para a elevação do nível cultural dos prezados leitores, vou contar uma historinha:
Um velho amigo, o Vitor, é filho de um industrial têxtil.
E é também um dos tipos mais inteligentes e cultos que conheci e conheço.
Lê imenso, nomeadamente revistas estrangeiras, sendo um grande conhecedor de assuntos ligados à guerra, nomeadamente armamento, em sentido restrito, mas também navios de guerra, aviões de combate e transporte logístico, tanques, mísseis, sistemas de comunicação e outras coisas ligadas à Defesa.
Os conhecimentos que tem nessa área são quasi enciclopédicos.
Penso que começou a interessar-se pelo assunto quando foi estudar engenharia Electrotécnica, na área das chamadas correntes fracas, tendo acabado o curso com grande gosto pela electrónica e por um dos sectores em que este ramo do saber é mais testado e usado enquanto tecnologia de ponta: exactamente o armamento militar, em sentido lato (as armas, mas também os navios, aviões, etc.). Sobretudo o equipamento e sistemas militares norte-americanos. Os ex-soviéticos seriam melhores, talvez, na parte de materiais, ligas metálicas, mas na electrónica, os ianques levavam-lhes a palma.
Não nos esqueçamos que uma das causas imediatas da queda do império bolchevique foi a chamada Guerra das Estrelas que Ronald Reagan decidiu lançar, provocando um esforço de resposta por parte dos comunistas que muito debilitou as suas finanças.
Mas voltemos ao Vítor.
Mal acabou o curso, foi gerir uma empresa que o pai acabara de criar. Do sector têxtil, claro!
Isto aconteceu poucos meses antes do 25 de Abril, o que obrigou o então jovem a um grande esforço de preparação técnica e lhe deu vasta experiência na parte humana ao ter de enfrentar, com vinte e poucos anos, toda a turbulência laboral pós-revolução.
Mas não é sobre isso que vos vinha falar.
É sobre uma situação pela qual o Vítor passou logo no início da sua actividade empresarial.
Ao falar com fornecedores e técnicos estrangeiros que o visitavam usando a universal língua inglesa, tinha dificuldade em fazer-se entender e em compreender, nomeadamente quando discutiam questões relativas a fio têxtil.
Como tivera uma formação no campo electrotécnico, usava a palavra “wire” que significa, de facto, fio eléctrico.
E ainda demorou algumas semanas e aprender que fio têxtil se diz “yarn”.
Depois digam que a língua portuguesa é muito traiçoeira!


publicado por António às 22:46
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2005
Sobrevoando a savana
Em Outubro de 1974 estava em Luanda, alojado na messe dos oficiais da Armada, junto à Base Naval, na Ilha do Cabo.
Tinha regressado de três meses em S. Tomé e Príncipe onde estivera em missão de patrulhamento a bordo do “Rovuma”.
Já vos descrevi alguns aspectos do navio e sua guarnição no meu post “O meu 25 de Abril” publicado nesse mesmo dia deste ano da graça (ou da desgraça) de 2005.
Entretanto, o navio ficou em estaleiro para reparações.
Uma bela manhã, recebi uma comunicação do Comando Naval para lá me apresentar.
Ficava na marginal e cheguei rapidamente.
Deram-me instruções para seguir para o Rivungo, substituir durante um mês o comandante do Destacamento de Marinha do Cuando e assim permitir que ele viesse de férias.
Não gostei da ideia, mas nada mais me restava senão cumpri-la.
O Destacamento ficava no extremo sudeste de Angola, juntinho à Zâmbia, e tinha fama de ser o verdadeiro Cu de Judas, bem mais cu e bem mais Judas que o açoriano, de S. Miguel.
Quem de lá regressava, após dois anos de comissão de serviço, vinha seguramente apanhado da mona. Felizmente eu só ficaria um mês. Aí, a ideia de conhecer o desconhecido, de fazer uma viagem às terras do fim do mundo, começou a aparecer-me com alguns atractivos.
E lá fui!
Alguns dias depois, voei até ao Kuíto (ex-Silva Porto). Não vi nada dessa cidade porque pouco depois apanhei mais um voo comercial até Menongue (ex-Serpa Pinto).
Aí pernoitei no hotel Luiana e ainda tive tempo de apreciar uma pequena mas bonita cidade, com uma calmaria tal que, se a algum forasteiro fosse dito que estava num país em guerra, certamente não acreditaria.
Era, e é, a capital do distrito do Cuando-Cubango ou, na ortografia actual, Kuando-Kubango.
Teria de voar para o outro extremo desse distrito.
Para isso, dirigi-me novamente ao aeroporto onde tinha sido reservado um lugar na avioneta que fazia semanalmente a circuito nessa área para transporte de pessoas, pequenas mercadorias, correio, jornais, alimentos e pouco mais.
Carregando a bagagem, que não era tão pouca como isso, pois sempre tive relutância em separar-me das minhas coisas (ainda hoje sou assim), lá fui ter com o piloto da aeronave. E não esqueci a máquina fotográfica.
Cumpridas as formalidades, entrei para bordo.
Era um minúsculo avião de quatro lugares. Só havia duas pessoas a bordo. O piloto e eu, ocupando os dianteiros. As bagagens ocupavam os de trás.
E começou o ronronar dos motores…
Motores?
Porra! Aquilo só tinha um motor!
Comecei a ficar preocupado. Se o motor avariasse, restava nada, quer dizer, queda a pique.
Bom! Mas manda quem pode e obedece quem deve! Eu bem gostaria de ir numa coisa com quatro motores no mínimo, mas…
Confessei ao parceiro algum receio, só algum, para não fazer muito má figura. Disse-me para não me preocupar pois nada iria acontecer. Ainda para mais o tempo estava óptimo.
Fiz que acreditei.
A rota era para sul, numa primeira fase. E pouco depois vi-me a sobrevoar a verdadeira savana africana, território de elefantes, leões, girafas, zebras, gazelas, javalis, eu sei lá…ah…e os crocodilos e hipopótamos nos rios.
Chegados junto da fronteira com a Namíbia (na altura ainda um país colonizado e chamado de Sudoeste Africano), alteramos o rumo para leste, seguindo o rio Kubango, que corre exactamente nesse sentido e faz o limite fronteiriço.
A certa altura a avioneta começou a descer e aterrou aos solavancos na pista de terra batida de Cuangar, pequena povoação onde viviam quasi exclusivamente indígenas.
O piloto deixava umas coisas e carregava outras. Eu apreciava tudo aquilo que era completamente novo para mim.
E aqui vai disto! Mais solavancos e avião no ar.
O certo é que o aviãozito parecia funcionar bem. E o piloto sabia do ofício, sem dúvida.
A escala seria agora em Calai, e depois de ter estado junto ao solo, pude verificar que toda aquela região era muito plana e geologicamente velha, de solo mole, arenoso mesmo, com uma escassa vegetação rasteira, meio seca, e com árvores de pequeno ou médio porte disseminadas em pequenos grupos. Um tanto como os chaparros no Alentejo, mas com uma velhice e uma secura bem maiores.
Do ar, viam-se alguns troncos, ainda em pé, a arder. Era o resultado da queda de raios pois nesse território eram frequentes as trovoadas.
De repente, vi uma enorme manada de elefantes. Parecia um formigueiro. Clique…já está! Fiz uma das fotos que ainda guardo.
E começou a descida para Calai.
Repetiu-se a cena.
E mais adiante Dirico.
O aviãozinho rumou então para nordeste em direcção ao meu destino: Rivungo.
Já se avistava o rio Kuando, que corria para sul.
Cheguei são e salvo.
E aí vivi dois (acabei for ficar o dobro do tempo) meses completamente diferentes de tudo o que havia experimentado ou alguma vez viria a vivenciar.
Um dia vos falarei das minhas aventuras como comandante do Destacamento de Marinha do Cuando. Bom…o destacamento eram trezes homens, incluindo eu. E mais uma lancha de desembarque pequena. Mas que grande tropa eu ia comandar!


publicado por António às 23:26
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Sábado, 28 de Maio de 2005
Eu, assassino
Ano de 1958.
Vivia eu na zona das Antas, bem perto do desaparecido estádio.
Andava na 3ª classe.
Um dos meus colegas era o Renato, filho único do Sr. Serafim e da D. Laura que moravam bem pertinho da escola.
Esta família era bem nossa conhecida pois costumava ir veranear para Vila Praia de Âncora, alojando-se no hotel de minha tia Bela (na altura pensão).
Era de lá que os conhecíamos.
Chegado a este ponto, não quero deixar de vos chamar a atenção para dois aspectos:
O primeiro, o de esta narrativa ser absolutamente verídica, inclusivamente os nomes utilizados. Fiz essa opção, desta vez.
O segundo, é que se estão a contar com uma novela policial, bem podem tirar o cavalinho da chuva. Nesse tipo de literatura o assassino só se descobre no fim, depois de o autor ter posto o leitor a suspeitar de quasi todas as personagens. Não posso deixar de recordar os imensos romances que li da famosa Agatha Christie em que o Hercule Poirot ou a Miss Marple, nomeadamente, me faziam só largar o livro depois de ter chegado ao fim.
Mas, neste caso, não há nenhum suspense. Já sabem quem foi o assassino. 
Fui eu!
Vamos então à história propriamente dita:
Durante uma certa semana, o Renato não apareceu nas aulas. Estará doente, pensei. Chegou a sexta-feira e, mal entrei no edifício escolar, comecei a ouvir:
- Morreu o pai do Renato!
- Morreu o pai do Renato!
- Morreu o pai do Renato!
Logo fiquei bem aborrecido pois, saber assim de supetão da morte de uma pessoa conhecida, e sobretudo com nove anitos, não deixa de ser um tanto traumatizante.
A aula decorreu de forma um pouco esquisita, pelo menos foi o que me pareceu e, terminadas as lições do dia, fui para casa almoçar.
A minha mãe abriu-me a porta e eu disparei de imediato:
- Ó mamã! Morreu o pai do Renato!
- O Sr. Serafim? Não me digas! Como é que soubeste?
- Toda a gente na escola falava disso.
- Coitado! E de que é que morreu?
- Ouvi dizer que tinha sido de leucemia – apliquei-me a dizer uma palavra tão cara e que me dera algum trabalho a decorar.
- Ah! Realmente ele sempre teve uma cor muito macilenta – comentou, inteligentemente, a mamã.
Passados uns minutos chegou o meu pai.
- Ó rapaz! E sabes quando é que ele faleceu? – perguntou-me ele.
- Ouvi dizer que na 5ª feira. E o enterro foi hoje de manhã.
- Então já foi o funeral! Agora só nos resta ir apresentar as condolências à viúva – decidiu rapidamente o papá.
- E temos de avisar as pessoas – decidiu, de novo rapidamente como era seu hábito.
E assim, a infausta notícia, ao início da tarde de sexta-feira propagou-se velozmente.
Telefonema para aqui, telefonema para ali, ficou combinado que no domingo seguinte, depois do jogo do Porto, o Sr. Oliveira, amigo de ambas as famílias e que também ía a banhos para a vila minhota onde minha mãe nascera, bem como o meu primo Zé, segundo filho da minha tia Bela que estava a estudar Economia (melhor seria chamar-lhe Gastadoria), viriam ter a nossa casa para depois irem os três a casa do Renato apresentar os pêsames à viúva.
E assim chegamos a domingo.
Pouco antes da hora de comer, tocou a campainha.
Era o Zé. Grande calmeirão, um verdadeiro “senhor-de-não-te-rales” que quando ficava atrapalhado gaguejava um pouco. Vinha, como habitualmente aos domingos, almoçar connosco.
Aberta a porta, disse ele:
- Sabem que ontem à tarde ia morrendo de susto? – solavanqueou .
- Mas porquê? – perguntou o pai.
- Vi o morto a passear em Santa Catarina – desabafou o coitado, ainda visivelmente afectado pela visão de um morto-vivo.
- Mas como é possível? Ele está vivo? Tu tens a certeza que ouviste bem? – atirou-me o pai com cara de poucos amigos.
- Ouvi! Todos diziam “morreu o pai do Renato”.
- Bom! Vamos tirar isso a limpo. Ó mulher! Chega-me daí a lista telefónica! – ordenou o chefe da família.
E passado um pouco, estava o meu pai a falar ao telefone com o morto-vivo, arranjando um pretexto qualquer para tão inopinado contacto.
Enfim, estava tudo esclarecido!
Tudo, não! Afinal porque é que toda a malta da escola dizia que tinha morrido o pai do Renato? Isso já seria mistério para eu desvendar.
O resto do dia decorreu com a normalidade de um domingo de futebol. O Porto ganhou, o que era sempre bom para os humores estarem do lado positivo,
Ah…já agora fiquem a saber que o Sr. Oliveira não tinha sido avisado de que o morto afinal estava vivo, pelo que depois do jogo apareceu vestido de escuro e gravata preta.
- Ó amigo! Afinal o Serafim está vivo! – informou o meu progenitor.
- Como? – balbuciou o Oliveira com a maior cara de parvo que se pode fazer.
E lá lhe contaram a história.
Afinal, a “morte” do Serafim tinha dado azo, não a uma romagem a casa da "viúva", com lágrimas e lamentações, mas a umas boas risadas.
Na segunda-feira, perguntei a uns colegas se o pai do Renato Nuno sempre tinha morrido. Não! Afinal tinha sido o de um outro Renato, de que eu nunca ouvira falar e que vivia numa área um pouco afastada da minha casa, mas que era bem conhecido de muitos alunos que viviam para esses lados, embora ele fosse mais velho e não andasse naquela escola.
Estão agora a perceber como é que eu, durante quasi quarenta e oito horas, fui o “assassino” de um pacato cidadão?


publicado por António às 15:52
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